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Entre as sanções e a escassez: minerais críticos nas relações russo-americanas

Victor Gaspar Filho

Photo by Dominik Vanyi on Unsplash

Resumo: O artigo tem por objetivo analisar a profundidade do comércio Estados Unidos-Rússia no setor de minerais não-energéticos. No contexto de sanções sendo implementadas à Rússia, pode-se inferir que desdobramentos serão observados em cadeias produtivas americanas dada sua dependência do comércio bilateral.

Desde a invasão russa à Ucrânia em 24 de fevereiro, sanções estão sendo implementadas por países ocidentais com o objetivo de enfraquecer a economia russa. Os Estados Unidos determinaram o banimento das importações de petróleo russo, ainda que ele componha 7% das importações americanas totais do hidrocarboneto (EIA 2021). Commodities do setor agrário e energético são recursos cuja variação de preço oferece riscos mais imediatos para o consumidor, mas as cadeias de produção podem ser afetadas profundamente com o rompimento do comércio bilateral russo-americano.

Uma área a ser explorada nesse ínterim é a de minerais não-energéticos. Esses recursos vêm ocupando um espaço progressivamente maior nas discussões sobre comércio internacional, especialmente em virtude de sua essencialidade à transição energética e à manufatura de aparelhos eletrônicos. Os Estados Unidos buscam assegurar sua autonomia no setor, mas há diversos fatores intervenientes, como a disponibilidade das reservas minerais em seu solo, sua capacidade de refino, a viabilidade econômica, a poluição gerada pela atividade mineradora, entre outros.

Segundo o United States Geological Survey (USGS), 12 categorias minerais foram importadas da Rússia pelos Estados Unidos nos últimos anos: barita; escândio; potassa; crômio; abrasivos manufaturados (alumina, carbeto de silício e abrasivos metálicos); germânio; alumínio; diamante industrial; metais do grupo da platina; silício; zircônio e háfnio; e mica natural (USGS 2022). Não há reserva estratégica americana para qualquer um desses recursos.

A principal preocupação nos anos recentes é a dependência do mercado chinês (especialmente após a Guerra Comercial de Donald Trump e Xi Jinping), mas o risco em relação à Rússia se mostra elevado no contexto de invasão da Ucrânia. A Rússia está entre os três principais exportadores para os Estados Unidos de 5 dos minerais listados, além de estar entre os três maiores produtores de 7 deles.

Em 2017, a USGS publicou um estudo prospectivo simulando uma possível ruptura no mercado mineral russo, antecipando potenciais impactos nas cadeias produtivas internacionais e no nível de preços de cinco categorias de recursos minerais utilizados como parâmetro (USGS 2017). O relatório foi publicado no início da administração Donald Trump e, posteriormente, a atenção americana se voltou quase integralmente para a competição com a China, maior ator do mercado mineral do mundo.

No entanto, a Rússia continuou sendo um importante exportador de recursos minerais, e a ruptura do comércio com os Estados Unidos pode dificultar ainda mais a sua tentativa de ser menos dependente do mercado chinês. Ao mesmo tempo em que tentam aumentar sua produção doméstica de determinados minerais para a redução da dependência diante da China, os Estados Unidos buscam diversificar as fontes de importação dos recursos. Em 2019, por exemplo, foi criada a Energy Resources Governance Initiave (ERGI), um esforço entre os parceiros tradicionais Estados Unidos, Austrália e Canadá, além de Peru e Botswana com a finalidade de atender à demanda de minerais não-energéticos essenciais à cadeia de produção de equipamentos geradores de energias limpas (Departamento de Estado dos Estados Unidos da América 2019).

Dentre os recursos que os Estados Unidos importam da Rússia, encontra-se por exemplo o ferro silício, aplicado à indústria de semicondutores (chips) e paineis fotovoltaicos. A indústria americana de chips é deficitária e o governo federal tenta compensar essa defasagem (Gaspar Filho 2021). Taiwan é o maior fabricante de semicondutores do mundo, responsável por 54% do mercado internacional (Gaspar Filho 2021). Em 2020, registrou-se uma elevação de 8,4% na demanda por semicondutores que afetou a cadeia produtiva internacional de eletrônicos, despertando um movimento de investimentos nacionais na manufatura de chips em diferentes países (Gaspar Filho 2021).

