China, questão de Taiwan — EUA enviando o sinal errado. Risco de um “Afegaiwan”?

Editoria Mundorama
Aug 24 · 10 min read

Paulo Antônio Pereira Pinto

Rio de Janeiro, em 23 de agosto de 2021.

A China avisou aos Estados Unidos da América que eles estão “enviando o sinal errado” ao prometerem, no início de agosto corrente, a venda multimilionária de equipamento militar a Taiwan. Pequim adicionou que a RPC “retaliaria com a adoção de contramedidas legítimas e necessárias”.

Um porta voz chinês acrescentou que o referido fornecimento de armas abalará equilíbrio mantido, há décadas, no Estreito de Taiwan, que separa a ilha do continente chinês. Para Pequim, não há dúvida, só existe uma China — e Formosa é apenas “uma província rebelde”.

No contexto da tragédia em curso no Afeganistão, alguns setores de opinião alertam que os residentes na Ilha de Formosa deveriam prevenir-se mais quanto às promessas de defesa de Washington. Pequim já teria lembrado aos taiwaneses quanto à “ilusão de que, caso se aventurem em movimento separatista, seus aliados norte-americanos venham realmente em seu auxílio, diante de certa retaliação chinesa”.

Ninguém, como se sabe, reconhece a existência de “duas Chinas”. Nem mesmo as autoridades em Taipé, onde a constituição imposta declara a existência de uma apenas: a trazida por Chiang Kai Check para a ilha, após sua derrota no continente, em 1949.

Assim, os poucos países que mantêm Embaixada em Taipé reconhecem como única a “República da China”, “transplantada” pelo “Generalíssimo Chiang”, com o apoio dos EUA para a outra margem do Estreito. Ignoram, assim, a existência da República Popular, que seria, nessa perspectiva, “um gigantesco anexo ao centro de poder situado em Taipé”.

Parece oportuno lembrar o entendimento de que a China não é, apenas, “mais uma nação, na família de nações. A China é uma civilização que busca aparecer como um Estado”, segundo o Professor de Ciências Políticas Lucian W. Pye. Na perspectiva do Sr. Pye, a história moderna da China seria marcada por esforços, gerados dentro e fora do país, no sentido de “espremer uma civilização em moldura institucional arbitrária, ‘denominada estado moderno’ e gerada em centros acadêmicos ocidentais, desconectada, assim, da realidade da evolução política histórica chinesa”.

Seria, então, extraordinário o fato de que “a China” se tenha mantido unida. Como consequência, a fundação da República da China, em 1912, sobre uma das civilizações mais antigas, garantiu sustentabilidade a uma cultura política que, entre seus deveres principais, encontra o de manter os chineses unidos. Isto é, a obrigação de garantir que sua civilização permaneça indivisível tem significado a impossibilidade de compromissos que colocassem em dúvida a existência de apenas um centro de poder e autoridade.

Verifica-se, a propósito, que, apesar dos milênios de sua civilização, é recente o conceito de “nacionalismo” entre os chineses. Basta lembrar que a última dinastia de Imperadores foi “manchu” e pouco fez para associar-se à cultura do país, impondo-se, em grande medida, exatamente pelo fato de diferenciar-se dos súditos.

Com o advento da República, não houve transição fácil entre um Império e uma nação. Quando a ideia força republicana se consolidou, foi como resultado de mobilização do Estado e, não, como manifestação popular. Seu propósito, desde então, foi o controle do território e, não, a emancipação política. Tanto o Kuomintang, quanto o Partido Comunista, seguiram esta orientação durante os períodos que governaram o país.

Cabe observar que, em Taiwan, enquanto esteve no poder, entre 1949 e 2000, o Kuomintang demonstrava claro esforço de tornar a ilha no polo principal de divulgação da cultura sínica. A cada ano, centenas de jovens “chineses ultramarinos” foram trazidos, de diversos países, a Taiwan para fazer cursos de mandarim, caligrafia, instrumentos musicais, pintura e culinária tradicionais.

