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As mulheres e o comércio internacional no contexto da Covid-19

Ana Carolina Elaine dos Santos Guedes de Castro e Silvana Schimanski

Fonte: https://www.onumulheres.org.br/.

Resumo: A crise sanitária internacional pela pandemia de Covid-19 impactou os fluxos comerciais globais, devido à adoção de medidas emergenciais e rupturas nas cadeias de abastecimento. Este texto reflete acerca dos efeitos deste contexto sobre as mulheres, consideradas mais vulneráveis economicamente em cenários de crise.

É relativamente recente o debate sobre a relação entre comércio internacional e gênero, embora seja parte do repertório de redes e organizações que difundem a aplicação das lentes de gênero a diferentes temas. Defende-se que as dinâmicas comerciais contemporâneas repercutem de forma diferenciada sobre homens e mulheres: pela inserção nas atividades das cadeias produtivas globais; pela desvalorização das contribuições das atividades não mercadológicas (trabalho invisível, economia do cuidado), que obscurece a contribuição feminina como atores econômicos; pelas dificuldades no acesso aos sistemas bancários ou de informação; entre outras. A partir desse olhar, considera-se que as mulheres são mais vulneráveis do que os homens em cenários de crise econômica.

O contexto deflagrado pela pandemia de Covid-19 deixou consequências de saúde e econômicas devastadoras, gerando perturbações sem precedentes nos fluxos comerciais. Se por um lado, no primeiro momento as quarentenas e medidas de isolamento social figuraram como as formas mais eficazes de controle contra os avanços do vírus letal, as rupturas nas cadeias de abastecimento, as restrições às atividades logísticas e viagens, as imposições de medidas restritivas ao comércio desequilibraram cadeias profundamente interconectadas. Em maio de 2020, estimou-se redução no comércio de bens entre 13–32% para o ano de 2020, tanto em áreas produtivas complexas (como por exemplo, eletrônicos e produtos automotivos), quanto em serviços (transportes, viagens, serviços hoteleiros, etc.) (WTO, 2020a). As expectativas para a recuperação em 2021 eram incertas, dependentes do prolongamento da pandemia, bem como, da efetividade das respostas políticas. Embora o pior cenário não tenha se confirmado, desigualdades quanto à sua recuperação foram evidenciadas. Em termos globais, o setor têxtil e os serviços relacionados às viagens e ao turismo, foram aqueles que sofreram os impactos mais significativos e cuja recuperação vem sendo a mais lenta (WTO, 2021).

De uma forma geral, a pandemia evidenciou as desigualdades sociais, políticas e econômicas entre homens e mulheres, ampliando os seus efeitos negativos. Os relatórios indicam o aumento nos níveis de violência contra as mulheres, o aumento no trabalho doméstico não remunerado (especialmente nos cuidados com as crianças fora das escolas e familiares), falta de acesso a serviços públicos de saúde e proteção. Além disso, a perda da renda, uma vez que aproximadamente 60% das mulheres ao redor do mundo trabalham na economia informal (UN, 2020; UN WOMEN, 2020; ECLAC, 2021). O início das quarentenas e medidas de isolamento social, especialmente em países que não adotaram prontamente políticas públicas para proteger e estimular a economia (transferências financeiras, créditos e empréstimos a micro e pequenos negócios), exacerbaram a feminização da pobreza e deixaram mulheres em situação de extrema vulnerabilidade.

Dados demonstram que a crise gerada pela pandemia afetou setores econômicos nos quais as mulheres são maioria (gastronomia, hospitalidade, comércio de varejo, serviços de turismo e viagens, trabalho doméstico remunerado, etc.). Segundo a ONU, 40% de todas as mulheres empregadas, cerca de 510 milhões em todo o mundo, trabalham nos setores mais atingidos em comparação com 36,6% dos homens empregados (UN WOMEN, 2021). Desigualdades estruturais da presença feminina nas indústrias também afetaram mais as mulheres, principalmente, devido à sua maior presença em micro, pequenas e médias empresas e concentração em setores específicos das cadeias produtivas ou serviços.

Em agosto de 2020 uma nota, preparada pelo Secretariado da Organização Mundial do Comércio, foi circulada entre seus membros, destacando as primeiras evidências de que a pandemia atingiria economicamente as mulheres de forma desproporcional, em razão das medidas adotadas e dos setores mais atingidos (WTO, 2020b). A nota salientou os setores produtivos (têxteis, do vestuário, calçadista e indústria de telecomunicações), serviços (de turismo e de negócios) e, também, as micro, pequenas e médias empresas, uma vez que um número significativo de mulheres nelas atuam como proprietárias, gestoras ou colaboradoras. A organização vem discutindo a aplicação das lentes de gênero às políticas comerciais desde 2017, quando um grupo de países apoiou a Declaração sobre o Empoderamento Econômico das Mulheres, instrumento não vinculativo que visa promover tal debate.

