Quatro poemas de Priscilla Menezes

O imenso prazer do susto

Ilustração de Priscilla Menezes

Colisão

Meu rosto, a setenta por hora, virado para luz artificial
um tropismo estranho, que era mesmo vergonha de te olhar
minhas olheiras deviam estar enormes e estavam
e além disso eu me sentia com irremediável expressão de alívio
desde a hora que te encontrei
eu notei um pequeno rio que corria pela tua nuca
o nascedouro em lugar desconhecido
preso nalgum ponto do teu cabelo 
noite quente e o rio na tua nuca a setenta por hora
e eu não sabia por que estava indo embora se tinha faltado te falar da ilha
dos seus contornos ferozes
como se tivesse sido separada do continente por uma mordida
faltava contar da ducha abundante na casa da minha mãe
dos dias de sol pleno
de ter pegado um ônibus lotado, que quebrou bem no meio da avenida beira-mar
justo quando eu estava chorando atrás de uns óculos baratos
(sem proteção UVB nem UVA)
não te contei dos meus rompantes de despudor
da gula violenta
não te contei que chorava porque subitamente me vi de novo
no mesmo lugar de sempre
e que esse é o motivo pelo qual eu mais choro
a noite derretia minha franja cheia de laquê
eu sentia uma coxa escorregar na outra quando
a luz artificial já era imensa
e era então a luz de um caminhão que ia bater na gente
a primeira coisa que pensei foi que não ia mais ver a noite quente
a ilha, a ducha abundante, a tua nuca
e logo veio outro carro se meter na história
os três agora, nós a setenta por hora e o caminhão provavelmente a uns oitenta
aprendi na aula de física que para calcular a velocidade média de uma colisão
na qual os veículos vem de direções opostas, basta somar a velocidade de ambos
(se fosse uma batida na mesma direção, helás!, teria que subtrair)
vamos então a cento e cinquenta por hora rumo ao terrível clímax
- o carro que vem de lado eu não sei botar na conta
agarro teu ombro e enfio a cara nele
sem querer te mordo quando o carro gira
lembra aquele filme do Resnais 
lembra aquele vestido que eu comprei e nunca usei, acho que ia ficar bom
lembra o sorriso daquela menina linda que te fez hesitar
lembra que estávamos indo para casa e morrendo de medo de nós dois
lembra que isso aqui é uma encruzilhada
e que ninguém nunca me ensinou que onde os caminhos se cruzam também colidem os corpos
som e silêncio na mesma frequência
ninguém me ensinou que quando tudo passa fica esse manancial
esse choro de represa rachada
e depois esse riso torto 
essa dor sem fonte
essa cicatriz suave
e enfim essa luz bem menos artificial que a da noite 
essa que emana a memória do perigo
tão feroz quanto a silhueta daquela ilha
tão guardada no corpo quanto o aviso de que a vida é mistura perigosa de caminhos
véspera do choque paixão silenciosa a imensa dor do susto 
o imenso prazer do susto


Ilustração de Priscilla Menezes

Museu de História Natural

Persigo o estado meditativo 
 rodeio os esqueletos do Cretáceo
 Permaneço atenta ao ar que inspiro
 e expiro, tento deslizar
 cuidando para não pensar demais
 afronto a queda, fluo
 como quando andei bêbada de bicicleta
 A vida é frágil, firme e se estende
 nas altitudes rarefeitas
 nos abismos preenchidos de água escura
 no cerne da matéria densa
 Há vida no oco, nas eras geológicas, em mim
 Há em mim uma extinção, uma matilha
 um estranho recurso mimético
 Há vida marinha nos meus ossos
 Há a insubmissão das feras e a circunspeção das plantas
 Mas também não há nada disso: há o mistério
 de eu estar tão decididamente aqui e ser supérflua
 à cada forma de vida que me precede e especialmente
 às que me sobreviverão
 Tento não coincidir com o que penso
 mas algo em mim celebra
 essa inesperada liberdade


Ilustração de Priscilla Menezes

Autoconhecimento

Piso na cidade úmida em direção à emergência vinte e quatro horas
Piso na trilha de água quente que liga o calçadão de Copacabana a seu incerto mar
Há uma mulher que lê Hans Staden na praça de alimentação.
Há um homem que confunde todos os corações
Há a suspeita de uma doença rara que se abate sobre um corpo indeterminável
Há uma pilha de livros do lado direito de um braço que se estende
na direção do mais impuro amor
É possível que nesse instante dois contrários se anulem
E que o mistério de um desejo nunca enunciado se revele
num gesto percebido pelos mesmos olhos
que agora levo à emergência vinte e quatro horas
Você limpa os vestígios de um dia de praia
A areia condensada em forma de monte bem no meio da sala
Você passa os dedos sobre o livro do navegador que escapou por um triz
E menciona a possibilidade de coincidir uma experiência sobrenatural
com uma confusão lisérgica e
uma certeza lógica
Essa é a mesma possibilidade que me faz permanecer indo
em direção ao mar, à emergência, à praça de alimentação
Investigando maus súbitos
canibais, mares impróprios para banho
como se olhasse a mim


Ilustração de Priscilla Menezes

Ninguém é Ana C.

Debocho da assimetria
Profetizo passados, crio sistemas de medida
Esvazio e preencho o mistério
Ainda não estou curada
Amém
Ainda ontem voltei à cena do crime
Pelo menos três crimes naquela mesma esquina
Um eu cometi contra você quando roçávamos joelhos
Encarávamos a tevê do bar e dividíamos uma porção engordurada
O outro você cometeu contra mim, quando roçávamos joelhos
Um silêncio tão bruto e tão alegre
O terceiro não teve vítimas nem culpados
Foi súbito, terrível, maravilhoso
Na tevê anunciavam a cotação de um dinheiro estrangeiro
uma manobra espacial, a cura de uma doença rara
Você sorria calmo
As flutuações monetárias, a solidão dos astronautas e todas curas
Não eram mais incertos que o seu sorriso
Retoquei o batom, sujei seu garfo e depois seu corpo
Sem testemunhas
O mistério suspenso, sem medida nem história
Mas ninguém sobreviveu


Priscilla Menezes, atualmente, desenvolve pesquisa de doutorado intitulada O feminino mal-dito como abertura ao pensamento poético. Acredita, portanto, que há algo que se possa chamar de pensamento poético é em torno dele que produz a sua vida: pesquisando, escrevendo, desenhando. Acredita também e sobretudo: no retorno à terra, na força indomável da mudança, na magia, na qualidade perene e multiforme do amor.


Estes poemas foram publicados na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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