Não foi por acaso que, quando de sua fuga através do Estreito, o Generalíssimo Chiang Kai-Shek, com o apoio logístico dos EUA, carregou os maiores tesouros de porcelana para Taiwan. Sempre houve, em Taipé, a intenção de ser o centro de irradiação cultural da China. Principalmente durante o período de grande turbulência revolucionária, na década de 1960, enquanto, durante a “Revolução Cultural”, o tradicional era objeto de destruição no continente, em Taiwan, cultivavam-se todos os campos de estudo enumerados no parágrafo anterior.

Nota-se, ademais, que, desde o início de seu processo de modernização, a RPC, ao promover reformas de suas estruturas econômico-sociais, tem permitido o ressurgimento de valores e práticas tradicionais. Entre as instituições fortalecidas, encontram-se os templos confucionistas. Busca-se, portanto, compensar o recuo do embasamento ideológico de sustentação adotado logo após a fundação da República Popular, com conjunto de ideias forças prevalecentes na cultura chinesa.

Enquanto tais acontecimentos se desenrolam na margem chinesa, no lado taiwanês do Estreito, em comemoração ao Festival da Lanterna, celebrado anualmente no décimo quinto dia após o Ano Novo Lunar chinês, costuma-se, em Taipé, acender, em frente ao monumento a Chiang Kai-Shek, um enorme balão com o formato do animal que represente o novo ano que se inicia (Servi em Taipé, como Diretor do Escritório Econômico e Comercial do Brasil, entre 1998 e 2006).

Nessa perspectiva, nota-se que, entre os mecanismos de cooperação proporcionados pela identidade cultural comum aos dois lados do Estreito de Taiwan, encontra-se a capacidade, demonstrada historicamente, de fazer prevalecer, diante de qualquer adversidade, os valores mais importantes da civilização chinesa.

Assim aconteceu, por exemplo, quando a China foi invadida, durante séculos, em diferentes momentos, por mongóis e manchus. Sempre, aqueles que demonstraram superioridade militar, acabaram sendo absorvidos pela superioridade cultural chinesa.

Da mesma forma, Pequim espera que volte a ocorrer, no que diz respeito à divisão ora existente entre o continente e a ilha, iniciada em 1949. Assim ocorreria, na medida em que foram preservados laços muito peculiares, consolidados por cultura compartilhada, que servirão de cimento entre as sociedades dos dois lados do Estreito de Taiwan, no sentido da integração econômica e política.

Os vínculos entre o continente e a ilha

Nunca é demais enfatizar, a propósito, que Taiwan é herdeira de vínculos com a China que criam um marco de referência, incluindo valores, ideias e crenças consolidadas através de uma história compartilhada. Laços foram estabelecidos, assim, a partir do fato de habitantes dos dois lados do Estreito falarem o mesmo dialeto, pertencerem à mesma família ou serem originários de um único povoado, província ou região. A relação de confiança, que tais condições conferem a transações comerciais e financeiras no continente asiático, supera a capacidade de coerção ditada por muitos diplomas legais no Ocidente.

Formou-se, assim, rede regional, com bases étnicas, que atuou como intermediária, em termos de agentes financeiros, comerciantes e empresários facilitando a reintegração econômica de Taiwan à China. Esta é uma condicionante que tem contribuído para que o processo de unificação dos mercados e sistemas produtivos, de ambos os lados do Estreito, seja reforçado por laços interpessoais ou fatores culturais (vide livro de minha autoria “Taiwan — um futuro formoso para a ilha?”, Editora UFRGS, 2005).

Assim, conforme narro no livro citado acima, no início do processo de abertura da China para o exterior, comerciantes formosinos, por um lado, dispunham de relação de empatia com os nacionais da República Popular, por raízes étnicas. Por outro, estavam mais bem equipados para compreender o que se passava no mundo de negócios no exterior, devido a sua já longa exposição a empreendimentos multinacionais.

Lembra-se, a propósito, que o intercâmbio comercial entre a China e Taiwan teve início na década de 1980, quando a economia da República Popular começou seu processo de abertura para o exterior. Tal desenvolvimento foi muito bem aproveitado pelos taiwaneses, que se encontravam em fase de reorganização de suas vantagens competitivas.

