O quanto ganhamos lendo Virginia Woolf

Para ler Virginia precisei descobrir várias coisas sobre ela. E esquecer. Minhas primeiras pesquisas sobre a autora mencionavam o suicídio. Sua relação com Vita Sackville West. Fofocas literárias comparando seus escritos com os de Katherine Mansfield. Uma amiga me deu uma edição de Mrs. Dalloway e Orlando e eu não conseguia passar das primeiras páginas.

Várias autores dos quais eu gostava tinham Woolf como uma influência, mas os livros não fluíam fácil. Eu ainda não estava familiarizada com recursos narrativos como o fluxo de consciência, mudanças rápidas de ponto de vista. Precisei de tempo e de distância. Hoje não me surpreende que outras mulheres tenham aberto meus caminhos para suas obras.

Em Territórios Dispersos, Annita Costa Malufe comenta como ler os poemas de Ana Cristina Cesar como pistas do suicídio empobrece a compreensão de sua poesia. Voltei a Ana C. e percebi que procurava elementos trágicos nos livros quando eles não eram assim. Reli Sylvia Plath e entendi. Precisava olhar o texto e sem caçar traços autobiográficos e diagnósticos. Não há como realmente compreender o suicídio.

Virginia Woolf pintada por sua irmã, Vanessa Bell em 1912

Em 2012, trabalhava em uma editora que publicou Mrs. Dalloway. Tentei outra vez, não terminei. Li então a biografia A medida da vida, de Herbert Marder, e descobri outras Virginias. A leitora e crítica literária, a editora que publicou as obras de Freud em inglês, a mulher que escreveu contra guerras.

Quando a editora responsável por Mrs. Dalloway me perguntou o que achei do livro, admiti não ter ido até o fim. Estava curiosa, mas faltava convicção para ir até o fim. “Comece pelos ensaios, então você vai entender o humor, a ironia e vai encarar a ficção de outro jeito” — ela me abriu uma porta.

Meses depois, li Profissões para mulheres, um artigo baseado em uma palestra da escritora, na qual Virginia diz que toda mulher que se propõe a escrever precisa matar o “Anjo do lar”:

Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar — em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo — ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza — enrubescer era o seu grande encanto.

É assustador, porque todas conhecemos um Anjo do Lar. Woolf falou sobre ela em 1931 e seu discurso foi publicado em 1942. Quase toda mulher já ouviu sobre ser agradável, simpática, não dizer o que realmente pensa. É preciso matar o Anjo do Lar todos os dias e Virginia nos encoraja:

Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo.

Os textos de Profissões para mulheres e outros artigos feministas revelam um senso crítico afiado. Em A nota feminina na literatura e Mulheres romancistas, Woolf resenha livros escritos por homens sobre a produção literária das mulheres. Ela aponta recortes arbitrários, julgamentos imparciais e a repetição de estereótipos para desqualificar o trabalho das autoras. Não há nada de frágil ou que nos faça lembrar de depressão na segurança com que ela se posiciona. Na firmeza em questionar a ausência de mulheres no cânone literário inglês. Encontrei uma Virginia da qual queria me aproximar, com quem tinha muito a aprender.

Lytton Strachey and Virginia Woolf

Minha leitura seguinte foi Um teto todo seu, que também teve origem em uma palestra. Conhecido como o livro em que Virginia defende que uma mulher, para escrever ficção, precisa de um espaço no qual tenha sossego e uma renda mínima para não se preocupar com a sobrevivência, o texto concentra e desenvolve ideias mencionadas em vários artigos ao longo dos anos.

A escritora analisa uma falta de mulheres entre “os gênios” levando em conta a falta de acesso à educação, como a maternidade reduz o tempo que poderia ser dedicado a um trabalho criativo, os poucos empregos considerados adequados ao sexo feminino, limitando as chances de autonomia financeira.

Woolf imagina como seria a vida de uma irmã de Shakespeare. Quais empecilhos ela encontraria desde a infância por ser mulher, as responsabilidades que lhe atribuiriam no cuidado doméstico, o casamento e os filhos considerados como um destino natural. Enquanto isso, seu irmão jamais ouviria que cuidar dos outros é mais digno que se dedicar à literatura.

Desde 1920, Woolf reflete temas debatidos hoje. Dedicar-se à arte e ser reconhecida pelo establishment não é apenas questão de mérito. Há privilégios econômicos, educacionais e de gênero envolvidos no processo. [Privilégios de raça também fazem parte do jogo, mas como não encontrei esse tema nos ensaios de VW, vamos deixá-lo aos cuidados de outras autoras.]

A vida para ambos os sexos […] é árdua, difícil, uma luta perpétua. Requer coragem e força gigantescas. Mais que qualquer coisa, talvez, criaturas da ilusão como somos, ela requer confiança em si mesmo. Sem autoconfiança, somos como bebês no berço. E de que modo podemos adquirir essa qualidade imponderável, que também é tão inestimável, o mais rápido possível? Pensando que as outras pessoas são inferiores. Sentindo que temos uma superioridade inata. […] As mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural.

Recentemente, conheci a crítica literária Joanna Russ , que em 1983, analisou práticas comuns na forma como livros escritos por mulheres e as escritoras são desconsiderados. Russ cita Virginia Woolf como uma feminista que não teve sua obra tratada como tal por seu marido e herdeiros porque o termo era e ainda é mal visto. Foi um estímulo para voltar à sua fiçcão. Pedi recomendações sobre por onde começar no twitter. Decidi começar por Orlando.

