Os Gansos, o Dragão, o Pavão e o Papagaio. Qual o pássaro típico de Angola?

Editoria Mundorama
Aug 4 · 8 min read

Paulo Antônio Pereira Pinto

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As Olimpíadas de Tóquio trazem à lembrança o fato recente de que, durante as décadas de 1980–90, acreditava-se que predominava, na Ásia-Pacífico, o conceito de “revoada de gansos”, na qual o Japão seria o líder, em virtude de bem-sucedido processo de desenvolvimento industrial voltado para exportações. Na medida em que seus produtos vendidos ao exterior se tornassem mais sofisticados e caros, os bens de menor valor agregado teriam sua manufatura, gradativamente, transferida para outros locais vizinhos, na Coreia do Sul, Cingapura, Hong Kong e Taiwan. Estes viriam a tornar-se novos “gansos” e a formar a tal “revoada” atrás dos japoneses.

O “dragão” chinês, então, não era considerado capaz de ser incluído nesta formação. As justificativas para a decolagem da China, no final do século passado, passaram a ser encontradas em ampla bibliografia sobre a questão de “valores asiáticos” e sua influência no processo dos “flying geese”. Segundo essa forma de pensar, o “hierático universo confuciano”, de origem chinesa, estaria permeando o fenômeno de crescimento da Ásia Pacífico, misturando gansos e dragão numa mesma revoada.

A partir do início do atual milênio, no entanto, o pavão indiano começou a marcar presença neste já eclético bando de aves símbolos de crescimento econômico. Na Índia, contudo, além do pavão, de pouca autonomia de voo, há, em Mumbai (onde fui Cônsul-Geral, entre 2006 e 2009), abutres, corvos e muitas — muitas, mesmo — pombas que, com o comportamento errático idêntico ao dos demais habitantes do país, não obedecem a preceito confucionista algum. Tornou-se necessário, portanto, criar novo discurso ou tese, para explicar o alardeado fenômeno de emergência no Sul da Ásia.

Assim, o ex-editor da revista “Economist”, Bill Emmott, publicou o livro “Rivals — How the powerstruggle between China, India and Japan will shape our next decade”, no qual cria abordagem inovadora para explicar a evolução dos países asiáticos, afirmando que suas elites poderiam ser divididas entre “produtivas” e “parasitárias”.

Nessa perspectiva, ficava resolvida a questão do enquadramento do pavão no fenômeno de crescimento regional. Isto é, na sequência da produtividade das elites dos países dos gansos e do dragão, o animal indiano, agora, se veria livre de sua elite parasita.

Como observador em Mumbai, nesse contexto, parecia-me claro que, para encontrar seu rumo ao progresso, não caberia ao Brasil adotar — neste universo aviário — a simples postura de um papagaio de imitação, condenado a apenas copiar raciocínios gerados em capitais europeias e norte-americanas. Exercício de reflexão, indicava haver alternativa de outros enfoques sobre o progresso, tendo em vista o ressurgimento, a partir de então, da influência de civilizações asiáticas, no cenário internacional. Caberia, assim procurar nosso próprio espaço de identidade cultural, em nossa área geopolítica, como base e impulso para o progresso coletivo.

A Ásia

A “Ásia”, a propósito, é uma expressão geográfica, onde, como foi visto acima, aves de diferentes tipos são usadas como símbolos. Não corresponde a uma civilização particular. Agrupamentos humanos muito variados se espalharam por seu território. Uma “civilização asiática” se apresenta, apenas, no Extremo Oriente. Naquela área, a vida humana se relaciona mais com o continente do que com o mar ou seu litoral.

Pode-se falar, no entanto, de um mundo do Oceano Pacífico e outro do Índico. Cada um desses deve ter suas aspirações estudadas separadamente. A natureza e a história concederam traços próprios a esses dois vastos conjuntos, diferenciando-os do mundo Ocidental.

No que diz respeito à China, os primórdios de sua história são marcados por sucessivas invasões de povos do Norte e Noroeste, levando ao surgimento e à falência de grandes Impérios. Assim, a dinastia “Chang” floresceu no Segundo Milênio antes de Cristo, tendo sucumbido a invasores conhecidos como os “Tcheos”.

Em seguida, um novo Império se organiza, mas, sendo tão vasto, é fracionado em principados, hostis uns aos outros. A Guerra Civil se intensifica até que uma família mais forte, a dos “Hans”, impõe sua autoridade. Os quatro séculos de paz assegurados pelos Hans são seguidos por novo período de anarquia até que veio a ser instalada a dinastia Tang (618–907).

Estas lutas internas, no entanto, não impediram que a China estendesse sua influência sobre a península coreana e ilhas japonesas.

Tais conflitos marcaram profundamente a mentalidade chinesa em dois aspectos principais: o camponês viveu sempre na ignorância sobre as causas dessas profundas alterações na vida política do país, enquanto consolidou completa indiferença sobre o que se passava além do seu grupo social de interesse mais próximo, isto é, a família e a aldeia; e o comércio e a agricultura se desenvolveram à margem dos grandes movimentos políticos que sacudiram o Império chinês, através dos séculos.

O Caso da Índia

Até a chegada dos conquistadores turco-afegãos, no século XII, as sucessivas levas de invasores ou novos imigrantes que chegavam à Índia foram sendo absorvidos pelas civilizações já estabelecidas na área. Assim acontecera com gregos, hunos e diferentes grupos e tribos da Ásia Central[1].

Com turcos e afegãos, no entanto, veio novo elemento cultural que não foi absorvido pelo Hinduísmo — o Islã.

