O corpo que a gente habita

[Cartas que escrevi na cozinha #2]

Carla Soares
May 9, 2018 · 7 min read

Nos últimos nove anos minha vida tomou um novo caminho e é interessante fazer esse retrospecto, por mais óbvio que possa parecer, pois todas as mudanças se refletiram no meu corpo. Fui uma criança muito magra, uma adolescente que teve vergonha do próprio corpo por não corresponder ao padrão estético dominante e entrei na fase adulta tendo que refazer um caminho de regaste do amor próprio. Caminho que não terminou.

Nos últimos nove anos, meu corpo mudou. De menina magra, fui ganhando outro corpo. Confesso que não sei como expressar isso: gorda? pesada? Sentia que precisava ressignificar a relação que construí com o meu corpo. Passei a receber recriminação na minha família, em especial da minha mãe, por estar, segundo ela, “gorda” e, consequentemente, “feia”. O olhar externo ainda valida a minha auto-aceitação.

(…) Venho me sentindo violentada por coisas muito maiores que eu. Passei a pesquisar por conta própria textos para entender essa realidade que tanto machuca. Eu não quero odiar o meu corpo. Quero me sentir bem nele. Quero ser generosa com ele. M.C.


M.C.,

Umas semanas atrás resolvi pintar minhas unhas de vermelho. Eu nunca fui muito assídua nesse ritual de pintar as unhas, mas, de vez em quando, sinto vontade. E vontade de colocar vermelho, daqueles bem abertos que quase beiram o laranja, pois é uma cor muito marcante e não deixa passar despercebido que as unhas estão pintadas. E se eu fiz foi pra ser notado. Então, quase sempre pinto da mesma cor.

Fui eu mesma quem pintei, e acho que já tinha uns três anos que não fazia as unhas por conta própria. Deixei que os outros pintassem bem pouquinho nesses últimos anos também. Devo ter ido ao salão uma meia dúzia de vezes, sempre nas ocasiões em que fui à Belo Horizonte visitar minha família.

Na última vez em que fiz isso, brinquei que parecia uma coisa meio Tieta do Agreste. Tieta, a personagem do livro do escritor Jorge Amado — que me lembro mais por conta da adaptação que gerou uma novela de mesmo nome no finzinho da década de 1980 — era expulsa da sua cidade do agreste pelo pai, numa situação muito injusta e humilhante, e ia pra São Paulo sozinha pra cuidar da sua vida. Vinte anos depois, Tieta volta pra sua cidadezinha perdida no agreste, toda transformada pela vida na capital, com roupas, cores, falas que entregavam em quem ela tinha se transformado e de onde ela vinha agora. Sua volta provoca uma verdadeira revolução no lugar.

Eu tenho uma lembrança bem viva da Tieta chegando, do contraste que as roupas coloridas naquela paisagem árida e terrosa provocavam, e não sei se tinha unhas vermelhas, mas eu poderia apostar que sim.

Essa coisa de ir pra capital, que na verdade é a minha cidade, e frequentar um salão e pintar as unhas de vermelho ainda é uma coisa muito recente e pouco frequente na minha vida. E nesse dia em que me deu vontade de pintar as unhas por conta própria, voltei a me lembrar da Tieta. Não é que aqui, no interior onde moro, ninguém ande de unhas pintadas — muito pelo contrário, as pessoas do interior costumam ter aquela coisa de um arrumado que as vezes soa até artificial, meio em choque com o restante do cenário. Mas me dei conta de que essa vontade súbita de pintar as unhas estava relacionada ao desconforto que estava sentindo com o modus operandi da cidade pequena. Era um jeito de me lembrar desses eventos de ir à capital e fazer as unhas. Pintar as unhas, estranhamente, era sobre essa coisa de todo mundo se conhecer e de eu ser permanentemente estrangeira, de fora, com sotaque e de as pessoas saberem de coisas sobre mim que não faço a mínima ideia de como sabem. Era sobre ter vontade de voltar a poder ser um pouco mais anônima, como são anônimas todas as pessoas daqui pra mim porque eu continuo me relacionando do jeito que sempre fiz. Era sobre marcar que as relações que as pessoas estabelecem aqui é diferente do que sei fazer, que seguem acontecendo desse jeito que não entendo. Sei que elas acontecem, mas só dou conta de seguir fazendo do meu jeito. Eu queria dizer que ainda sou a menina da cidade grande.

Eu sei que pra quase todo mundo pintar as unhas de vermelho ou de qualquer outra cor é uma coisa muito banal, que a gente mal para pra pensar que tenha alguma razão pra querer ou não querer. No máximo, a gente dá conta de falar uma razão genérica, cultural. Mas acho que não é muito comum ter clareza da razão, sua mesmo, pra fazer alguma coisa. Eu raramente tenho.

Não tem muita diferença entre pintar as unhas pra se sentir mais na capital ou pintar um quadro. Era uma tentativa de me expressar de um jeito que me soou familiar e, por mais que pareça tosco e imperfeito, pelo menos essa era uma tentativa.