O romance é uma paródia de biografia, traz críticas aos costumes sociais e ao mercado editorial, tenta registrar parte das mudanças na Inglaterra num período de 300 anos e faz uma declaração de amor à poesia. É a vida de um jovem da nobreza que um dia, por volta dos 30 anos, acorda sendo mulher. Sua inteligência, sensibilidade, memória não se alteram. Orlando é a mesma pessoa, mas seu sexo não.

Virginia alfineta a desigualdade e uma visão do amor baseada na idealização do outro, cheia de expectativas. Mulher ou homem, o papel de Orlando nas relações afetivas e a necessidade de amor são fontes de inquietação. A mudança não alterou sua paixão pela poesia, seu afeto por cães, nem sua curiosidade. É a socialização que faz com que Orlando observe como as mulheres são tratadas, o que se espera delas, e como ela deveria se comportar ao se tornar uma Lady.

Recordava como tinha insistido, nos seus tempos de rapaz, em que as mulheres devem ser obedientes, castas, perfumadas, e caprichosamente enfeitadas. “Agora, tenho que pagar no meu corpo por aquelas exigências”, refletiu: “pois mulheres não são (a julgar pela minha própria e curta experiência do sexo) obedientes, castas, perfumosas e caprichosamente enfeitadas já por natureza. Só podem conseguir essas graças, sem as quais não lhes é permitido desfrutar nenhuma das delícias da vida, mediante enfadonha disciplina.

O romance é cheio de momentos engraçados. Orlando tenta ser amigo de um poeta, mostrar seus versos e ele só vê qualidades em autores mortos. Frequenta círculos de intelectuais e fica calada, pois é uma bela mulher. Ouve senhores idosos repetirem as boas ideias que tiveram anos atrás, sem nenhuma novidade. Há momentos mais lentos em que a prosa vai da narrativa formal para um tom mais poético, no entanto, as provocações de Woolf são tão maravilhosas que a experiência é gratificante.

Virginia, seu cãozinho e Leonard Woolf

Enquanto lia Orlando, uma amiga disse que formou um clube de leitura via Skype. Eu me ofereci para participar e ela aceitou. Elas leriam Mrs. Dalloway. Era a hora de encarar um romance abandonado.

Embora tenha sentido uma certa dificuldades enquanto Clarissa caminha por Londres para buscar flores, pensa em sua festa, seu passado, seu casamento, vi surgirem trechos que nada tinham a ver com a imagem cada vez mais distante de uma escritora deprimida e reclusa a um círculo de amigos íntimos. Na festa de Clarissa coexistem as convenções sociais e um desejo de celebrar a vida sem um motivo especial.

Pois só os céus sabem por que a gente tem tanto amor por ela, cuida tanto dela, trata com jeito, constrói, desmonta, recria toda ela a cada instante em nossa volta; e as mulheres mais desmazeladas, mais abatidas pela desgraça, sentadas nos degraus das portas (sua ruína a bebida) fazem a mesma coisa; não há, sentiu com a maior convicção, como tratá-las por decreto parlamentar por causa daquela mesmíssima razão: elas amam a vida.

Mrs. Dalloway tem uma estrutura muito visual apesar do fluxo de consciência. Seguimos Clarissa Dalloway caminhando pela rua. Em um momento ela cruza com Septimus e passamos a acompanhar ponto de vista dele, depois o de sua esposa Lucrezia. Num momento, Peter Walsh deixa de ser uma lembrança da juventude de Clarissa, recém chegado a Londres. Navegamos entre os pensamentos de personagens que se esbarram em seus percursos pela cidade, conhecemos um pouco mais sobre eles em suas memórias. Embora um dia seja um recorte ínfimo de uma vida, temos a sensação saber quem eles são por lermos seus pensamentos.

Embora não tenha gostado dos personagens de Mrs. Dalloway, eles me emocionaram. Clarissa parece se apegar à superficialidade evitando se perguntar sobre a vida por medo de chegar à respostas que revelem a falta de sentido. Ela se cerca de beleza e busca conforto nisso.

Septimus vive uma dor incomunicável ao sobreviver à Primeira Guerra. Lucrezia é incapaz de entendê-lo, frustrada com como a vida é tão diferente de suas expectativas. Peter é suscetível a emoções que o ajudem a não lembrar de um amor não correspondido. Richard tem dificuldade de se expressar.

Mrs. Dalloway é perpassado por um sentimento de inadequação diante do papéis sociais. Todos parecem conhecer a sensação de que falham em representar o papel que lhe cabe. Experimentam um descompasso entre quem são, como se sentem e o que parecem. Podemos não ser cativadas pelos personagens, mas suas questões despertam identificação, angústia, empatia.

Meu percurso para me aproximar de Virginia Woolf e apreciar sua ficção levou anos, mas tem sido um instigante. Sinto tristeza ao perceber como suas observações sobre a vida das mulheres ou o tratamento sua ficção são atuais. No entanto, sua coragem, seu compromisso com a experimentação nos textos e o que dividiu com as mulheres que de dispuseram a ouvi-la foi muito rico. Ler Virginia Woolf pode ser um trajeto não linear, com avanços lentos, dúvidas, releituras e pausas. Estou feliz de não ter desistido e recomendo as tentativas.