Ilustração por Philip Giordano

Três passagens do “Diário: A mulher e o cavalo” de Julia Raiz

É preciso me convencer todos os dias que escrever vale estar acordada.

2 por 5

Pensei na mulher e o cavalo de manhã, antes de trabalhar, enquanto passava pela rua e as mulheres abriam as lojas de sapato. Os donos das lojas de sapato são todos homens e as funcionárias precisam usar maquiagem e salto alto. Hoje eu vi uma funcionária andando toda torta em cima do salto, sorrindo. Desde que eu comecei a trabalhar no centro, não tentam mais me vender coisas, eu cheiro a funcionária como elas. Então os ambulantes me respeitam porque eu ainda preciso chegar em casa e preparar o jantar. Na volta para casa eu também pensei na mulher e o cavalo, e por que não nas éguas? Os machos na natureza, como são eles? É preciso me convencer todos os dias que escrever vale estar acordada. Anoto na contracapa dos livros as passagens sobre cavalos. Não sobre mulheres, porque todos os livros já escritos falam sobre mulheres, então seria como copiar todos os livros com os quais eu já tive contato na vida. No livro da Svetlana, sobre a segunda guerra mundial, encontrei passagens preciosas. Lembro também de um poema da Cecília Meireles, um de título longo como “O lamento do oficial por seu cavalo morto na guerra”. Nem é tão bonito, mas eu gosto porque sempre pensei neles mortos, nos seus olhos fixos onde pousam moscas. Olhos de longos e grossos cílios de dar inveja. Me surpreendi ao saber que os cavalos são animais inteligentes, talvez eles até consigam entender que participam de uma grande encenação. Filmes de guerra são sobre homens que voltam para casa no final das contas, é muito entediante. No livro da autora da Bielorrússia, os cavalos se acostumam a pisar nos mortos.


Salvia Palth

A menina que eu encontrei na lanchonete falou que as mulheres têm que fazer que nem os cavalos na umbanda: transmitir. Eu não entendi. Mas eu sei que as mulheres estão todas interligadas, nossas mentes formando uma grande rede. Por exemplo, eu escutei a palavra “acre” numa peça, e no mesmo dia, uma poeta escreveu a palavra “acre” num poema que eu li alguns meses depois. Também teve aquela vez que eu sonhei que eu e minha irmã tínhamos que chupar os terroristas da ISIS que batiam na nossa porta e, no mesmo dia, ela me mandou uma notícia do atentado em Nice. Eles eram baixinhos e eu só pensava em maneiras de parecer menos irresistível. No Youtube toca Salvia Palth e a Isabella escreve na seção de comentários que essa música a faz sentir-se morta da melhor maneira possível. Pelo jeito existem várias maneiras de se sentir morta e uma delas é bem estimulante. A Sylvia nasceu em outubro e colocou a cabeça dentro de um forno, isso não me comove, é como se eu tivesse acabado de ler sobre a reprodução das abelhas. Só quando me lembro que chorei sozinha no banheiro, enquanto a batata frita esfriava na mesa, é que entendo o que é colocar a cabeça dentro do forno.


Destino

Esse é um diário como um chiclete bem mastigado, o registro de uma obsessão: ouvi duas garotas que conversavam no ônibus sobre as mães dos ex-namorados e como elas ainda telefonavam umas para as outras para combinar passeios por lugares públicos, falam com as mães sobre os meninos muito rapidamente e logo partem por outros caminhos não como parentes de sangue, mas como amigas de braços dados dividindo o mesmo canudo, na infância poderiam ter tomado banho juntas ou gravado vídeos caseiros. Existem essas crianças debaixo da terra pisoteada, existem essas meninas que precisam ser colhidas como tubérculos e sacudidas. Uma gengiva alta, uns dentes de cavala, os molares, os pré-molares, os caninos, os dentes da frente ainda serradinhos embaixo da terra crescendo num pé de qualquer coisa vão parar debaixo do colchão de homens poderosos como na história da princesa e da ervilha. Era uma vez num reino distante uma noite de tempestade, bateu na porta do castelo uma menina desmanchada pela água, dentes da frente como de um cavalo adulto, muito rota e cabelo sem volume. Deixaram a menina entrar a custo porque já tinha bem dezesseis anos e elas nessa idade são terríveis porque já sangram e sabem esconder pequenas coisas nos bolsos como talheres, bibelôs e peças de tapeçaria. Torceu a barra do vestido na porta e limpou os pés no carpete surpreendendo os empregados disse que viera de muito longe e viajava à procura de casamento com o Príncipe Montador. Foi preparado para a hóspede um quarto na torre alta, o mais perto possível do elevador de serviço, e para verificar a veracidade da sua ascendência nobre pediram que ela dormisse numa cama com 27 colchões cobertos por 27 edredons escondendo no fundo da alma uma ervilha. Garantida a ceia, o banho, a camisola improvisada, foram todos dormir sonhando a eficácia da armadilha, assim que as últimas luzes se apagaram, porém, da janela voou um colchão e outro e outro até que os 27 estivessem muito bem posicionados, a menina guardou a ervilha, a presilha, a água de cheiro, o candelabro, a sela no bolso e saltou pela janela.


Estes trechos foram publicados no livro de estreia de Julia Raiz “diário: a mulher e o cavalo” lançado em 2017 pela ContraVento Editorial. Para adquiri-lo, basta entrar em contato com a autora pelo email ju_raiz@yahoo.com.br


Julia Raiz

Escreve e edita Totem & Pagu — firma de poesia e Pontes Outras, blog dedicado à tradução. É doutoranda na área de tradução e crítica literária feminista, além de participar de projetos de incentivo à leitura e escrita, como o Leia Mulheres Curitiba, Clube de leitura feminista e Membrana. Seu livro de estreia “diário: a mulher e o cavalo” saiu em 2017 pela ContraVento editorial. Para adquirir o livro ao qual os textos publicados aqui fazem parte, basta entrar em contato pelo email ju_raiz@yahoo.com.br.


Estes poemas foram publicado na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa não só debater questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer colaborar com a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!

Siga também nossas outras redes sociais: Facebook | Instagram | Twitter

Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Mulheres que Escrevem

Written by

Uma conversa entre escritoras. http://medium.com/mulheres-que-escrevem

Mulheres que Escrevem

Uma conversa entre escritoras.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade