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Mikhail Gorbachev: do ápice ao nadir em poucos anos (1985–1991)

Virgílio Caixeta Arraes

Gorbachev em 1987. Fonte: Wikipédia.

Em meados dos anos oitenta, o mundo dividia-se entre a inspiração ou a rejeição de dois modelos liderados por duas incontestes superpotências nucleares desde o final da década de quarenta: Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS).

Aquela iniciava o primeiro quarto do segundo mandato do conservador Ronald Reagan, republicano de agremiação, ao passo que esta avaliava o caminho a trilhar, haja vista o falecimento em março de 1985 de Constantin Chernenko — representante da linha ortodoxa — secretário-geral do Partido Comunista (PC).

O Comitê Central subscreveria a renovação, considerada urgente, ao cravar na substituição do cargo de maior importância do país o nome do integrante mais jovem do Politburo, o de Mikhail Gorbachev, falecido ao cabo de agosto último. Embora os dois órgãos concorressem entre si pelo poder dentro da enrijecida burocracia comunista, haveria convergência na seleção do substituto de Chernenko.

Anunciado o aguardado titular, admitir-se-ia de maneira simbólica a necessidade explícita de atualizar o cambaleante modelo, desnorteado internamente pela falta de pujança econômica e externamente pela tibieza da social-democracia do arco norte-atlântico, enfraquecida pelos efeitos do I Choque do Petróleo, de 1973.

Acostumada Moscou a servir de bússola para movimentos revolucionários em quase todo o planeta desde o encerramento da Segunda Guerra Mundial, era ela agora a buscar o norte para si mesma com o propósito de sobreviver na acirrada disputa bipolar, intensificada pela alteração de posicionamento de Washington a datar da chegada à Casa Branca de Reagan em alternância a Jimmy Carter, de extração democrata.

Política e economia eram duas variáveis ao Kremlin objetos de delicada avaliação no tocante a abrir ou a fechar o quase septuagenário sistema, já deveras enfermiço, ao levar em conta quatro possibilidades disponíveis naquele momento. Ao se definir uma, faltaria assinalar o ritmo a executar e a forma de implementar a opção.

A referência de peso mais aproximada ao regime era a da China, cuja escolha havia sido a de manter-se encastelada na política enquanto se desimpedia de modo célere na economia, postura viabilizada depois da visita de Richard Nixon em agosto de 1973.

Segue Pequim até os dias correntes com a toada e está prestes a ombrear-se com os Estados Unidos concernente à capacidade de atuação planetária — vide o caso da confrontação na Ucrânia em que o país adquire de Moscou combustível a preços bem acessíveis em troca do consentimento tácito da ação castrense.

No plano exterior, o Kremlin tinha em sua perspectiva de adaptar-se a novos tempos o desafio de ostentar padrão bélico — convencional e atômico — suficiente para sustentar a perseverante competição com a Casa Branca e de arte simultânea de providenciar condições para conservar em sua órbita próxima governos em diversas partes do globo:

Na América Central e Caribe, Cuba era o parceiro mais tradicional e chamativo, porém ocorria a emergência da Nicarágua, cujo desdobramento teria impacto na política externa estadunidense de modo negativo — o chamado Irã-Contras;

Na África, Angola, independente de Portugal desde a década de setenta, e Etiópia e, por derradeiro, na Ásia, onde figurava a Coreia do Norte, ainda que acercada da China, e Afeganistão, em disputa havia anos entre comunistas e integristas.

De fato, já não existia a possibilidade de conciliar na mesma cadência auxílio a coligados longínquos, mesmo entre os antigos, e prover investimentos militares copiosos e por que não ineficazes, ao ter no horizonte a esperança de equiparar o nível de vida da população com o de outras nações da Europa.

Relativo ao desenvolvimento tecnológico, o segmento nuclear, por exemplo, proporcionaria demonstração trágica ao mundo em 1986, quando a usina de Chernobyl, uma das quatro situadas na Ucrânia, entrou em colapso sem que seu corpo técnico conseguisse evitar catástrofe, desencadeadora, por seu turno, de milhares de feridos e de mortos nas semanas seguintes, além do deslocamento imediato de centenas de milhares de pessoas — apesar disso, a Ucrânia é até hoje a maior consumidora de energia atômica no leste europeu.

Acresça-se que reconhecida a fragilidade da economia russa de financiar seus gastos bélicos, os norte-americanos iriam ampliar os seus próprios, caracterizados no ambicioso — e jamais concluído — programa Iniciativa de Defesa Estratégica (IDE), afamado de maneira popular como Guerra nas Estrelas, nome inspirado em uma das mais famosas sagas de Hollywood daquele período.

A partir de 1986, Moscou, em face da queda acelerada dos preços de petróleo estimulada por Riade, não teria capacidade de renovar a estrutura econômica do país, a despeito da vontade de Gorbachev ou antes da necessidade iminente.

Entre janeiro e julho do citado ano, a cotação do produto chegaria quase à metade do valor. Com vistas à produção de 1985, os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) iriam elevar em mais de noventa milhões de barris a quantidade em 1986.

Em função do quadro internacional, uma perspectiva viável para Moscou seria negociar com Washington limites para a produção de armamentos nucleares; outra seria reduzir de forma parcimoniosa subsídios a nações associadas; a seguinte seria diligenciar o destino de sua participação em território afegão — denominado o conflito por Zbigniew Brzezinski, quando titular da Assessoria de Segurança Nacional, ao presidente Jimmy Carter de Vietnã soviético.

Por trancos e barrancos, Gorbachev conseguiria avançar, porém sem revitalizar o regime no curto prazo a contento. Destarte, a União Soviética terminaria por capitular em pouco tempo e logo desapareceria, com o nascimento de vários países.

Reformas internas haviam fracassado e ações externas não haviam tido a correspondência aguardada com relação ao apoio de grandes potências ao seu processo de recuperação — nem sequer o encerramento da Guerra do Afeganistão geraria isto.

Sua sucessão em 1991 seria atabalhoada — antes, até malogrado golpe de Estado ocorreu — de sorte que a lembrança de sua gestão à sociedade russa não seria assinalada de maneira positiva, apesar da obtenção do Nobel da Paz em 1990.

Em 1996, como candidato independente à presidência da Rússia, sua votação atingiria mero meio por cento. Seria desfecho político lamentoso para o dirigente que, em meia dúzia de anos apenas, havia contribuído de modo incisivo para o final de um dos mais longos confrontos da história contemporânea: o da Guerra Fria.

Sobre o autor

Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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