O setor de manufaturados têxteis, vestuário, calçados e de produtos de telecomunicações, que conta com a maior parcela da força de trabalho feminina, registrou as principais quedas das exportações durante os primeiros meses da pandemia. Por exemplo, nas indústrias de Bangladesh, as mulheres compõem 80% da força de trabalho e os pedidos sofreram redução de 45,8% no primeiro trimestre de 2020 e 81% em abril do mesmo ano (WTO, 2020b). Dado que os gastos com roupas são impulsionados por fatores sazonais, as vendas foram totalmente perdidas. As consequências se estendem para toda a cadeia, desde a coleta das fibras e fabricação dos têxteis até a venda do produto, seja em lojas físicas ou online, onde boa parte da mão-de-obra é feminina.

Parcela significativa de mulheres atuam em setores como turismo e viagens, os quais foram diretamente afetados pelas restrições regionais e internacionais. As atividades turísticas encolheram significativamente na sequência das restrições adotadas para combater a pandemia (WTO, 2020b). São perdas econômicas acumuladas que não podem ser posteriormente compensadas. Outros serviços relacionados ao turismo também foram impactados, tais como os de alimentação e artesanato, que constituem um desafio para as mulheres que trabalham no setor informal ou em economias diretamente dependentes do turismo (WORLD BANK; WTO, 2020).

Muitas mulheres empreendedoras enfrentaram dificuldades para manter seus negócios, uma vez que grande parte é classificada como empresas de micro, pequeno ou médio porte, com restritos recursos financeiros, bem como acesso limitado a fundos públicos. Entre elas, muitas dependem do comércio internacional por exportar seus bens ou serviços — como fornecedoras em cadeias de valor — ou importar insumos para produção de bens e serviços para abastecimento do mercado interno(WORLD BANK; WTO, 2020). Os indicadores sugerem que essas empresas estão entre aquelas que foram forçadas a encerrar suas atividades durante a pandemia.

As evidências do contexto pandêmico reforçam a necessidade de maior engajamento na aplicação das lentes de gênero também às políticas comerciais. Uma vez que os dados têm demonstrado que tais dinâmicas geram efeitos econômicos diversos sobre homens e mulheres e que as mulheres foram o grupo mais vulnerável, a adoção de políticas sensíveis ao gênero tem o potencial de prevenir tais vulnerabilidades. Mapear os principais desafios existentes em setores onde as mulheres estão mais inseridas, garantir acesso digital e ao crédito e fornecer mecanismos facilitados de incentivo às mulheres empreendedoras são iniciativas com potencial contribuição no período de recuperação econômica pós-pandemia.

Referências

ECONOMIC COMMISSION FOR LATIN AMERICA AND THE CARIBBEAN. The economic autonomy of women in a sustainable recovery with equality. Special Report n. 9. 10 Fev 2021.Disponível em: <https://www.cepal.org/en/publications/46634-economic-autonomy-women-sustainable-recovery-equality>. Acesso em 10 abr. 2022.

UNWOMEN. COVID-19 and its economic toll on women: The story behind the numbers. 16 September 2020. Disponível em:<https://www.unwomen.org/en/news/stories/2020/9/feature-covid-19-economic-impacts-on-women>. Acesso em: 10 abr 2022.

UNITED NATIONS. The Impact of Covid 19 in Women. Policy Brief. 09 Abril 2020. Disponível em: <https://www.unwomen.org/en/digital-library/publications/2020/04/policy-brief-the-impact-of-covid-19-on-women>. Acesso em: 10 abr. 2022.

WORLD TRADE ORGANIZATION. Trade set to plunge as COVID-19 pandemic upends global economy. 855 PRESS RELEASE. 08 de Abril 2020. Disponível em:<https://www.wto.org/english/news_e/pres20_e/pr855_e.htm>. Acesso em 29 de Junho de 2020.

WORLD TRADE ORGANIZATION. Global trade rebound beats expectations but marked by regional divergences. 889 PRESS RELEASE. 4 de Outubro 2021. Disponível em: <https://www.wto.org/english/news_e/pres21_e/pr889_e.htm>. Acesso em 10 out. 2021.

WORLD TRADE ORGANIZATION. The impact of Covid-19 on women in vulnerable sectors and economies. 2020. Information note. 03 Aug./2020. Disponível em: <https://www.wto.org/english/news_e/news20_e/info_note_covid_05aug20_e.pdf> Acesso em: 23 jan. 2021.

WORLD BANK. WORLD TRADE ORGANIZATION. Women and Trade: The Role of Trade in Promoting Gender Equality. Washington, DC, 2020. Disponível em: <https://www.wto.org/english/res_e/booksp_e/women_trade_pub2807_e.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2021.

Sobre as autoras

Ana Carolina Elaine dos Santos Guedes de Castro: Doutoranda e Mestra em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI).

Silvana Schimanski: Doutora em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UNB), na modalidade Doutorado Sanduíche com o Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento (IHEID). Professora do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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