Ilustração por Matt Cunningham

Profs

A professora tinha a cara, corpo e cabelo de quem comia rabada às quintas-feiras

— Posso sentar aqui, Fessora?

Já estava na cadeira antes de ouvir a resposta. Do pescoço para cima, Geórgia parecia alguém saído de uma revista. Blush, iluminador, sombras em tons de pele, tudo aplicado nas áreas certas, davam ao seu rosto a impressão de um pôster retocado no photoshop, com a única diferença de que ela se movia. Além disso, ninguém que aparecesse em revista viria a uma lanchonete sebosa como aquela, onde os balcões se colam à pele do braço se você se apoia neles. Era só ao baixar os olhos que dava para perceber que ela era mais uma aluna. Vestia o uniforme vermelho e branco, um par de tênis novos, tudo em tamanhos largos que disfarçavam a pequena borda de gordura que escapava pelo elástico da calça.

Era quinta-feira, dia de rabada. Geórgia sabia que ela estaria ali. Dona Leah, professora de física. A professora tinha a cara, corpo e cabelo de quem comia rabada às quintas-feiras. A senhora, de rosto chupado e raízes brancas no cabelo, não pareceu muito interessada mas assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos de uma cartilagem mais teimosa.

Geórgia passou os olhos pelos balcões, depois pelas mesas de fórmica, cada uma com seu saleiro cheio de arroz, sua lata de “azeite” com dois furos no topo e o porta-guardanapo de metal que continha um papel tão fino e impermeável que só servia para espalhar mais a sujeira. A barra estava limpa. Nenhum outro professor. Dois ou três alunos bebendo refris em uma mesa do lado de fora.

— Você já viu meu Vlog, profs? — e vendo a cara de confusão da velha — é um canal no Youtube. Maquiagem, cabelo. Isso tudo — fez um gesto circular em torno do rosto.

Dona Leah limpou um pouco do molho castanho que caiu no suéter. Não costumava lembrar bem de todos os alunos, mas aquela vivia com a cara empastelada. Impossível não notar. Além de tudo ia mal, e quando havia exercícios na lousa, evitava sempre o contato visual.

— Não sou muito de Youtube.

— Tudo bem. Mas olha. Mais de 20 mil seguidores. Outro dia ganhei uma caixa da Avon. Está vendo? Pega um batom. Vamo, pega. É da linha nova.

— Hum.

— O que eu queria te dizer é que eu levo o vlog muito a sério. É uma profissão. Tem que pesquisar, filmar, editar. Dá pra ganhar dinheiro, profs. Se levar a sério.

— Não diga.

— É sim. Estou ganhando muito dinheiro sabia? O problema é que não sobra muito tempo pra outras coisas.

— Como estudar.

— Como estudar.

Dona Leah começou a limpar um osso com a ponta da faca.

— Só que o tonto do meu pai não entende. Não entende que Youtuber não precisa de diploma. Ele quer que eu tenha média sete. Não tem condição de estudar tanto e filmar, editar, responder comentário. Daí…daí eu pensei que a gente podia dar um jeito. Eu tou bem nas outras matérias. Menos na sua.

— Eu posso te passar uns exercícios a mais. Valendo nota. Vai dar certo, menina.

A risadinha da menina não encontra saída pela boca, e acaba virando uma fungada pelo nariz.

— Não tenho tempo pra isso, profs. Não é mais fácil você me vender o gabarito da prova? Quanto você quer? Mil? Dois mil?

Com um bastão de polenta frita, Dona Leah foi limpando a grande lagoa de molho que restava no prato. As unhas eram bem feitas.

— Escuta, menina. Isso que você tá propondo é muito sério. Já pensou no que acontece se alguém descobrir?

— Três mil? Mais do que isso é forçar a barra, profs.

— Eu gostava de dinheiro também quando era nova. Agora não gosto tanto assim.

— Todo mundo gosta de dinheiro.

— Eu gostava muito quando tinha sua idade. Eu gostava de livros. Livro era muito caro. Doce também. E meu pai era durão, como o seu. Mais, até. Bem mais. Não queria saber de bobagem. Daí fiz como você. Dei um jeito de me virar. Pra ter o meu dinheirinho.

O prato agora estava repleto de guardanapos rasgados, amassados em bolinhas, torcidos. Geórgia pegou também um guardanapo, que começou a dobrar em tiras cada vez menores.

— Mas não tinha youtube. E eu também não levo jeito pra maquiagem. Agora pra matemática… eu era muito boa, você pode imaginar. Comecei a cobrar por trabalhinhos. Fazia as lições de casa. Trabalhos de grupo. Passava cola nas provas. Hahahah, o que foi? Acha que nunca fui jovem?

— Deu certo?

— Por um tempo deu, sim. Eu era bobinha. Achava que ninguém estava olhando. Que os adultos eram meio idiotas. Você me entende. Entende, não é?

— Hum-hum.

— Pois bem. Muito esperta. Mas eles não eram tão idiotas assim. Ainda mais o professor de matemática. O Pontes. Eu gostava dele e achava que ele gostava de mim, me chamava sempre pra responder às perguntas difíceis. Só que de repente, eu não era mais a melhor aluna da sala. De repente, metade da sala acertava as mesmas questões na prova, errava nos mesmos pontos e entregava lição de casa com resultados iguais. Ficou na cara. Quando penso nisso hoje, me dá até vergonha. Daí, um dia, a última aula era do Pontes e, antes de liberar a sala, ele disse Leah, você fica. Você consegue imaginar o que aconteceu?

O guardanapo nas mãos de Geórgia estava agora bem fino, e ela o enrolava e desenrolava no dedo indicador. A professora afastou a mão direita de Geórgia e com três dedos tirou dela o caracol de papel. O rosto imóvel da aluna parecia mais do que nunca um recorte de revista.

— Nada. Nadinha. Ele me deu um pito, deve ter falado até a língua inchar. Ameaçou contar pro meu pai se aquilo acontecesse de novo. Justo eu, uma aluna tão boa. Hahahaha. Já estava anoitecendo quando ele terminou a lição de moral. Eu estudava à tarde, morava longe, estava um caco depois da bronca. Acho que estava tremendo por ter sido pega, porque ele me ofereceu uma carona. Meu pai também notou que eu estava tremendo. Notou também o carro com um homem mais velho na porta de casa. E o que disse pra ele que aconteceu, foi tudo aquilo que você pensou que ia acontecer quando eu disse que ele ficou sozinho comigo na sala. Meu pai era um cara durão. Muito mais que o seu. No dia seguinte, no meio da aula, quase arrebentou a porta e, depois, a cara do Pontes. Ali, na frente de todo mundo. Voou cuspe e sangue em toda a primeira fila. Papai arrastou o sujeito para a sala do diretor e, quando acharam a minha pasta no carro dele, não tiveram nenhuma dúvida. Demitiram o homem, sem dó nem piedade. Agora —Leah tomou um gole do gelo que derreteu dentro do copo — você sabe porque estou te contando isso, menina?

— Não.

— Porque eu não sou o Pontes. E você não é, definitivamente, eu.

O batom oferecido pela aluna continuava sobre a mesa. Com um movimento desastrado, Leah se levanta com a bolsa no ombro, e uma das alças escorrega pelo braço.

— O gabarito sai 5 mil. E você vai tirar só oito e meio, senão ninguém acredita. E olha, vê se não esquece de pagar a rabada antes de sair.


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Esse conto foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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