Uma mulher acorda

Um poema de Stephanie Borges

em um delicado porta joias 
ela encontra seus dentes 
e desperta pelo espanto
passa a língua por trás dos incisivos, 
e o vazio

ela suspira,
todos dentro da caixa forrada de veludo,
as raízes com rastros de sangue
mal pareciam estar no lugar errado

aqueles dentes
haviam se batido em beijos afobados, 
se quebrado em aulas de educação física, 
trincado sob a pressão do maxilar travado,
vinte poucos dentes [alguns perdidos no caminho]
e o pavor da boca desabitada, o rosto de repente
esvaziado da selvageria
 
parecem até inocentes, assim numa caixinha
amontoados fora da arcada hierárquica
eram quase livres, 
chegou a pensar 
antes de sentir sua falta 
saudades de seus dentes, 
passou as pontas dos dedos sobre eles
esperando a revelação de como os perdeu,
se poderiam estar perdidos,
guardados num porta joias sobre a cômoda
quem teria escolhido a caixa, era bonita,
pareciam repousar de décadas de abuso 
e cigarros, cafés expressos, aparelho fixo
e o desprezo pelas recomendações odontológicas

a boca se enchia da falta
nunca lhes deu trégua, mas agora era insuportável
o choro pastoso, a falta de resistência,
não há mais o medo de morder a si mesma,
a possibilidade da dor freando a língua

seus dentes
lhe parecem até melhores fora dela
que nunca teve sisos, não havia juízo
a rasgar suas gengivas 
é a evolução, o futuro dispensa quatro dentes 
e o apêndice que serve apenas para inflamar

mas não chora, tudo se ajeita
implantes são possíveis, porcelana
e as lágrimas voltam porque xícaras
pires, se prestam de enfeite,
mas não, 
predadores não sobrevivem com baixela 
entre as mandíbulas
são para sorrir e enfeitar
ocupar espaço, no máximo

no porta joias forrado de veludo
seus dentes 
são inúteis como pingentes delicados
sequer servem de oráculo
jogados sobre a mesa a prever o futuro
existem opções, próteses
pinos de platina atingindo os ossos
com belas peças de resina nas pontas 
até parecem de verdade

servirão para trinchar?
podem ser exibidas com escárnio?
chegarão a representar um risco?

será possível 
o abandono 
pelos próprios dentes


Stephanie Borges é várias coisas, entre elas leitora, jornalista e poeta. Carioca, 32 anos, é formada em Comunicação Social pela UFF e tem uma especialização em Publishing Management pela FGV-Rio. Trabalhou em agências de comunicação e editoras como a Cosac Naify e a Globo Livros. Colabora com projetos independentes ligados a cultura como Leia Mulheres e Deriva. Atualmente é redatora e tradutora freelancer. Há um ano escreve uma newsletter sobre leitura e cultura pop, a cartinha de banalidades, que você pode assinar aqui: http://tinyletter.com/stephieborges.


Este poema foi publicado na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras. Quer colaborar com a Mulheres que escrevem? Acesse esse link, conheça nossa iniciativa e descubra!
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