No caso americano, foi publicada uma ordem executiva voltada para o investimento na base industrial doméstica em março de 2021, sendo os semicondutores um dos aspectos principais (Presidente dos Estados Unidos da América 2021). Um ano depois, no primeiro discurso sobre o Estado da União de Joe Biden, estava presente o CEO da Intel, Pat Gelsinger, numa seleta lista de convidados que incluía a Embaixadora ucraniana Oksana Makarova (Casa Branca 2022a). No discurso, Biden mencionou o projeto de US$ 20 bilhões da Intel para a construção de um parque industrial com oito fábricas em Ohio (Casa Branca 2022b).

No caso do ferro silício, a Rússia compõe 40% do total importado pelos Estados Unidos, além de ser a segunda maior produtora internacional do recurso (6,8%), após a China (70,5%) (USGS 2022). Necessário também à cadeia produtiva de semicondutores, o germânio tem na Rússia sua quarta maior fornecedora para os Estados Unidos (9% do total), após a China (53%), a Bélgica (22%) e a Alemanha (11%). A produção russa é a segunda maior do mundo (3,6%), sendo a chinesa a principal (68%) (USGS 2022).

O diamante industrial, também essencial aos chips, é exportado para os Estados Unidos da China (81%), Irlanda (6%), Coreia do Sul (6%) e Rússia (4%). A Rússia possui a maior produção internacional do recurso (33%) e as maiores reservas (61%). Outras aplicações desse recurso nos Estados Unidos são no setor de transportes, em brocas, em maquinários em geral e polimentos (USGS 2022).

O setor de transportes americano é fragilmente dependente de minerais russos: o alumínio, com mais de um terço de sua utilização nos EUA destinada ao setor, é 6% importado da Rússia, que também é a terceira maior produtora internacional do recurso (USGS 2022). Metais do grupo da platina também são utilizados nos Estados Unidos para manufatura de conversores catalíticos destinados à redução das emissões de automóveis. O paládio, mineral do grupo, é majoritariamente importado da Rússia (38%), que foi a segunda maior produtora do recurso em 2021 (10,5%), após a África do Sul (72,2%) (USGS 2022).

Semelhantemente, o crômio, utilizado para a manufatura de ligas de ferrocrômio, é principalmente importado da Rússia (36%), seguido do Reino Unido (23%) e da França (21%) (USGS 2022). As ligas são essenciais para aços inoxidáveis e resistentes a altas temperaturas, sem substitutos disponíveis para seus fins.

Outro campo da economia americana muito dependente do fornecimento de insumos russos é a agricultura. Dez por cento das importações americanas de potassa, que tem 85% da sua utilização em fertilizantes, foram russas (USGS 2022). O Canadá compôs 75% do total importado pelos EUA e 30,4% da produção internacional, liderando no setor. A Rússia, segunda maior produtora, produziu a parcela de 19,5% do total internacional de potassa em 2021 (USGS 2022).

A empresa canadense Nutrien pretende aumentar suas vendas em 2022, seguindo a ruptura no mercado global de fertilizantes provocada pela invasão à Ucrânia. Entretanto, em março foi registrada uma greve de 3000 funcionários da linha férrea Canadian Pacific Railway Ltd (Skerritt 2022). Eventos como esse podem agravar ainda mais a escassez de determinados recursos para o consumidor e potencialmente elevar os preços de produtos essenciais.

Entre as continuidades observadas entre os governos Trump e Biden está o investimento no setor de minerais não-energéticos. Esses recursos, críticos para os Estados Unidos, foram matéria de diferentes documentos emitidos pelo governo federal americano nos últimos anos, com particular regularidade desde a Ordem Executiva 13.817/2017, de Donald Trump (Presidente dos Estados Unidos da América 2017). Em setembro de 2020 foi publicada uma ordem executiva instaurando uma emergência nacional nos Estados Unidos para que determinadas regras aplicadas à emissão de licenças de mineração de terras-raras em território nacional não fossem mais exigidas, tentando contornar a dependência diante da China (Presidente dos Estados Unidos da América 2020).