A minha expressão sempre teve alguma coisa de muito corpórea. Quando você me conta, M.C., sobre como o seu corpo sempre acompanhou as mudanças que você vinha passando pela sua vida, consigo ver isso de maneira muito concreta. É um pouco como eu também estar usando o meu corpo esse dia, gravando alguma coisa com esmalte.

Aprender a se relacionar, a estabelecer um sentimento de amor próprio pelas mudanças que vão se sucedendo é um caminho que nunca vai ter fim mesmo, porque, assim que aprendemos a nos sentir confortáveis no corpo que habitamos, ele se transforma. Mudam as coisas que agora somos e, quando percebemos, nosso corpo começa a apresentar uma nova forma.

Não me lembro de já ter me sentido realmente confortável com o corpo que tenho. Quando pareço entender e saber conviver com quem sou, as coisas mudam. Aos 20, estava muito desconfortável, mesmo nunca tendo sido tão magra e, aos 26, quando encontrei um pouco de paz no que via e parei de me exigir certas coisas, fiquei doente e precisei de uma cirurgia que me deixou com sequelas; então, deixei de novo de reconhecer meu corpo. Aos 30, achava que estava voltando a ficar confortável, mas, agora aos 36, ficando mais velha, olho fotografias recém-tiradas e me acho muito estranha. Tenho perdido algumas roupas e não sei direito como me sentir sobre isso. Meu corpo e meu rosto seguem mudando e ainda não consegui incorporar de fato como ele está ficando.

Eu me sinto muito boba de estar de te contando como as minhas fotografias parecem não serem mais minhas e sobre a meia dúzia de roupas antigas que agora não cabem direito no meu quadril. Talvez seja parecido com você não saber me dizer como é a forma do seu corpo (gorda? pesada? será que poderia ser também redonda, grande, voluptuosa?). Porém, nenhuma dessas coisas é bobagem. É como se a gente não desse conta de reconhecer que existem tantas expressões onde é possível caber — que pode ser o da unha vermelha pra marcar um lugar no qual você se reconhece, mas também podem ser os gestos, as formas, o sorriso na fotografia, as cicatrizes e o que mais a gente conseguir significar na gente. Quando a gente e os outros à nossa volta não reconhecem que todas essas coisas são expressões possíveis e muito legítimas, parece que tudo o que resta é o desconforto.

É muito estranho que, com tantas coisas que nossos corpos são capazes de fazer e com tantos caminhos que encontram pra se modificar, a gente coloque tanta atenção naquilo que a gente come como a única forma de entender as coisas pelas quais o corpo passou.

A gente se esquece da quantidade de coisas que o corpo é capaz de manifestar: ele se desloca, sofre acidentes, gera outra vida, adoece, engorda, envelhece; ele se modifica de muitos jeitos inesperados. Ficamos constrangidas por essas marcas, quando, na verdade, muito do que elas fazem é nos permitir contar histórias. O olhar externo aprendeu também a não achar interessantes essas narrativas e, onde falta interpretação, sobram julgamentos. Não é por acaso que nós, mulheres, somos tão lidas pelos nossos corpos: é um jeito de se apropriar de uma das formas mais interessantes que a gente tem pra contar a nossa história. Quando a gente não consegue entender bem o que um corpo conta, também vai ter dificuldade de entender o que pode vir. Quando nosso corpo não tem direito de dizer de onde veio, nem pra onde deseja ir, passa a ser um objeto.

Essa história de não conseguirmos nos sentir bem nos nossos corpos é a história de todas as mulheres, com pitadas de particularidades mais ou menos dolorosas pra cada uma. É um caminho longo para estabelecer uma relação de mais generosidade com o que a gente sente, com o que a gente expressa, e com a forma que a gente consegue se relacionar com um mundo que parece nunca ter espaço suficiente pra gente — e daí dá-lhe desejarmos sermos pequenas, bem pequenas, o mais magrinhas que a gente conseguir pra não ocupar quase nada mesmo e não incomodar quase ninguém.

Tem algo de muito bonito em nomear e reconhecer o nosso tamanho, a nossa existência e as histórias que ficam gravadas na nossa pele. Eu sigo também sentindo meus desconfortos, mas, agora que sei que é possível ser um pouco Tieta do agreste quando pinto minhas unhas e que isso alivia minha aflição, consigo sentir mais respeito pelas coisas que vejo nos corpos dos outros. Sei que é uma coisa muito pequena, mas é através das coisas pequenas que as grandes se modificam e, de repente, pintar as unhas não seja assim algo tão banal.

Com amor,
C.


Esta carta faz parte da série Cartas que escrevi na cozinha, publicada mensalmente. Leia as cartas anteriores:

#1: Para fazer as pazes com a cozinha


Para ouvir o podcast que gravamos com Carla Soares, clique aqui!


Essa carta foi publicada na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Thanks to Seane Melo

Carla Soares

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Escrevo sobre comida e PANCs no http://outracozinha.com.br, e outras coisinhas no Mulheres que Escrevem

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