Ilustração por Peony Yip

Três poemas de Ludmila Rodrigues

existe um pequeno corvo no meu ventre

namorada

uma vez conheci uma mulher
que me fazia rir de coisas inimagináveis
para minha natureza indolente
como por exemplo
o cu de um gato
gargalhávamos na cama enquanto o gato descansava apático
nos azulejos frios embora fosse verão
não conseguíamos olhar para o gato
porque desmanchávamos e nos contorcíamos na cama
perdíamos o ar e enfim respirávamos fundo
vencidas
mas isso foi há muito tempo
dentro de um quarto com paredes verdes
que ficava parecendo um grande aquário de peixes
quando entravam as primeiras fendas de luz
da manhã


maldição

eu passei a minha vida inteira
rindo sem vontade
de tudo que homens falavam
aceitando impertinências
e tentando, a qualquer custo
ser palatável a suas goelas frágeis
minha vida inteira pedindo desculpas
pelo que quer que fosse
e sentindo o estômago embrulhar
por nunca ser boa o suficiente
eu passei minha vida inteira tentando
caber no que haviam planejado 
rompendo contratos, jogando roupas pela janela
tendo crises intempestivas dentro do carro
em movimento
dormindo ao lado de monstros tenebrosos
ou contando as folhas secas do chão
por sempre estar de cabeça baixa
e eu não me lembro de ter atinado 
em nenhum momento
para o fato de que as coisas absolutamente
não precisavam ser daquele jeito
hoje, de um lugar calmo e quieto
eu passo noites inteiras tentando
suportar acordada
a tortura de rever minha vida nessa espécie
de filme maldito
que teima em me exibir
agonizante
durante anos a fio 
sufocada do lado de dentro 
da minha própria pele


o corvo

já faz muito tempo
que existe um pequeno corvo no meu ventre
não sei como ele se instalou tão firme
em um corpo ainda jovem e quente
um dia simplesmente estava lá
e desde então se alimenta do meu sangue
e da minha força
enquanto convalesço calada
com os olhos trincados e as pálpebras frias
sem entender muito bem
o que ele faz aqui e por que eu
por que minhas vísceras e não outras
por que meu sangue e não outro
quando ele bate as asas dentro de mim
e perfura minhas entranhas com seu bico fino
eu me aquieto e deixo que ele se alimente
(embora doa um pouco 
depois do corvo quase tudo me é indiferente)
ele me faz acumular papéis não lidos 
cancelar encontros
e não querer lavar os cabelos
(não importa se o sol está escaldante)
repito, ele não é grande
mas é inexplicavelmente forte
e parece pesar uma tonelada
mesmo quando só repousa


Ludmila Rodrigues

27, baiana. Graduada em Letras Vernáculas (Universidade Federal da Bahia), publicou os livros O rosto xícara (2011) e Minha cabeça já não comporta tantos antigamentes (2013). Mantém o perfil L. R. no Medium.


Esses poemas foram publicados na iniciativa Mulheres que Escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como dar visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer saber mais sobre a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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