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Guerra da Ucrânia: expansão territorial como gestão

Virgílio Caixeta Arraes

Photo by Gaël Gaborel - OrbisTerrae on Unsplash

O processo de encerramento da disputa entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS) culminou com a reconfiguração territorial da Europa após décadas de estabilidade: da segunda união germânica em outubro de 1990 à fragmentação acelerada soviética, sem esquecer a dissolução checoslovaca em janeiro de 1993 — a iugoslava havia ocorrido em abril de 1992, sem encerrar-se até o momento, ao ter em vista a inconformidade de parcela dos componentes como sérvios diante das aspirações kosovares.

A expansão do mundo comunista — ou socialismo real, no dizer mais popular — no leste europeu não representou unidade política, ou seja, fronteiras seriam mantidas em decorrência de distinções na constituição histórica, idiomática, religiosa etc.

O Kremlin fez do russo a língua franca da região, embora sem o mesmo alcance do inglês na faixa ocidental. Concernente à religião, cada país da órbita moscovita tinha um tratamento, de sorte que não se podia comparar a Polônia, de onde sairia um sumo pontífice em 1978, João Paulo II, santo desde 2014, com a Albânia, por exemplo.

Ao derrotar o nazifascismo em 1945, o comunismo teria condições de impor-se a vastas áreas da Europa, em função também da adesão de populações locais, participantes de agremiações então estimadas como revolucionárias ou no mínimo transformadoras.

No entanto, com o passar dos anos, o entusiasmo diminuiria porque o regime não se mostrava apto a emparelhar-se socioeconomicamente com o adversário — capitalismo democrático — do outro lado do continente ou do oceano Atlântico.

À guisa de cotejo, a análise entre as duas Alemanhas durante a Guerra Fria, malgrado a formação conjunta até 1945, demonstrava a diferença substantiva de qualidade de vida, posto que favorável à parte oriental em competições esportivas globais.

A transição da conversão da elite soviética, depois russa, ao capitalismo neoliberal contribuiu para a liquefação do território, conquanto não tenha sido única causa. A preservação das fronteiras transcende no imaginário do povo o regime adotado: monarquista, comunista e, por último, capitalista, ainda que possa haver variações no delineio do mapa, comuns a soberanias de estirpe imperial.

Todavia, a década de noventa apresentou àquela população rápida modificação da composição geográfica do país, ao desembocar em dezena e meia de nações: por coincidência, Vladimir Putin tornar-se-ia primeiro-ministro no segundo semestre de 1999, momento no qual o Kremlin tinha dificuldade de interromper a atuação de grupos chechenos fundamentalistas em direção à separação. Sua movimentação bélica atingiria o Daguestão e seriam eles suspeitos de atos de terror em Moscou.

Oriundo da carreira do serviço secreto, seu nome de início não despertava desconfiança, nem entusiasmo perante o parlamento e aos olhos do eleitorado. Defronte de ataques terroristas à capital atribuídos àqueles integristas, o dirigente iria reagir de maneira férrea, de sorte que sua aprovação em meses chegaria aos píncaros, ao invadir sem reservas a Chechênia.

A despeito da resistência, representada de modo trágico por dezenas de milhares de mortes militares e civis, as forças armadas russas conseguiriam retomar o controle da área em menos de seis meses. Com o aparente êxito da campanha, surgiria potencial candidato à eleição à presidência da república a ser realizada em julho de 2000.

Bastante desgastado, e talvez pressionado por seu grupo, o mandatário Boris Yeltsin comunicaria na virada de 1999 para 2000 a renúncia ao cargo. De acordo com o artigo 92 da carta constitucional, seu substituto temporário seria o primeiro-ministro, cuja permanência no posto seria até três meses.

Destarte, o pleito seria antecipado; com unguentos marciais da guerra do Cáucaso, Putin se candidataria e venceria sem obstáculos a disputa. Desde aquele período, ora é presidente, ora é primeiro ministro.

Recuperar de maneira gradativa a antiga configuração territorial da Rússia contribui na renovação dos laços da duradoura e corroída administração de Putin com o eleitorado. A escolha da Ucrânia recai na afinidade cultural e, ao mesmo tempo, na distância política crescente, uma vez que Moscou não perfilha tal postura com a Belarus, por ser ela própria aliada incondicional. Entretanto, o esfumaçar no horizonte de uma vitória adensa-se ao Kremlin e os desdobramentos negativos avolumam-se.

Saliente-se que ainda não se esclareceu ao público o motivo da seleção da data da invasão da Ucrânia. Divergências entre os governos não eram recentes, nem haviam sido, por outro, intensificadas. A alta impopularidade do mandatário kievita pode ter estimulado o dirigente moscovita a lançar os batalhões em campo em fins de fevereiro.

Outrossim, a confiança no alto oficialato de que eventual investida contra o vizinho seria precisa e lépida, sem ser executada por noite calada, de modo que a reação local seria incapaz de opor-se aos seus contingentes e a regional — leia-se, União Europeia (UE) — estaria desnorteada com o propósito de articular-se diplomaticamente a tempo de suspender a ação do Kremlin.

Devido ao andamento do conflito, atores principais — estadistas, generais, parlamentares e diplomatas — dos dois polos limitam suas manifestações públicas a falas lacônicas, mercadológicas, com o propósito de estimular o moral de civis e de combatentes diante dos obstáculos diários, ou, no máximo, cifradas, ou seja, mensagens voltadas aos serviços de espionagem envolvidos de forma direta na confrontação.

Portanto, a perspectiva russa sobre seus reveses atuais na arena militar demorará a emergir, ainda em face da estruturação autoritária do país. No passado, jornais e estações televisivas publicavam dados, apresentados sob manto da confidencialidade, a fim de proteger informantes e suas famílias.

Como afamada referência, mencione-se o caso, embora de feitio civil, nos anos setenta do Garganta Profunda, alcunha atribuída a Mark Felt, diretor adjunto do Federal Bureau of Investigation (FBI), durante a apuração do escândalo Watergate por dois repórteres do Washington Post, mais tarde celebrados em 1976 no filme Todos os homens do presidente.

Hoje em dia, suprime-se de modo parcial a lacuna com relatos advindos de redes sociais. Contudo, ocorre a dificuldade de se aferir a fidedignidade das histórias vindas a lume, haja vista a possibilidade de ser também disseminação calculada de narrativas deturpadas ou mesmo falsas, com o fito de confundir planejadores e decisores governamentais.

Conquanto o acesso à tecnologia sofisticada tenha-se ampliado para os meios de comunicação em todo o planeta, analistas, a partir deles, continuam em apuros para verificar com precisão o transcorrer da confrontação, ou seja, independente do último referendo de anexação de quatro regiões pelo Kremlin, quais áreas estão sob controle russo ou sob retomada ucraniana.

Por fim, fato incontestável é a demora da campanha em progressão — cerca de oito meses — medida sinalizadora de embaraço da pretendida renovação ou da aproximação política entre a administração de Vladimir Putin e a sociedade.

Sobre o autor

Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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