Democratas na Casa Branca e o futuro das relações EUA-México

Editoria Mundorama
Jan 13 · 6 min read

Luiz Eduardo Garcia da Silva

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Photo by Jorge Aguilar on Unsplash

Resumo: O que a vitória de Joe Biden pode afetar as relações entre EUA e México? O presente ensaio busca apresentar as possíveis implicações da volta dos democratas à Casa Branca, apontando o que esperar das relações bilaterais em seus aspectos centrais.

Introdução

A vitória de Joe Biden e a volta dos democratas à presidência dos Estados Unidos apontam para uma reorientação da política externa da potência hemisférica. A postura apresentada em sua campanha sugere um retorno dos EUA às suas tradicionais linhas de ação na esfera internacional. Em sua plataforma e discursos eleitorais, Biden assumiu maior preocupação com o multilateralismo comercial, defesa de uma ordem internacional liberal e reativação do pacto transatlântico por meio da reaproximação as potências europeias. Biden também prometeu restaurar o papel de liderança global exercido pelos EUA na defesa dos valores democráticos e de outros temas de âmbito global, como, por exemplo, as questões climáticas e securitárias[1].

As relações entre EUA e México historicamente se pautaram por períodos alternados de proximidade e conflito. Entretanto, desde o fim da década de 1980 — após a crise econômica mexicana e o início das tratativas que resultariam na vigência do Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta em inglês) — as relações entre ambos seriam pautadas pela cordialidade política e proximidade econômica. Não que o México tenha adotado uma política externa de alinhamento automático com os EUA, mas, dado o aumento da dependência econômica por parte dos mexicanos em relação à potência ao norte, fez com que sua ação externa ficasse limitada com o intuito de não causar nenhuma ruptura ou atritos entre ambos os países.

Além da dimensão econômica, outros grandes temas integram a agenda bilateral de EUA e México: as migrações e segurança (neste último caso, focado no combate ao narcotráfico e defesa das fronteiras). Com a intensificação dos fluxos comerciais, o aumento do tráfego de pessoas e mercadorias entre os dois países foi seguido pelo aumento da massa migratória proveniente do México para os EUA. Cabe lembrar que nem só de mexicanos é composto o grupo de indivíduos que buscam adentrar ilegalmente os EUA, pois o México é rota para muitos cidadãos da América Central e do Sul. Ao longo da década de 1990 foram diversos os planos de cooperação bilateral visando a reduzir tanto o fluxo de imigrantes ilegais quanto de criminosos que utilizam tais rotas para a venda de drogas.

O volume comercial e as políticas de cooperação bilateral durante os últimos anos fizeram com que o diálogo político entre EUA e México fosse marcado pela cordialidade mutua. Conflitos e declarações foram episódicos até as eleições de 2016 e a chegada de Donald Trump à presidência. Contudo, a promessa do presidente estadunidense para construção de um muro na fronteira entre os dois países, sua série de declarações depreciativas aos latinos em geral e sua postura comercial marcadamente protecionista, causaram turbulências no rumo das relações dos EUA com o México. Mas talvez tenha sido no tocante à questão da integração comercial onde ocorreram mudanças visíveis, como no caso da renegociação dos termos do Nafta resultando em praticamente um novo acordo comercial, o USMCA (United States — Mexico — Canada Agreement), também chamado de Nafta 2.0.

De qualquer modo, a vitória de Joe Biden nas eleições de 2020 pode representar uma série de mudanças ou então uma “correção de rumos” na postura global e hemisférica dos EUA. Seu discurso e plataforma de campanha indicam essa reorientação, mas o que a vitória de Biden representa para o México especificamente? Quais as consequências da saída de Trump e a volta de um democrata à Casa Branca no tocante às relações bilaterais? E, por fim, pode-se dizer que a chegada de Biden traz consigo um saldo positivo de possibilidades no âmbito do diálogo entre Estados Unidos e México?

O presente ensaio pretende responder a esses questionamentos enfocando três temas transversais relativos à política externa do México nas suas relações com os Estados Unidos. Em primeiro lugar, o impacto na questão migratória e de segurança relativo às fronteiras que divide ambos os países. Em seguida, avaliamos os temas comerciais e o futuro da relação bilateral a partir das mudanças observadas no acordo de livre-comércio entre México, EUA e Canadá. Em seguida, apresentamos as consequências no âmbito estritamente diplomático e político que dão o tom no diálogo bilateral. Por fim, apresentamos as conclusões buscando responder se o saldo da vitória de um democrata nos EUA é mais positivo do que negativo para o México.