A Executive Order on America’s Supply Chains, de Biden, não só não revogou o instrumento instituído por Trump, como requisitou atualizações do trabalho feito a partir da instauração da emergência (Presidente dos Estados Unidos da América 2021). O investimento federal no setor de mineração doméstico se mantém robusto, tentando recuperar o setor que se deteriorou nas últimas décadas. Entretanto, novos projetos de mineração podem levar mais de dez anos para se tornar operantes.

A promoção do comércio no setor com países tradicionalmente parceiros é essencial para que se tenha o fornecimento diversificado dos recursos. Porém, apesar da tentativa de aumentar a importação dessa categoria de países, há minerais que não serão encontrados no portfólio de produção deles. Aliados de ocasião para relações comerciais são fundamentais para suprir essa carência. A Rússia, em que pese seu histórico conturbado na relação bilateral com os EUA, é um parceiro comercial capaz de fornecer bens essenciais à economia americana. O rompimento das relações russo-americanas poderá impactar diferentes cadeias produtivas, fazendo com que sanções e boicotes não possam ser implementados de maneira abrupta para que as substituições de importações sejam acomodadas ainda no curto prazo.

Referências

Casa Branca. “STATE OF THE UNION ADDRESS”. https://www.whitehouse.gov, 1 de março de 2022. https://www.whitehouse.gov/state-of-the-union-2022/.

Casa Branca. “The White House Announces Guest List for the First Lady’s Box for the 2022 State of the Union Address”. https://www.whitehouse.gov, 1 de março de 2022. https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statements-releases/2022/03/01/the-white-house-announces-guest-list-for-the-first-ladys-box-for-2022-state-of-the-union-address/.

Departamento de Estado dos Estados Unidos da América. Energy Resource Governance Initiative (ERGI). Washington, 2019.

Elena Safirova, James J. Barry, Sinan Hastorun, Grecia R. Matos, Alberto Alexander Perez, George M. Bedinger, E. Lee Bray, Stephen M. Jasinski, Peter H. Kuck e Patricia J. Loferski. Estimates of immediate effects on world markets of a hypothetical disruption to Russia’s supply of six mineral commodities. Reston: U.S. Geological Survey, 2017. https://doi.org/10.3133/ofr20171023.

Presidente dos Estados Unidos da América. A Federal Strategy To Ensure Secure and Reliable Supplies of Critical Minerals. Ordem Executiva 13817. Aprovado em 20 de dezembro de 2017.

Presidente dos Estados Unidos da América. Executive Order on Addressing the Threat to the Domestic Supply Chain from Reliance on Critical Minerals from Foreign Adversaries. Ordem Executiva. Aprovado em 30 de setembro de 2020. https://trumpwhitehouse.archives.gov/presidential-actions/executive-order-addressing-threat-domestic-supply-chain-reliance-critical-minerals-foreign-adversaries/.

Presidente dos Estados Unidos da América. Executive Order on America’s Supply Chains, Ordem Executiva 14017, aprovado em 24 de fevereiro de 2021.

Jen Skerritt, Bloomberg. “Nutrien asks Canadian government to halt CP Rail strike”. financialpost, 3 de março de 2022. https://financialpost.com/commodities/agriculture/nutrien-asks-canadian-government-to-halt-cp-rail-strike.

Oil imports and exports — U.S. Energy Information Administration (EIA)”. Homepage — U.S. Energy Information Administration (EIA). Consultado em 12 de abril de 2022. https://www.eia.gov/energyexplained/oil-and-petroleum-products/imports-and-exports.php.

Victor Gaspar Filho, “Recuo da globalização das cadeias de produção internacionais”, Boletim Geocorrente, n.º 135 (março de 2021), https://doi.org/10.21544/2446-7014.n135.p15.

Sobre o autor

Victor Gaspar Filho: Pesquisador de Geopolítica da América do Norte (NAC/EGN) e de Minerais Offshore no Grupo Economia do Mar (GEM/EGN). Internacionalista (IRI/PUC-Rio) e mestre em Estudos Marítimos (PPGEM/EGN). Pesquisa política internacional, política dos Estados Unidos, assuntos marítimo-navais, geopolítica dos recursos naturais, minerais críticos, transição energética e mineração offshore.

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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