“Temos poucas escritoras”

Vai achando que não existimos porque não estamos na sua prateleira

Aline Valek
Mar 26, 2018 · 3 min read

Vai achando que mulher não escreve.

Vai achando que não existimos porque não estamos na sua prateleira; ou nos prêmios aos quais você dá importância; ou nas rodas de conversa e de leitura que você frequenta.

Vai achando que não existimos porque você desconhece nossos nomes. Como se desde Rachel de Queiroz e Clarice Lispector nenhuma outra mulher tivesse escrito algo de relevância no Brasil. Como se não tivéssemos uma Carolina Maria de Jesus. Uma Elvira Vigna. Uma Lygia Fagundes Telles.

Continue tirando da manga um ou dois nomes para confirmar que foram exceção; isso não confirma nada, a não ser sua falta de memória. Isso não atesta muito, a não ser que você leu pouco.

Vai achando que não tinha mulher sendo pioneira na escrita. Maria Firmina dos Reis. Emília de Freitas. Vai achando que as “poucas” eram do eixo Rio-São Paulo. Cora Coralina. Conceição Evaristo. Jarid Arraes. Vai achando que livro escrito por mulher não é pra você. Olivia Maia. Ana Paula Maia.

Vai achando que não tem mulher fazendo parte da vida dos leitores desde muito cedo. Ruth Rocha. Ana Maria Machado. Vai achando que poesia de mulher não tem potência. Ana Martins Marques. Angélica Freitas. Elisa Lucinda. Ana Cristina César.

Vai achando que as boas já estão todas mortas. Vai achando que não somos jovens e somos muitas. Luisa Geisler. Nathalie Lourenço. Carol Bensimon. Bárbara Morais. Vai achando que não estamos escrevendo aqui, agora, de todas as formas que conseguimos. Jana P. Bianchi. Renata Côrrea. Clara Averbuck.

Vai achando que escritoras no Brasil se restringem à quantidade de nomes que consigo me lembrar em vinte minutos. Somos mais do que uma lista ou duas de “autoras para você ler antes de morrer”. Somos mais do que você conseguiria ler em uma vida. E, ainda assim, vai achando que não estamos na sua estante ou na sua lista de leitura porque não somos “o suficiente”. Nomes e histórias para contar não nos faltam. Interesse para nos conhecer, talvez.

Vai achando que não escrevemos. Que não existimos.

Vai achando que somos poucas simplesmente porque você ainda não nos vê. Enquanto isso, você perde boa parte da produção literária brasileira simplesmente porque não nos chamamos Carlos, João, Daniel. Enquanto isso, sua prateleira vai ficando mais pobre sem uma Fal Azevedo, uma Ana Maria Gonçalves, uma Carol Rodrigues.

Vai achando. Enquanto isso, continuamos escrevendo, pensando, existindo. Mais um livro. Mais outro. Nos diziam que não e escrevemos; nos empurravam para a miséria e escrevemos; diziam que este não era nosso lugar e escrevemos; nos dizem que não somos o suficiente (nem numerosas, nem boas), e escrevemos. Mais um livro. Mais um conto. Mais um poema.

Vai achando que nos cansamos. Que precisamos de autorização. Da sua aprovação. Escrevemos. Se você ler, vai descobrir o quê. E também descobrir que somos tantas, com tantos estilos, vozes e temas diferentes, que não há um rótulo único onde se possa encaixar todas nós.

Escrevemos. É isso que importa.


Esse ensaio foi publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

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Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Aline Valek

Written by

Escritora e ilustradora. Autora do romance "As águas-vivas não sabem de si"

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