
Três poemas de Maíra Ferreira
desde que ela encostou em mim acho que venho derretendo
metamorfose
desde que ela encostou em mim acho que
venho derretendo
primeiro perdi o contorno das pernas
depois o contorno dos braços
quando um dia ela se debruçou sobre mim e um cacho
de cabelo escorregou pela minha bochecha
eu percebi que também tinha ido embora
a solidez do meu rosto
agora tudo me atravessa com mais facilidade
agora meu corpo aberto
recebe o corpo dela
como se fosse uma onda encontrando a outra
desde que ela encostou em mim acho que o meu corpo
está mais composto de água que nunca
tudo é úmido
é fresco
é imenso
tudo é estar com a pele molhada sob o sol
um fôlego oceânico de sereias ancestrais
que entendem
alguma coisa
que ninguém mais entendeu
desde que ela encostou em mim
12 passos entre 2
1) você vai me chamar de amiga sem
pensar você vai lançar essa palavra casualmente
sobre o meu rosto
uma granada
2) talvez até me conte o que ele fez o que ele disse
você vai me incluir passar a mão no meu cabelo
3) perceber o meu corpo em comparação ao seu
tentar entender como domesticar essa vontade
de observar
4) a minha inegável insistência em te olhar com a respiração
acelerada eu disfarço olho pra outro lado
5) você sabe
6) você sempre soube
7) você queria não saber
8) mas depois que se diz não se pode desdizer não se pode
desver o que foi subitamente visto um elástico nunca mais é o mesmo
depois que a gente estica
9) uma mulher nunca mais é a mesma depois que
enfia os dedos no medo de hospedar
o próprio desejo
10) você vai me chamar de amiga talvez sabendo que eu
não sou sua amiga
talvez sabendo que eu não estou no lugar onde você
me coloca
11) mas você me coloca
12) porque afinal você não saberia nem por onde começar
a ser desejada
por mim
poucas chances
mesmo que eu soubesse te fazer
esquecer o rosto dele
e lembrar do meu
mais vezes
muitas vezes
tantas vezes por dia quanto se pode lembrar
do rosto de alguém
em seus mais diferentes ângulos em inusitados ângulos
inéditos ângulos
como o meu rosto por exemplo
entre as suas pernas
como o meu rosto por exemplo a poucos centímetros de distância
do seu
encontrando o seu
lentamente entrando no seu
como entraria a minha mão entre as
dobras do seu pescoço
entre as dobras dos seus joelhos
mesmo que você pudesse imaginar o meu rosto como ficaria
incendiado
se você chegasse mais perto
tão perto que só haveria no mundo
os rostos
de nós duas
e tudo que os rostos de nós duas podem fazer um com o outro
dizer um ao outro
mesmo assim
eu sei
há poucas chances
de entrar em você sem que uma de nós termine o dia
incapaz de encontrar
o caminho
de volta

Maíra Ferreira nasceu em 1990, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. Formada em Letras e mestranda em Teoria Literária pela UFRJ, trabalha como revisora e, ao lado de Danielle Magalhães, edita a revista digital Oceânica, focada na publicação de poetas mulheres. Em 2014, publicou seu primeiro livro — “A primeira morte” — pela editora Oficina Raquel e atualmente escreve sobre a vida, os relacionamentos e o feminismo no Medium.
Estes poemas foram publicados na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer colaborar com a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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