O Senhor Médico

Para querer se cuidar, basta muito mais do que apenas querer

Arte por Don Kenn

Estava andando na rua com um rumo. Muitos barulhos se mesclavam. Ouvia de longe uma criança chorando, mas poderia ser um gato. O vento uivava dentre as árvores e havia também barulho de trânsito. No final, não era uma criança chorando, mas sim um homem tocando saxofone. Era um homem mais velho, deveria ter uns 70 anos. É incrível como a gente relaciona o fazer-com-excelência com idade. Não era o caso. Deve ter sido por isso que achei ser um choro de criança.

Deveria ser o choro da minha criança interna, porque meu rumo era um médico. Um médico homem. Um médico homem e endocrinologista. Cada parte com sua problemática.

Continuei caminhando e pensando no quão cruel tinha sido o inverno. E tinha sido mesmo. Além de cruel, longo. Pensei sobre aqueles meses de academia que não tinham adiantado de nada. Eu e Adele, que tocava constantemente nas aulas de aeróbica, éramos as únicas gordas naquele ambiente hostil tenebroso. Pensei também sobre qual ou quais desculpa(s) eu daria por estar tentando perder peso. Eu, aquela que as pessoas conhecem por ter um discurso de autoaceitação (mas que provavelmente desconhecem por ter um também discurso maior sobre autocuidado).

De qualquer forma, eu realmente precisaria caber nas roupas do verão passado porque não tinha dinheiro para comprar roupas novas. Fui trabalhando essa argumentação na minha cabeça. A pressão social é pesada demais. Eu tento e combato, mas às vezes cedo.

Toco a campainha, me atendem eletronicamente e me sento no hall da recepção desconfiada. Minha cabeça estava trabalhando o tempo todo, desde que saí de casa, já tentando antecipar todas as possíveis investidas negativas. Vesti minha roupa mais leve para subir na balança. E além de tudo, era um homem. Eu não me esquecia disso. Será que teria que tirar a roupa na frente dele? Será que ele ia tentar me diminuir? Tentar alguma coisa?

Observei todos os detalhes inúteis daquela sala de espera. Como um guarda guarda-chuvas (tem um nome?) ridículo com o Cervantes sentado em um cavalo em uma desproporção surreal. Porém romântico.

Ele abre a porta do consultório e estende a mão para mim. O Senhor Médico deve ter por volta dos seus 70 anos. Apesar da conversa estar boa, continuo um pouco apreensiva. Subo na balança, ele constata que realmente estou acima do peso, mas já não era surpresa pra ninguém.

Ele mesmo não está tão em forma assim, o que me surpreende. Fazemos umas contas, ele me passa alguns exames e por incrível que pareça, eu saio completamente aliviada — ou eu poderia fazer a piada infame de dizer ~ mais leve? — do consultório.

Aliviada talvez pela experiência ter sido tranquila e positiva. Talvez também porque finalmente aquela tortura mental havia acabado. Talvez aliviada por ter encontrado alguém de 70 anos que soubesse fazer uma coisa muito bem, nesse dia desesperançoso. Mas sei que não deveria ser normal para ninguém sentir essa apreensão e medo antes de sequer marcar um médico. Para querer se cuidar, basta muito mais do que apenas querer.