O dia em que o Mundo parou

Somos todos Charlie? Mas, afinal, o que significa ser Charlie?

O dia em que o Mundo parou

Somos todos Charlie? Mas, afinal, o que significa ser Charlie?

Hoje poderia estar a escrever sobre o atentado de 11 de Setembro ,que ocorreu em Nova Iorque, poderia estar a escrever sobre o atentado ao metro londrino de 7 de Julho de 2005, poderia estar a escrever sobre o atentado de 11 de Março de 2004 em Madrid, ou mesmo até sobre muitos outros ataques hediondos, mas não, estou aqui para dar a minha opinião acerca do tema do momento. Estou aqui para vos falar de outro atentado, um atentado que representa um ataque à liberdade de expressão. Como já devem imaginar, falo hoje sobre o assassinato dos cartoonistas que pertenciam ao jornal “Charlie Hebdo”. Será desnecessário descrever a função de sátira deste jornal pela excessiva informação sobre o mesmo com que todos temos sido bombardeados nos últimos dias, porém este é um aspeto fulcral na análise do tema.

Em torno deste acontecimento nasceu, como todos sabemos, um fenómeno onde cidadãos espalhados por todo o mundo dizem ser Charlie. Falo obviamente do fenómeno “Je suis Charlie”. Classifico esta onda de solidariedade como um dos pontos de verificação que , apesar de todas as atrocidades que cometemos todos os dias sem nos apercebermos, ainda nos resta alguma humanidade. Mas, também por me restar esta esperança na Humanidade, me pergunto porque não acontece isto em relação a muitos outros crimes cometidos pelo Mundo fora. Crimes esses, que pelo seu número de vítimas, se colocam num patamar superior ao sucedido em Paris no passado dia 7. Crimes horríveis como os que são cometidos pela organização Boko Haram que , apenas no último dia 9, aquando da tomada da cidade de Baga provocaram a morte a cerca de 2000 pessoas, não falando, por exemplo, das centenas de crianças que já foram alvo de abusos sexuais pelo mesmo grupo.

Há então, e porque quero manter tal esperança acesa, muitas perguntas sem resposta. Qual a razão que leva diversos estados do mundo inteiro a juntarem-se em Paris para condenar este ataque sendo que ao mesmo tempo muitas outras vidas que morrem por razões semelhantes apenas merecem o seu silêncio? Será esta uma onda criada em tornos de valores como a liberdade, fraternidade, solidariedade e compaixão ou apenas em torno de interesses políticos e económicos?

Neste caso, não podemos confundir os meios usados com a finalidade dos mesmos, pois ao contrário do que afirmava Niccolò Machiavelli, se a ideia deste protesto seria cultivar os distintos valores acima referidos, em nada se justifica organizar o mesmo (ainda que esta tenha a supa componente de nobreza para as pessoas que nele acreditam) se a sua finalidade seria obter qualquer tipo de ganho político-social.

Contudo, e como sempre, surgiram vozes divergentes ao movimento “Je suis Charlie”. Vozes essas que não vão de encontro ao sentimento geral da sociedade e que, por serem diferentes, chocaram o mundo ao falarem com demasiada frieza de um assunto que envolve tantas emoções. Muitas dessas individualidades, mais precisamente 50, são hoje em França alvo de processos judiciais. Por isto, surge mais uma pergunta: Então se neste últimos dias um país se uniu em torno do Charlie Hebdo, um jornal de sátira francês que era exatamente conhecido pelo seu pensamento divergente e pela sua crítica apurada, como pode o mesmo país virar-se contra aqueles que optam pelo mesmo pensamento, pela mesma crítica? Tudo isto me leva a pensar que afinal não somos assim tão “Charlie Hebdo” ou então que nem sabemos o que ser “Charlie Hebdo” representa.

Como sempre as redes sociais estiveram à altura e, este fenómeno do século XXI, ajudou a que muitas pessoas pudessem deixar expressas as suas opiniões, tal como faço agora. E, nestas, surgiram textos que englobam os dois extremos da opinião. Um deles representa o fanatismo multicultural, em que apenas o Ocidente tem culpa de todos os atos horríveis que vão acontecendo nos quatro cantos do mundo e outro, no reverso da medalha, a culpabilização da “mentalidade reduzida” de outros povos, nomeadamente os que segue a crença islâmica, para justificar todas as atrocidades que vão acontecendo.

Não obstante, a minha opinião fica ao mesmo tempo longe e perto de ambas. Não por achar que um consenso é sempre o melhor caminho a tomar, dado que, como aprendemos com a nossa História, os maiores progressos se dão aquando de revoluções, mas por pensar que quanto a este tema há demasiadas variáveis a ter em conta e que apenas tomar um prisma em consideração é errado. Se por um lado concordo que a religião, independentemente dos seus deuses, foi e continua a ser a causa de muitos crimes apavorantes, não consigo deixar de subscrever as opiniões que incidem sobre uma postura do mundo ocidental muito à margem da expectável, nomeadamente o culto do mediatismo de assuntos tão sensíveis com a esperança de unir os povos mais desenvolvidos (e supostamente com a mente mais civilizada) contra as nações cujos povos representam uma forma diferente de pensar e de agir quanto à religião que entendem como correta.

Termino citando George Orwell, por achar mais do que pertinente, importante para uma reflexão sobre o tema, importante para o culto de valores e não de interesses.

O escritor inglês dizia que a “Liberdade é o direito de dizer às pessoas aquilo que elas não querem ouvir” e que a “Felicidade pode apenas existir em concordância”, levando à seguinte ilação: mesmo que aquilo que digamos não provoque um sentimento de contentamento ou concordância nos outros, não significa que não tenhamos a liberdade para o dizer!

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