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Guerra da Ucrânia: remotas origens da discordância

Virgílio Caixeta Arraes

Ao cabo de dezembro de 2022, tropas da Rússia e da Ucrânia digladiam entre si sobre o destino de quatro províncias — Lugansk, Donetsk, Kherson e Zaporíjia — consideradas por cada uma como suas, fundamentadas ambas em justificativas na história, na cultura, na religião e nos últimos meses nos combates incessantes a partir de medida indevida militar do Kremlin.

Acirram-se as batalhas à proporção que os Estados Unidos (EUA) providenciam armamentos sofisticados ao país agredido como os mísseis Patriot — acrossílabo de phased array tracking to intercept on target — cujo alcance supera cento e cinquenta quilômetros.

Dispõem as potências em essência de dois corpos burocráticos com o propósito de lidar com a política exterior no dia a dia: o diplomático e o castrense, ao ser este tão somente invocado quando em tese aquele não lograsse sucesso em determinada questão — rememore-se, desta feita, o afamado exemplo dos canhões do exército do belicoso Luís XIV, ornamentados com a inscrição em latim ultima ratio regum, ou seja, derradeiro argumento dos reis!

Não há na confrontação corrente informação segura relativa à negociação prévia, ao menos pública, entre Moscou e Kiev sobre ocasional delimitação de novas fronteiras comuns, à exceção da anexada Crimeia à força em março de 2014.

Sob alegação de proteger nacionais seus diante do desembaraço da extrema direita no vizinho, o presidente Vladimir Putin chancelou a invasão no fim de fevereiro de 2022 ante a incredulidade da União Europeia (UE), haja vista o desrespeito à aludida tradição diplomática, posicionamento distinto do dos Estados Unidos, mais realistas no tocante ao comportamento da Rússia.

Caso haja entendimento entre Kremlin e Mariyinski no próximo ano sobre eventual cessar-fogo, a cizânia entre as duas sociedades deve persistir, em decorrência do sofrimento perpetrado por meses e meses de ataques maciços a áreas civis da nação assaltada.

Por descargo de consciência, a recuperação da infraestrutura ucraniana seria a passos lentos devido à insegurança constante de incerta ameaça russa de devastação. Além disso, o governo local terá de ampliar gastos bélicos em detrimento de outros segmentos também importantes como saúde e educação.

Desunidos os dois países na atualidade, contudo estiveram eles entrelaçados há cem anos, depois de superadas dificuldades iniciais, na implementação de experimento revolucionário cujo encerramento ocorreria ainda no século passado de forma decepcionante, logo trágica para suas populações.

Em dezembro de 1922, uniram-se Rússia, Ucrânia, Belarus (na época, Bielo-Rússia) com a finalidade de constituir a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) após cinco anos de instabilidade derivada da Primeira Guerra Mundial, de uma revolução socialista e, por último, da disputa civil.

Incapaz de resistir aos combates no largo conflito europeu, Moscou, em transformação de monarquia absolutista para comunismo ditatorial, negociaria em dezembro de 1917 armistício com seus três oponentes: Berlim, Viena-Budapeste e Istambul.

Em fevereiro de 1918, os alemães assinariam com os ucranianos, em processo de secessão perante a desagregação imperial, tratado de paz, por isso, separado dos russos. Atônito, o governo revolucionário, liderado por Vladimir Lênin, vir-se-ia diante da retomada das batalhas por seus adversários a não ser que aceitasse os questionáveis termos da trégua, acordada em Brest-Litovsk.

Em vista do quadro desfavorável nas suas duas frentes — extrema tensão política interna e considerável tibieza militar externa — o Kremlin teria de acolher em março de 1918 condições rigorosas para eximir-se de participar daquela confrontação continental:

Desta sorte, ela teria de acatar a perda da Ucrânia, Finlândia, Letônia, Lituânia, Estônia, Geórgia e Armênia. De fato, estes países na Europa ficariam à sombra do tirocínio da Berlim de Guilherme II ao passo que os da Ásia, do de Istambul do triunvirato paxá. Seria no lado ocidental recuo lindeiro em certa medida ao período de Pedro I.

No entanto, com o encerramento da disputa global em novembro de 1918, Moscou encararia situação diversa, malgrado de novo adversa: inúmeras potências como Grã-Bretanha, Itália, Estados Unidos, Japão, França etc sustentariam contingentes na parte asiática de seu território com o fito de barrar o vagalhão revolucionário:

Assim, elas concederiam apoio a dissidentes concertados no anticomunismo como monarquistas, liberais, populistas, sociais-democratas e, por conseguinte, desfrutariam da expectativa de travar o radicalismo na parte leste da Europa. Por outro, de modo paralelo, o conteúdo de Brest-Litovsk seria desconsiderado a datar da extinção do império alemão.

Com o desenrolar da guerra civil russa, a Polônia, recém-independente, após aguardar a soberania desde 1795, decidiria ocupar em 1920 a Ucrânia, ao ter como objetivo a restauração de sua área ao tempo do final do século dezoito; apesar dos esforços, ela teria de aceitar armistício com a Rússia e, por derradeiro, assinar tratado de paz em março de 1921.

Nas suas fronteiras orientais, a potestade bolchevique recomporia na prática os limites do período tsarista, ao absorver de novo Armênia, Geórgia e Azerbaijão, enquanto nas ocidentais, não, conquanto tivesse recuperado terras ucranianas — todavia, ela perderia as da Polônia e as da Bessarábia, agregada esta depois à Romênia.

Pacificada relativamente a vasta região, haveria o firmamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas com quatro integrantes de início: o russo, o ucraniano, o bielo-russo e o transcaucasiano — composto de armênios, georgianos e azerbaijanos.

A formação diferenciar-se-ia da predecessora imperial: ao invés de tentar russificar os povos incorporados por instituições estatais e religiosas, ela iria a princípio respeitar a autonomia nacional, antiga aspiração originada do entrelaçamento autoritário monárquico, o qual, ao longo de gerações, havia reunido dezenas de povos de variadas tradições — em 1936, o Kremlin instituir-se-ia até um soviete (comissão) de nacionalidades.

Mesmo assim, intui-se a sobrevivência de nacionalismos durante a administração soviética. Por coincidência, o substituto de Josep Stalin seria Nikita Khruschev, ucraniano de origem, que ao assumir o poder em setembro de 1953 destinaria a Crimeia, então moscovita, ao controle kievita em fevereiro de 1954.

De fato, com o passar do tempo, a sovietização, eufemismo para a primazia russa, iria predominar, a despeito da formalidade de desenvoltura burocrática das repúblicas. Com a extinção em dezembro de 1992 da União Soviética, alguns acreditaram que cada uma daquelas nações seguiria seu caminho a cavaleiro, embora com respeito aos vizinhos.

Na dissolução do regime monarquista — dinastia Romanov — em 1917, sua sucessora, a administração revolucionária, conseguiu recuperar os territórios ‘desgarrados’ em meia década apenas; na desagregação do comunista, a subsequente gestão, não, ainda que tenha mantido a aspiração, portanto o espírito, de trazê-los para si. Eis uma fundamentação, não única, para a lamentável contenda em plena virada de ano.

Sobre o autor

Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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