Sexo Delivery

Fonte: Instagram Petites Luxures

Desde que comecei a morar sozinha, sempre sonhei com a comodidade de ter um vizinho que pudesse quebrar meu galho. Aliás, devo ter começado a pensar isso depois de sair com um boy e ter sido alertada por um amigo em comum de que ele tinha pelo menos mais duas fodas fixas. Ele transa direto com uma vizinha, me contou. A informação acabou não me causando muito mal estar, mas me fez pensar que, bom, dificilmente ele se esforçaria pra sair comigo se podia só pegar o elevador e tocar a campainha da vizinha.

Antigamente, a gente achava que os caras faziam de tudo pra transar, né? Não era difícil, no meio de uma conversa, alguém soltar um “ele tá fazendo isso só pra te comer”. Sempre achei essa ideia uma bosta, porque, no final, parecia que nascer mulher era automaticamente ser encarregada desse cargo de impedir que as artimanhas que os caras inventavam pra transar dessem certo. Mas os homens também gostavam de alimentar esse estereótipo deles como cavaleiros em busca do Santo “Cral”. Antes de inventarem essa parada de Uber mesmo, meus amigos contavam histórias de ir até o Cohatrac de táxi, no meio de noite, porque tinham recebido um convite de alguma mina. Hoje em dia, gastar dinheiro com táxi e se deslocar pra puta que pariu por uma transa parece fora de cogitação.

Na verdade, a coisa tá até um pouco pior. Minhas ilusões a esse respeito acabaram no dia em que o cara com quem eu tava saindo — e nem vou citar nomes, tá, Mateus? — inventou umas três desculpas seguidas pra não subir pro meu apê. A gente já tava no carro, voltando da praia, e ele aproveitava cada sinal fechado pra passar a mão em mim e me beijar daquele jeito, sabe, aquele jeito que tem gosto de transa. Quando chegou embaixo do meu prédio, levantou o freio de mão, tirou o cinto e me puxou pra sentar em cima dele. No começo achei que ele tava querendo ser espontâneo, entende? Sei lá, achei meio nada a ver. A gente já tava no estacionamento, não custava subir e começar a parada onde já desse pra acabar. Pensei em dizer isso, mas não quis ser pé no saco. Ficamos sarrando por uns 15 minutos, até ele se afastar de mim com um sorriso e falar que tinha que ir.

“Mentira!”, exclamei incrédula.

“Ow, fofinha, eu te disse que talvez tivesse futebol hoje”, ele respondeu colocando o dedo da ponta do meu nariz.

“Mas você comentou ainda há pouco que não tinham confirmado…”

“É… não confirmaram ainda, mas ainda podem confirmar, né?”

“Então fica aqui até confirmarem, vai!”, pedi tentando imitar a cara dos meus gatos com fome. “Poxa, cê já me deixou toda molhada, não me deixa assim, não é justo!”.

Depois de tentar mais umas duas desculpas fajutas, Mateus cedeu. Quando já estávamos deitados descansando do sexo e ele me dizia que tinha sido muito bom, perguntei por que havia resistido tanto pra subir. Ele sorriu.

“Ah, eu só tava na fissura pra jogar LoL”, deu de ombros. Minha vontade foi de jogá-lo pela janela.

Desde então, tomei esse conhecimento pra mim: as pessoas querem se esforçar cada vez menos. Na real, só acho injusto porque, quando tô na pilha do cara, eu ando, pego ônibus, carro e o caralho a quatro nem que seja por uma horinha de transa. Mas, pra ser sincera, acho que quando a gente se acostuma com um delivery, é difícil desacostumar mesmo. Infelizmente, sempre sobra pra mim o papel de delivery. Só quando peguei elevador com o vizinho do segundo andar, achei que essa situação poderia mudar.

Não sei o que me deu quando o vi pela primeira vez. Ele disse “boa noite” e respondi com um semi abraço e um beijinho de cumprimento. A reação calorosa inesperada rendeu muitos segundos de puro constrangimento naquele cubículo. Ele tomou a iniciativa de quebrar o gelo e perguntou se eu era nova no prédio. Disse que não, fazia um ano que morava no 1005. Por que diabos cê disse o número do seu apartamento, sua biscate?, meu cérebro começou a apitar. É foda, às vezes acho que sou biscate no automático mesmo, mas o vizinho não pareceu estranhar a informação. “Nunca tinha te visto por aqui. Meu nome é Paulo”, disse ao mesmo tempo em que as portas se abriam no meu andar. “Tô morando no segundo andar”, completou.

Antes que a ficha caísse, já tinha me adiantado pra fora do elevador. Dei um sorriso amarelo e caminhei rápido até o meu apartamento. Por que ele não apertou o botão do segundo andar então?, não parava de me perguntar. Comecei a calcular as probabilidades de encontrá-lo novamente no elevador. Bom, se em um ano aquela tinha sido a única vez, era possível que demorasse muito tempo pra acontecer novamente. Bateu uma pontinha de tristeza, mas, no fundo, o que tava vencendo era o alívio. Esse negócio de paquerar no elevador é coisa de louco. Se ao menos tivesse conhecido ele no Twitter, já tinha emendado um “Oi, querido”.

Queridíssimo, pra ser justa.


Seane Melo é blá, blá e blá blá. Sem falar que as coisas que ela escreve são #$%&!