Seria conveniente, neste ponto, lembrar, também de forma simplificada, a descrição convencional da recente evolução econômica taiwanesa. Segundo esta, a ilha costumava apresentar montanhas cobertas de nuvens, rios de águas límpidas e planícies verdejantes, onde uma população de aborígenes caçava animais selvagens e plantava o necessário para a sobrevivência. Depois do costumeiro período de agressão dos mercantilistas estrangeiros, chega-se a meados do século XX, quando os seguidores de Chiang Kai-Shek impuseram o aparato institucional da “República da China” em Taiwan, promoveram extensa reforma agrária e iniciaram acelerado processo de industrialização.

Na década de 1960, começou a revolução industrial formosina. As montanhas desapareceram sob nuvens de fumaça, os rios foram poluídos e as planícies foram ocupadas por avalanches de ferro e cimento. A ilha não cessou mais de produzir, aproveitando a mão de obra e terra baratas, transferência de tecnologia e proteção militar dos EUA e acesso de seus produtos ao mercado norte-americano.

Taiwan tornou-se fabricante de bicicletas, sapatos, têxteis, brinquedos e guarda-chuvas, bem como de qualquer bem que pudesse ser fornecido como OEM (“Original Equipment Manufacturing”), segundo o esquema em que outra fonte provesse o desenho dos artigos a serem feitos na ilha, de acordo com especificações de fora.

Nesta fase inicial, portanto, foi conveniente aos taiwaneses transferirem para o continente suas indústrias menos avançadas, de utilização intensiva de mão de obra e mesmo poluentes. A maioria foi instalada nas proximidades de Hong Kong, com vistas a aproveitar suas facilidades portuárias e resultante acesso a mercados internacionais.

A segunda leva, em meados dos anos 90, visou ao vasto número de consumidores chineses. Indústrias formosinas, portanto, foram instaladas ao redor das grandes cidades do continente com maior poder aquisitivo e meios de transportes para áreas no interior do país. Em seguida, empresas eletrônicas taiwanesas passaram a considerar o continente como fator estratégico fundamental para suas operações mundiais.

Nesse processo, até recentemente, a ilha vinha obtendo sucesso na elevação das indústrias locais a um patamar tecnológico mais avançado, enquanto suas exportações de produtos de menor valor agregado, fabricados na China, passaram a usufruir das quotas concedidas pelos países industrializados aos chineses. A República Popular, no entanto, passou, também a reorganizar suas próprias vantagens competitivas, iniciando a produção de bens semelhantes aos das indústrias taiwanesas lá instaladas. Paralelamente, apesar das restrições impostas por Taipé ao limite de investimento que poderia ser feito no continente, a economia chinesa tornou-se forte competidora da taiwanesa, em busca do capital disponível na margem formosina do Estreito.

O projeto chinês

No que diz respeito a um projeto chinês para este milênio, verifica-se que, com o início do processo de modernização, em 1978, buscou-se, numa primeira etapa, a integração do próprio sistema econômico da China.
Em seguida, foi permitida a abertura de cidades costeiras ao comércio internacional, com a criação das Áreas Econômicas Especiais, onde foram permitidas práticas de economia de mercado dentro de um sistema centralmente planificado mais amplo.

Gradativamente, houve a consolidação de Hong Kong e Macau no sistema produtivo da RPC. Está em curso crescente integração econômica com Taiwan. A expansão da fronteira econômica chinesa em direção ao Sudeste Asiático está sendo facilitada pela existência, ao Sul da China, de uma rede de indivíduos com origem étnica comum, chamados “chineses de ultramar”, que têm como referência uma mesma identidade cultural (sobre o assunto publiquei sucessivos artigos neste espaço de Mundorama).

Assim, gradativamente, chegar-se-ia a uma futura congruência entre a área de influência tradicional da cultura chinesa e uma nova fronteira econômica da RPC (Vide meu livro “A China e o Sudeste Asiático”, Editora UFRGS, 2000).
Este último desenvolvimento ocorreria através de um fenômeno de “cross fertilization”, caracterizado por intercâmbio de referenciais de valores, entre aquela área considerada historicamente como situada na periferia do Império do Centro e a RPC. Cartograficamente, o espaço cultural de influência chinesa referir-se-ia a Tailândia, Malásia, Singapura e, em certa medida, Indonésia e Filipinas.

