Rory Gilmore e as garotas que acreditaram que eram realmente especiais

Esse é um texto com público limitado. A segunda pessoa do plural aqui se refere a um grupo de mulheres que possuem problemas psicológicos causados por Gilmore Girls.

Tem spoiler o tempo inteiro.

Desde sexta estamos monotemáticas. O assunto, mais do que o revival, é o caráter da já não tão jovem Rory Gilmore. Na linha do tempo das redes sociais, amigas e conhecidas criaram um verdadeiro embate. Toda hora surge um novo textão. Há de fato quem esteja tão envolvida que confunda a personagem com seu próprio ego e fique profundamente magoada com as críticas. Há quem se apoie nas falhas de Rory para enfim julgar todas as millennials que podem arcar com um jeitinho mimado de não encarar a realidade do mundo. Já vi até lançarem mão da famigerada classe média também sofre para justificar os erros de Rory.

Só por essa reação marcada por intensos debates já fica óbvio por que Amy Sherman-Palladino é genial.

Não vou negar, eu fico em cima do muro. Rory jamais seria minha amiga, mas eu adoro sua narrativa. Consigo defender seus atos enquanto uma personagem, mas uma pessoa com essas condutas seria apenas detestável.

No revival de Gilmore Girls que foi ao ar na última sexta, encontramos uma Rory aos 32 anos que não é nada do que poderíamos esperar da Rory que conhecemos na primeira temporada de Gilmore Girls, aquela jovem obstinada a entrar em Harvard que parecia ter um futuro tão promissor.

Eu já amo isso, porque, sejamos sinceras, quem aos 30 anos para e pensa Nossa, estou exatamente onde achei que estaria aos 16 anos?

Eu não sei, ainda tenho 26 anos, mas devo dizer que desde que entrei na universidade fui acometida por uma crescente sensação de não tava preparada pra essa merda. Então, acredito que aos 30 eu não esteja exatamente onde sonhei que estaria. Isso é algo que reconheço já sem dor, a vida escapa dos nossos planos e ainda bem porque significa que o que a gente sabe — sobre nós mesmas e o mundo — está sempre mudando, o que me parece desafiador, mas mais interessante do que ficar eternamente presa na mesma concepção de mundo.

Aos 32 anos, no entanto, Rory nunca foi tão Rory no que diz respeito aos seus pontos negativos. O ponto possivelmente mais grave: Ela ainda se enxerga como um modelo de perfeição que é admirada por todos. Dá até pra entender, afinal, Rory sempre foi venerada por todos, não só por sua mãe, mas também os vizinhos, professores e namorados. Pode ser que a culpa seja dessa galera chata pra caralho de tanto pelar o saco da garota. Mas, depois de uma certa idade ficar apontando o dedo é contraproducente, se Rory não admite, somos nós mesmas — suas espectadoras — que precisamos reconhecer sua responsabilidade. O erro aí é que ela (e nós?) acreditou nessa narrativa e agora é uma mulher de 32 anos que ainda acha que é mais especial do que o resto do mundo e por isso age como se estivesse realmente predestinada a um futuro promissor — ou seja, bem loca.

Acontece que quem é predestinado não precisa se esforçar, afinal, as coisas vão acontecer. É com essa convicção que Rory enfrenta entrevistas de emprego como se aqueles veículos devessem agradecer por seu interesse em vez de encarar a realidade de um mercado de trabalho fodido no qual é ela quem deve agradecer por qualquer tipo de oportunidade.

Assistir Rory se ferrando foi maravilhoso. Amy Sherman-Palladino poderia contar a história de outro modo, poderia ter mantido a narrativa impecável de Rory como uma garota mimada que sempre consegue o quer e é admirada por todos. Na verdade, no início da série ela nos dá a impressão de que é isso que vamos encontrar, porque vemos uma Rory recém publicada na New Yorker, mas logo logo nos deparamos com as falhas de percurso e daí é ladeira abaixo.

Tem muita gente que ficou extremamente frustrada com a Rory do futuro, afinal, quem é essa mulher? Como pode nossa garota genial e lindinha ter se tornado essa pessoa sem paixão, sem perspectivas e ainda por cima imoral tendo um caso com um cara noivo? As pessoas alternam entre o desapontamento, a raiva e a urgente necessidade de defender Rory, mas, em meio às discordâncias, um fato parece ser consenso: Rory Gilmore fracassou.

Esse consenso diz muito sobre quais são nossas medidas de sucesso e felicidade. A mulher tem 32 anos e não tem uma carreira consolidada, voltou a morar com a mãe e ainda vai ser mãe solteira? Pode ter certeza que ela é um fracasso.

