Baunilhas e Vaginas: um tratado sobre o amor

“Hoje eu quero um quentinho, um lugar para ficar de conchinha, com um cheirinho que exista só para me agradar, um lugar que alguém só cuide de mim, sem nada perguntar.

Hoje eu quero um afago, quero sentir que sou amada/o, que vivo só para ser A protegida/o de alguém.

Hoje não quero fazer nada, quero só ouvir silêncio, não quero saber de mundo lá fora, dos problemas que as pessoas andam criando, das brigas infundadas, das dores fundamentadas, hoje não quero saber o que é guerra, hoje desejo desconhecer todos os significados, nomeações, palavras.

Hoje eu só quero ser amada/o, só quero me amar, interagir apenas com algo divino, sacro, quente, iluminado,

leite, contrações perfeitas que me ninem, que encham meu corpo tão machucado, tão cansado e fatigado, de prazer e afeição! Hoje eu só quero estar em paz, hoje só quero lembrar que prazer vai alem de sexo e que alma é o que importa nas relações. Quero colo, chá quentinho, quero poder chorar se sentir necessidade e ser abraçada/o, ganhar um sorriso, sentir que tudo vai bem.

Hoje só quero sentir que a vida é doce, que existe alento. Hoje eu só queria estar mergulhada/o em uma fava de baunilha!’’

É verdade, não dá para ser baunilha sempre porque tivemos que aprender a proteger nosso amor incondicional. Em algum momento, paramos de nos auto-amar e começamos a atacar o amor do outro. Deve ter sido aí que passamos a criar muros e espinhos para proteger nossas flores. A baunilha é a representação de todos os amores: sexual, materno, fraterno, paterno, espiritual! Ela precisou deixar a cena pois amar ficou difícil. Para amar no nível baunilha a gente precisa estar nu e aberto e é praticamente impossível viver dessa forma, pois as pessoas irão atacar, devorar, tripudiar! É como uma antropofagia do amor: estamos tão carentes desse sentimento nu e cru que ao ver um pouquinho dele brilhando nos amontoamos, o sufocamos e o devoramos.

O verdadeiro nome da baunilha é Vanilla que vem do espanhol, vainilla, diminutivo de vaina que deriva do latim ‘vagina’. A baunilha é uma orquidácea com maravilhosas flores, mas seu aroma de amor vem mesmo são de suas vagens que, por sinal, também apresentam sua etimologia ligada à palavra vagina!

Baunilha é vagina duas vezes!

Todos nós queremos ficar dentro de uma vagina, de um útero quentinho. Vagina é algo lindo, materno e ao mesmo tempo, prazeroso sexual e espiritualmente.

É uma perda significativa para todos nós, humanos, assistirmos esse órgão do pulsar do amor como apenas um apetrecho pornográfico que é tratado sem o mínimo respeito!

Vagina é algo que a gente tem que respeitar, pois ela é a representação do amor, é a própria Afrodite — que dá origem a palavra afrodisíaco! É ela o local criativo da mulher, é dela que todos nós saímos (mesmo quando o parto não foi normal, o espermatozóide do seu pai entrou por ela, foi ela quem acolheu, ela quem gerou, ela que esteve aberta para uma vida). Ouço muitos gays falando ‘’ainda bem que minha mãe fez cesária, assim não precisei passar pela vagina’’. Isso é falta de amor, pois, no fundo, todos necessitamos do pulsar dela no mundo. Creio que esse ódio pela vagina venha do inconsciente coletivo de saber que, na verdade, ela é a pulsação do amor e como já apontei, nós paramos de amar em algum momento. Logo, tudo que representasse amor deveria ser solapado, silenciado e ridicularizado e aqui estamos nós: rindo das vaginas e odiando as mulheres. Somos destratadas e vistas com descaso e até escárneo, acreditamos que vaginas necessitam ser afogadas em cremes da Victoria Secrets ‘’sabor’’ baunilha, mas ela não precisa, pois já é a própria baunilha do mundo!

Nos tornamos tão ignorantes e pobres que matamos a vagina e depois tacamos cheiro de baunilha sintética em cima para sentir o amor que ela já é! Temos essas práticas com o resto da natureza: poluímos os rios e depois os enchemos de produtos químicos para ‘’limpá-lo’’ e ele voltar a dar peixes, tacamos fogo em uma terra fértil para cultivá-la e deixá-la fértil, poluímos a água para depois ‘’purificá-la’’ com litros de cloro. contradições!

Estamos sempre modificando a natureza para conseguir ter algo que ela já nos dá, que ela já é! Assim é com a vagina, nós aprendemos a odiá-la da mesma forma como odiamos a natureza porque NÓS SOMOS A NATUREZA e a maltratamos porque, no fundo, não nos amamos, o destrato com a natureza (e aí inclui-se a simbologia da vagina — que dá a vida e o prazer) é a ausencia do amor próprio em todos nós. Tudo que representa amor precisamos, desesperadamente, destruir!

Odiar a vagina e a natureza é se odiar e viver em guerra, enquanto tudo que queremos é amor! Que contraditório, certo? Sim, nos tornamos seres contraditórios! Por isso, enchemos a vagina da baunilha porque lá no mar do nosso inconsciente estamos buscando o que perdemos: a nossa conexão! Então, mulheres, heteros, gays, parem de odiar as vaginas, pois necessitamos de baunilha, necessitamos de amor!

Toda vez que você diz ‘’que bom que não sai de uma vagina’’, está dizendo que se odeia. Toda vez que você diz ‘’comi aquela puta’’, sem nenhum carinho pela mulher que você manteve uma relação, toda vez que você trata a vagina como apenas um pornô está, no fundo, dizendo que se odeia. E você, mulher, toda vez que maltrata a sua vagina fazendo ninfoplastia, colocando glitter, não usando camisinha para se proteger ou transando com um cara sem querer, está dizendo que se odeia.

Que tal se, aos pouquinhos, mudarmos essa história? Que tal começarmos a nos respeitar, a respeitar esse lugar quentinho, silencioso e que nos faz sentir tanto prazer, seja sexual, maternal, fraternal ou espiritual! Que tal a gente se amar de verdade, amar as baunilhas como elas são sem precisar nos entupir de sintéticos, de mentiras e tristezas? Viva as vaginas!

Esse foi o primeiro contato da baunilha. No segundo artigo falaremos sobre a baunilha afrodisíaca.

Imagem — mulheres em uma plantação de baunilha, preparando as vagens/ Uganda.

Copiar de forma literal ideias ou concepções intelectuais sem citar o autor é crime previsto em lei federal.

Palmira Margarida é historiadora especialista em cheiros e emoções e ama pesquisar sobre aromas do corpo feminino. É sinesteta e come coisas só porque são amarelas, inclusive não-comestíveis. Ama viajar e captar os aromas das trilhas e das histórias dos lugares por onde passa. Cria aromas-artísticos e provocadores e você pode encontrar em www.perfumebotanico.com.br
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