
Uma lista de memórias amáveis
Ou como criar um espaço para recordar
Meu nome é Estela e meu sobrenome é Rosa. Algumas pessoas acreditam que esse Rosa é um segundo nome, mas não, ele foi herdado da minha mãe, que herdou da minha avó. É uma escolha bem poética, afinal de contas. Somos uma família de Rosas. Por conta disso, quando meu sobrinho começou a aprender nomes e sobrenomes, naquele processo simultâneo que toda criança tem, nome, sobrenome, cores, números, hoje, ontem, amanhã, esse Rosa foi um motivo de confusão deliciosa. Vítor achava que o nosso sobrenome Rosa era, na verdade, uma escolha. Eu, minhas irmãs e minha mãe, tínhamos escolhido ser Rosa. E ele, seguindo a lógica mais lógica do mundo, assumiu para si mesmo que ele então seria o Vítor Amarelo. E assim ele seguiu por alguns meses. Nós éramos as Rosas e ele o Amarelo.
Acessei essa memória hoje porque confesso não estar sendo um dia muito fácil. Como todo adulto que se preze, tenho problemas bastante comuns e que me trazem aquela carga fatal de ansiedade. Uma vontade gigantesca (e inocente) de chegar logo naquele ponto indolor, da vida perfeita, com aluguel pago ou até mesmo casa própria. Sempre nos vendem esse ideal de que uma hora as coisas param de doer, mas a verdade é que nunca vai parar de doer, assim como nunca vai parar de ser bom em alguma medida.
Enquanto chorava (sim, eu choro muito), revirava minha lista de contatos, caçando alguém com quem eu pudesse conversar. A análise é um ótimo espaço pra isso, mas há horas em que a urgência bate e nossos amigos viram verdadeiros portos-seguros. O nó no peito era tão emaranhado que olhei pra cada um daqueles nomes e não conseguia nem pensar em como começar a falar. Foi aí que, conversando trivialidades com uma amiga, acessei essa memória do meu sobrinho, o Vítor Amarelo.

A Laura Pires uma vez perguntou em seu Facebook o que as pessoas faziam quando se sentiam ansiosas ou tristes, que atitudes tomavam para aliviar essa sensação de urgência que toma o peito. Eu disse que tomava banho, que até mesmo montava quebra-cabeças, que olhava árvores. Acontece que hoje percebi que nenhum desses itens me contempla tanto quanto acessar minhas memórias mais doces. Eu não deveria ter olhado ansiosa minha lista de contatos, eu deveria ter olhado com cuidado minha lista de memórias mais amáveis.
As memórias (e até mesmo os traumas) são nossa matéria primária de constituição. É através das memórias construídas com nossa família, sozinhos, com amigos, com companheiros, com bichinhos, que passamos a definir quem somos. Há memórias ruins, os traumas, que buscamos não acessar tanto assim, que doem ainda que o tempo já tenha passado, ainda que as promessas de se livrar delas sejam renovadas a cada nova conversa com amigos. Os traumas são quase barreiras físicas que nos tornam sobreviventes. Às vezes precisamos acessá-los, encará-los e lembrar que esses fragmentos tristes também fazem parte de quem somos.
Já as lembranças boas, aquele ventinho de um sábado de sol com os amigos, aquela viagem tão esperada, aquele reencontro imprevisto, todas essas memórias também são parte concreta de quem somos. Assim como os traumas, é preciso acessá-las, recordá-las e modificá-las de acordo com cada momento que enfrentamos. As memórias não servem apenas para nos constituirmos e nos localizarmos no tempo, elas também servem para olharmos adiante e pensarmos que tudo é um grande ciclo e que memórias boas estão aí para serem criadas. Seja em conjunto, seja sozinho, as memórias que trazem sensações boas podem nos servir como um verdadeiro alento.
Quando pensei no Vítor se autodeclarando Vítor Amarelo, uma enxurrada de boas memórias me veio à cabeça, me fazendo pensar que novas boas memórias estão aí fora me esperando. Coloquei músicas que me lembram das pessoas que mais amo, aquelas que estiveram ao meu lado nos piores e melhores momentos. Fui recordando cada uma delas e isso foi me ajudando a sair daquele estado ansioso em que eu estava. Mesmo quando me lembrava de uma situação ruim, alguém estava ao meu lado, mesmo em silêncio. Mesmo que esse alguém fosse eu mesma, me permitindo sentir profundamente o que quer que fosse. Aquele choro que contei ali em cima passou de um choro de desespero para um choro de nostalgia. O mundo é imenso e a vida pode ser muito generosa se estivermos dispostos a recordar com cuidado e afeto.

Então estou aqui para propor uma coisa: quando bater aquele aperto, lembre-se da história mais doce que você já viveu. Se estiver doendo de verdade falar sobre suas dores (porque às vezes dói mais explicar a dor do que sentir a dor em si), conte para alguém aquela situação linda que você viveu. Olhe fotos, escute músicas, acesse a parte mais doce de si mesmo. Se parecer difícil, peça para que alguém relembre algo lindo sobre você. Todos nós temos bons momentos, todos nós temos traumas, todos nós, que estamos aqui, sobrevivemos tanto às memórias boas quanto às memórias ruins. Crie um acervo de lugares lindos para revisitar dentro de si mesmo e, por mais que isso pareça um tanto cafona, construa um lugar a salvo dentro de si mesmo. Convide seus amores para recordar.
Recordar é acessar de novo o coração: Re (fazer de novo) + Corda (coração). Volte ao seu coração, volte ao coração dos outros. Seja generoso consigo mesmo e aproveite as boas memórias para construir uma nova boa memória, a memória de recordar boas memórias. E se quiser compartilhar uma memória linda para criarmos uma rede de boas memórias, por favor, vá em frente. Esse será um espaço para recordar.

