Processo criativo da escritora como objeto de amor

Não fui uma criança mentirosa. O medo de ser descoberta era insuportável demais. Além disso, minha infância e adolescência foram tumultuadas como a vida de uma filha de pais superprotetores pode ser. Mínimos os delitos.

Na verdade, era boa mesmo em descobrir as mentiras dos adultos. O que também era angustiante. Eles mentiam, eu descobria e então a mentira dobrava em omissão. Um jogo de gestos vazios que mais tarde entendi que faz parte da dinâmica de muitos relacionamentos. Vamos fingir que não estamos vendo, ouvindo, sentindo.

Outra coisa que me enervava era assistir minha mãe falando sobre mim para os outros. Me ver ali no discurso em terceira pessoa estando ao seu lado era (ainda é) perturbador. Tanta vezes ao telefone ela narrou minha vida e então descobri que quem eu sou pode ser compreendido de perspectivas muito distantes. O que eu faço ganha outra realidade pra quem assiste. E o que sou pode ter nuances, sombreados e o tom que eu escolher manipular. Ou não. Independente do trabalho há sempre a interpretação.

Inventar é a minha desde que domino a autoridade de enunciar pronomes e posses. Me especializei na carência de eventos. Pediam experiências e casos, então, usava o hábito para ter como participar. Qualquer encontro que caía nas minhas mãos era material de criação. Um flerte se vestia em promessa. Não mentia, apenas continuava, por conta própria, minhas histórias interrompidas. Até acreditava que nas próximas férias ou esquina se materializariam as previsões. Inventar é um poder de visão. Já senti na espinha de um déjà vu que em três dias teria meu amor não de volta mas enfim em meus braços. Quando acertei sabia que seria meu fim.

Me pergunto há muito tempo se esse vício na primeira pessoa não me desqualifica. Talvez só seja escritora porque ainda não posso ser a Kim Kardashian. E me diziam em algum dos tempos em que fui que arte não pode ser vazão para o narcisismo — se bem que diziam muitas coisas nessa época.

Então escrevo e te confundo em uma declaração de quem ama três pessoas e outros cinco personagens. Acho que é justamente porque escrevo que posso ser (a Kim Kardashian ou seu amor).