O futuro promissor que esperávamos de Rory quando éramos jovens definitivamente não contava com essas falhas. O que esperávamos é que aos 32 anos Rory pelo menos já fosse uma escritora respeitável ou uma jornalista premiada, tivesse um PHD, convenhamos, imaginávamos que ela tivesse no mínimo um relacionamento amoroso decente.

Nós somos equivocadas desse jeito: Se não encontramos nossas expectativas, é porque algo está irremediavelmente perdido. Isso diz muito sobre quais são nossas medidas de felicidade, realização e sucesso. Sutilmente, Palladino faz com que nós, as garotas que cresceram junto com Rory, encontremos nossa própria moral. Porque, sim, nós temos uma imagem nítida do que é ser uma mulher de sucesso, uma imagem bastante limitada que não considera outras formas de felicidade e realização pessoal além de um padrão de reconhecimento profissional. Uma expectativa que é um equívoco por muitos motivos, mas, principalmente, porque nos faz infelizes e insatisfeitas com nós mesmas. O fato é que o fracasso de Rory irremediavelmente nos afeta, porque sua narrativa, seja como espelho ou antagonismo, faz parte das nossas narrativas.

Outra mulher que rompeu com ideais foi Lorelai. Ela também corresponde a um fracasso, a um desvio no meio do que deveria ser. O carisma e a força dessa personagem é justamente porque ela conseguiu transformar essa falha em seu caminho. Mesmo tendo construído sua própria história com algum sucesso Lorelai sempre precisou lidar com julgamentos morais. Sua mãe nunca aceitou que ela não tivesse se casado, as mães das colegas de Rory acham que ela é uma má influência, seus vizinhos condenam a instabilidade de sua vida amorosa, sua própria filha às vezes joga na sua cara que ela não é uma mãe tão boa assim afinal. Lorelai criou quem ela é através de um desvio e foi obrigada a lidar com suas falhas de conduta para o resto da vida — se pensarmos bem, Emily também passa por isso.

Eu também acho que Rory fracassou, mas acredito que isso pode ser bom. O título do revival A Year in a life pode se referir ao ano em que Lorelai finalmente casou e Rory engravidou — dois acontecimentos tradicionalmente memoráveis na vida de uma mulher -, mas também pode ser o ano em que Rory e Lorelai se deparam com uma grande curva em suas vidas e foram obrigadas a questionar qual é mesmo o sentido de tudo isso.

Acho bonito ver Rory toda zuada nesse momento em que o destino escapa do seu controle e a predestinação se espatifa. Talvez depois desse ano, Rory enfrente um conflito profundo entre quem foi e quem se tornou de modo que seja capaz de questionar o que realmente deseja em vez de se apegar ao potencial e aos desejos de seu eu adolescente. Pode ser que esse suposto fracasso seja um início, no qual ela consegue sair um pouco de sua zona de conforto e enxergar que o mundo é imensamente maior do que sua narrativas individuais. Em resumo, pode ser que, tardiamente, Rory descubra que não é tão especial assim e que tudo bem, vida que segue, com comprometimentos e vontades enfim desprotegidas da validação alheia.

Há muita gente que interpreta o revival de outra forma. Há quem ache que o problema não é Rory, é o mundo, é o mercado de trabalho, é a crise existencial. Acho que pode ser tudo isso, mas principalmente, é um erro de perspectiva que pode ser solucionado com novos parâmetros. O que Rory precisa não é empatia ou compaixão, mas, sim, perceber que seu fracasso e sua vitória são igualmente insignificantes.

Compreender a posição privilegiada que ocupamos não é só uma questão de crítica social ou possível altruísmo — até porque não sei exatamente qual é o valor disso -, mas de questionar e recriar os próprios limites. Reconhecer que somos pequenas diante do tamanho e da confusão que é a realidade fora da nossa bolha é dolorido, mas importante. Entender que até a nossa dor é minúscula pode ser o começo de um movimento. Não ser especial é encontrar soluções e possibilidades fora das falsas promessas, o que é difícil, mas é a única maneira de estar de fato nesse mundo sem depender de respaldos.

Rory é uma personagem que participou da formação de uma geração de mulheres. Ela foi um ideal, uma amiga, uma possibilidade, uma antagonista e uma rival a nossa altura — porque rivalidade também é importante. Ao longo da minha vida, experimentei uma série de sentimentos sobre essa personagem e confesso que reencontrá-la mais velha e perdida foi um prazer, porque sua perfeição sempre me causou angústia.

É inveja, como disse a Laura Pires, mas inveja é também uma vontade de justiça. Eu queria ver aquele ideal rompido. E foi isso que Amy Sherman-Palladino fez, com um sorriso de escrotinha na cara, ela desvelou a própria narrativa que construiu: Desculpe, garotas, mas ninguém é tão especial assim.

Já era a hora de admitirmos.


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