O exercício físico da escrita

Às vezes releio meus textos e me incomodo com a voz que existe ali. Quem é essa pessoa assertiva? Por que ela não é mais calma? Não dá pra respirar um pouco? Me acho bem caga regra e exagerada. É engraçado acompanhar o que as pessoas comentam. Seja ficção ou não, dizem que dou uns tapas na cara. Tento fugir dessa figura da mulher amarga e raivosa, mas quase sempre que escrevo, sou. Escrevo de uma posição privilegiada — e aqui não falo só de questões socioeconômicas.
Geralmente acontece dessa forma. Eu saio pra comprar um chocolate, caminho alguns minutos ouvindo música, lavo a louça, corto uns legumes e me bate uma certeza. Bate, é essa a palavra. Não consigo escapar de algum tipo de força. Então, como se não houvessem as batatas no forno, qualquer pendência ou hesitação, me rendo à ideia. Nesses momentos, escrever é o mais perto de uma salvação. Porque sei o que quero ainda que não possa prever aonde isso vai terminar. Começar um texto movida por essa vontade é se entregar a um fluxo imprevisível e é bom. Depois, quase como se saísse de uma onda ilícita, vem o confronto com o que fiz. Mas, por que, Taís, você escreve dessa forma afobada? Por que não organiza suas ideias? Por que é tão apelativa? 
A hesitação chega depois e tudo bem desde que durante aquele momento ainda me seja garantido existir sem dúvida. Escrever é mais do que escolher palavras e temas, é um exercício físico. Preciso desse gesto, caneta sobre papel ou dedos sobre o teclado, como uma hipnose. O que me garante não escrever como ofício, mas como alguém que devora barras de chocolate. Compulsão tem uma relação estranha com purificação. Se esgotar em qualquer ato é um perigoso alívio. Não saber o limite faz parte da graça. Querer mais parece melhor do que não ter vontade, embora esses percussos geralmente nos levem ao mesmo nada. Talvez eu escreva de um lugar de desespero, mas também de redenção. Detesto a ideia de estigmatizar artistas por seus limites psíquicos. Romantizar a dor faz ainda menos sentido neste século. Se assumo isso é simplesmente porque faz parte e certamente não me ajuda a ser uma pessoa ou escritora melhor. Eu espero o dia que possa saber se a escrita vem antes ou depois da obsessão. 
Diria que é irônico, mas não tem nada de engraçado nisso. A violência que fica explícita em alguns dos meus textos vem de alguns gloriosos minutos em que construo uma convicção. O resto da minha vida é só medo. Medo do futuro, medo de atravessar a rua, medo de altura, medo de ser só uma garota mimada, medo de ainda não entender minha história, medo da crise, medo dos meus sonhos, medo de mim mesma. O tempo inteiro posso sentir o medo me rondar. Já lidei com isso melhor. Passei alguns anos vestindo muito bem a persona de uma garota impulsiva que sai, bebe, vive. Se conto as situações em que me meti, ninguém acredita que sou tão apavorada. Acontece que minha tática para lidar com o medo era assumir que não tenho nada e, portanto, o que posso perder? Funciona bem. Principalmente se você ouvir muito Bob Dylan e conviver com outras formas de niilismo. Mas é, de novo, cair no vazio. 
Em 2015, resolvi que tenho, sim, o que perder. Que me importo com quem eu sou ou vou ser. Que a vida não está no meu controle, mas ao menos posso escolher como lidar com o descontrole. Tomei umas decisões que até agora não posso saber se foram certas. Com certeza fui atrapalhada, mas se não fosse assim, seria só o medo e o nada, mais uma vez. 
Tento ver o medo como um bom sinal e, depois, com a ajuda das tarefas mais básicas, ignorá-lo. Apesar do medo, há fome e a necessidade de cortar os legumes, colocar as batatas no forno, se alimentar, lavar a louça, começar tudo de novo. Apesar do medo, há os afetos que me chamam para novos lugares. Apesar do medo, há esses momentos que me prendem às pessoas e me fazem finalmente estar presente. Há as coisas no mundo que se não podem me salvar, me dão referências, me fazem ser parte de algo. Existe algum caminho entre a garantia do nada e da salvação. Um caminho onde há riscos, pendências, dores e prazeres. Um caminho em que a vida nunca se resolve e, ainda assim, acontece. 
O que escrevo não tem nada a ver com esse caminho. Escrevo para silenciar o medo. A violência é a força que manipulo para garantir alguns instantes de controle. Acho que serei uma escritora melhor quando me permitir às incertezas.