A tese de que estaria em curso tal desenvolvimento, como já foi dito, considera que, quando se fala em influência político-cultural chinesa, tem-se em conta os efeitos dessa herança histórica na ação das sociedades civis, como facilitador do processo de cooperação entre a China e o Sudeste Asiático.

Não estão sendo consideradas, portanto, iniciativas de “políticas de Estado”. Isto porque, tanto na China, quanto no Sudeste Asiático, o conceito de Estado evoluiu em diferentes estágios, em processo original, distinto do ocorrido do mundo ocidental, sempre a partir da perspectiva de que o centro de tudo era a figura do dirigente local, desvinculada de um espaço geográfico definido. A concepção chinesa, ademais, sempre atribuiu importância fundamental aos laços sanguíneos, como marco de referência para a soberania do Imperador. As fronteiras eram definidas em “termos sanguíneos”, isto é, ocupação de pessoas de civilização chinesa, sem levar em conta limites territoriais.

Conclusão

Conclui-se que, ao respeitar a “noção pacífica” de “uma China”, considerando a opinião de cada parte, o resto do mundo contribuiu para a manutenção da paz através do Estreito de Taiwan. Houve, no entanto, momentos de crise, com o disparo de mísseis chineses em direção a zonas marítimas próximas da ilha, em 1996. Como reação, o ex-Presidente Bill Clinton enviou poderosa armada para as proximidades da ilha aliada.

Assim como diferem as interpretações sobre qual é a “verdadeira China”, as razões de cada parte sobre a possibilidade de reunificação também são divergentes. A RPC acredita ter o tempo a seu favor, no sentido de que, ao se tornar cada vez mais rica e poderosa, os chineses que habitam Taiwan irão preferir a cidadania da República Popular.

As autoridades formosinas antecipam o contrário, na expectativa de que, gradativamente, a população local encontre cada vez menos em comum com os habitantes do continente chinês, em função da forma de governança autoritária adotada por Pequim. Assim, estima-se que cerca de 60% dos habitantes da ilha, atualmente, se identifiquem como taiwaneses.

Essas alternativas dependerão: da continuação e consolidação do processo de enriquecimento da RPC; de que os habitantes de cada margem do Estreito não se vejam como inimigos; de que a Ásia Pacífico permaneça em paz, sem que China e Taiwan sejam absorvidas por outros conflitos regionais; e de que vendas de armamentos norte-americanos futuros não venham a causar estragos adicionais.

Para o Brasil, a importância da reflexão sobre a questão atual da divisão dos chineses através do Estreito de Taiwan, bem como sobre o tema da emergência de um bloco político de interesses recíprocos e de mega proporções — como o representado pela China e o Sudeste Asiático — deve-se à possibilidade de que laços culturais possam vir a ser fator determinante na expansão de fronteiras econômicas. Tal cenário futuro influenciaria opções de política externa.

Esses desenvolvimentos ocorreriam sem o exercício da força como garantia de esfera hegemônica e com a ausência de construção de muros, que separariam culturas e economias já integradas.

Ademais, a tragédia em curso em Cabul e os alertas de Pequim, a Washington, de retaliação quanto ao fornecimento de armamento adicional a Taipé, com vistas a atrasar a reunificação da ilha ao continente, provocam reflexões sobre eventual cenário de uma “Afegaiwan”, na Ásia Pacífico.

Isto é, diante do exemplo do acontecido com os afegãos que apoiaram a ocupação estrangeira, nos últimos vinte anos, os taiwaneses devem refletir se realmente poderiam contar com o apoio de seus aliados norte-americanos, em caso de uma ação militar chinesa para forçar a capitulação da ilha.

Sobre o autor

Paulo Antônio Pereira Pinto é Embaixador aposentado.

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Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais — ISSN 2175–2052

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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