Temas centrais

As relações entre México e Estados Unidos são pautadas atualmente com base em três dimensões interconectadas. São elas: a) a dimensão dos temas migratórios e securitários; b) a dimensão comercial — especialmente na questão da integração regional; c) e a dimensão política que é materializada pela diplomacia pública. Assim, para além das próprias iniciativas mexicanas em cada uma das dimensões supracitadas, cabe avaliar o impacto da eleição de Biden nesses temas.

I) Imigração e segurança

O tema de imigração e segurança fronteiriça é uma constante nas relações entre Estados Unidos e México há pelo menos 30 anos. Com a chegada de Biden, a expectativa é a de que se retome alguns programas de legalização de imigrantes. Biden chegou a afirmar que concederia a cidadania estadunidense para 11 milhões de imigrantes ilegais nos EUA[2]. Além disso, Biden visa a retomar o programa DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals) criado durante a administração Obama e que concedia alguns direitos, como autorização temporária de moradia e trabalho, a todos que imigraram ilegalmente para os EUA quando crianças. Nesse sentido, a chegada de Biden é vista com otimismo, ainda que seja importante ressaltar que o maior número de cidadãos deportados tenha ocorrido durante gestão de Obama, da qual Biden ocupou o cargo de vice[3].

II) Dimensão comercial — NAFTA e USMCTA

Em relação à dimensão comercial, a chegada de Biden não provocará grandes mudanças no que já foi estipulado nas cláusulas do USMCTA. Contudo, alterações de forma e não de conteúdo podem ocorrer. Os democratas podem, com base em seu histórico de ação, usar das novas determinações laborais previstas no acordo visando a pressionar o México a adequar a sua estrutura produtiva. Ainda assim, a saída de Trump reduz consideravelmente o risco de defecção dos EUA do acordo comercial bem como a possibilidade de utilização de barreiras tarifárias aos produtos mexicanos que entram no mercado estadunidense.

III) Diplomacia

Na seara das relações entre Estados propriamente dita, a preocupação de Biden em relação ao meio ambiente pode ser um elemento causador de atritos impactando inclusive a relação comercial. O presidente Andrés Manuel López Obrador (doravante AMLO) já exprimiu sua intenção de “resgatar” a empresa petrolífera mexicana, PEMEX, propondo inclusive um plano de ação para a aumentar a produção de hidrocarbonetos (produtos derivados de petróleo). Além disso, AMLO reduziu pela metade o montante de investimentos em pesquisa de energias limpas e renováveis. Biden, por sua vez, propôs o retorno dos EUA ao Acordo de Paris, bem como a implementação de um “New Deal” verde com a intenção de transformar toda matriz energética dos EUA até o ano de 2050.

Considerações finais

Em suma, a volta dos democratas à Casa Branca parece traduzir, ou pelo menos promete, um retorno aos antigos padrões de ação externa por parte dos Estados Unidos. Para o México, a saída de Trump pode representar ganhos incrementais no modo como se operam as relações bilaterais. Isto é, o discurso eleitoral de Biden e sua experiência como vice-presidente tornam o horizonte de ações um pouco mais previsíveis. Em termos de ganhos efetivos, estes só poderão ser auferidos após o desenrolar do processo político. Via de regra, a vitória do democrata aparentemente representa um passo positivo para o México. Contudo, até o momento em que ele assuma efetivamente o Executivo estadunidense, tais aparências só podem ser entendidas como expectativas e projeções de que melhores tempos virão no âmbito das relações bilaterais (e internacionais).

[1] Disponível em: http://joebiden.com/americanleadership/. Acesso em: 09 nov. 2020.

[2] Disponível em: http://joebiden.com/immigration/. Acesso em: 10 nov. 2020.

[3] Disponível em: https://abcnews.go.com/Politics/obamas-deportation-policy-numbers/story?id=41715661. Acesso em: 10 nov. 2020.

Sobre o autor

Luiz Eduardo Garcia da Silva é Doutor e Mestre em Ciência Política (UFRGS). Cientista Social (UFRGS) e Economista (UFRGS). Atualmente é Doutorando em Economia do Desenvolvimento da Escola de Negócios da PUCRS.

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Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais — ISSN 2175–2052

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