Mesmo que essas duas religiões tenham permanecido separadas e distintas, a civilização que chegou à Índia com o Islã começou a influenciar todos os aspectos da vida local, criando o que alguns estudiosos chamaram de uma cultura Indo-Islâmica, particularmente no Norte do país.

Dois debates são criados, com respeito ao relacionamento entre a Índia e o Islã. O primeiro é histórico. Estudiosos ocidentais descrevem as dinastias turco-afegãs e suas sucessoras, Mughals, como o período de regência muçulmana na Índia. Outro grupo de acadêmicos discorda. Para estes, a comunidade muçulmana não exerceu poder, tendo, na verdade, o compartilhado com lideranças comunitárias locais.

O segundo debate diz respeito à teoria de que haveria duas “nações” na Índia, após a chegada do Islã àquele país. Este ponto de vista justificaria a divisão atual do subcontinente, com a criação do Paquistão.

Os que se opõem a tal interpretação assinalam que o sentimento de nacionalidade surgiu, na Índia, apenas em meados do século XIX. Havia uma elite muçulmana, naquela época, mas o país fora governado pelos ingleses.

Tais considerações podem parecer obscuras, mas conduzem ao âmago da questão da identidade indiana, na medida em que colocam o país em condição de absorver influências externas, sem perder seu sentido de identidade.

Caberia, assim, comparar as posturas chinesa e indiana, no processo de absorção de influências ocidentais, a partir do início do século XVIII, para que se chegue a critérios sobre as aspirações atuais dos dois países. A observação desses fenômenos permitiria, também, pensar em espaço próprio de ascensão brasileira com parceiros regionais de passado compartilhado.

No que diz respeito à China, estes aportes do exterior ocorreram quando sua civilização e sistema de governança estavam enfraquecidos. Naquele país, as pressões exercidas de fora, portanto, foram mais traumáticas do que na Índia.

No caso chinês, houve evolução no sentido a uma forma de governança autoritária e forte identidade cultural, que se fundiram durante a fase maoísta, vindo a reformar-se e tornar-se vitoriosa com a chegada ao poder de Deng Xiaoping. Na Índia, as influências externas levaram a tolerância quanto à diversidade cultural e a uma democracia eleitoral vigorosa.

Verifica-se, assim, que há esforços de mistificação para explicar, com a utilização de aves simbólicas, suas revoadas e evocações a diferentes tipos de elites, o ressurgimento recente da importância e influência de civilizações antigas, como a chinesa e a indiana — hoje, por exemplo, capazes de produzir tão desejadas vacinas. Todo esse esforço buscaria explicar a padronização de aspirações de povos distintos, como resultado da globalização.

Na prática, verifica-se que a criação de uma economia global e o fortalecimento de novas tecnologias não erodiram culturas e valores locais, no chamado continente asiático. Pelo contrário, na medida em que as pessoas tiveram acesso a maior informação e educação, suas diferenças culturais se tornaram mais pronunciadas — não menos. Nesse processo, diferentes grupos demonstraram perseguir visões distintas de projeto nacional, assim como reagiram contra ameaças a sua identidade cultural.

Enquanto isso, ao papagaio verde e amarelo do Brasil, restaria consolidar formas de interlocução com tais sociedades — ou ninhadas — multiculturais, multilíngues e multiquasetudo, consolidando heranças e posturas comuns, sem preocupação com rótulos e símbolos criados no Ocidente.

Afinal, no começo, nossa inserção internacional deu-se com a busca da “Rota das Índias” e, por influência portuguesa, costumes, crenças e saberes de origem chinesa foram introduzidos, logo no início de nossa História, na maneira brasileira de ser. No momento, poderíamos nos contentar apenas com sermos parceiros menores de tais civilizações.

Nessa perspectiva, nossa ave típica deveria procurar sua identidade cultural compartilhada no próprio entorno geográfico, inclusive através do Atlântico, e buscar oportunidades de consolidação de alianças para a emergência regional, incluindo ambas as margens do oceano, em cenário mundial pós-covid 19. Nesse processo, não basta falar em “paz e cooperação” — sempre essenciais. Cabe, também, fortalecer parcerias com pássaros que “aqui gorjeiem como lá”[2], na defesa de “soberania e prosperidade” em espaço geopolítico de visões de mundo compartilhadas.

De retorno ao tema das Olimpíadas em curso, chamou atenção o fato de que, durante uma partida de futebol, jogador brasileiro, ao comemorar um gol, ao invés de levantar as mãos ao céu, como o fazem a maioria de seus companheiros cristãos, imitou o gesto de retirar uma flecha e lançá-la por arco — ambos imaginários. Esclareceu, após, que o fizera em celebração de sua própria Fé, em homenagem a Oxóssi — uma divindade africana, também conhecida como orixá, que representa o conhecimento e as florestas e é identificado pela figura de um homem que tem em suas mãos um arco e flecha, considerado uma espécie de guardião e caçador.

Em conclusão, poderia sugerir que o desafio para a consolidação de nosso espaço de identidade comum siga a lógica do poema de João Cabral de Melo Neto “Tecendo uma Manhã”, segundo o qual “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito e que ele o lance a outro: de um outro galo que apanhe o grito de que um galo antes e o lance a outro; e de que outros galos com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo para que a manhã, desde uma teia tênue se vá tecendo, entre todos os galos.”

Assim, seria necessário que se incluam perspectivas interligadas e interdependentes, mesmo que seja necessário o despacho de flechas de ambas as margens do Atlântico para costurá-las. Este intercâmbio deveria priorizar, evidentemente, países de passado lusófono em comum.

A propósito, ganha um pacote de alpiste, no Brasil, quem saiba dizer qual é a ave típica de Angola.

Notas

[1] Keay, John. “India — A History”.

[2] Canção do Exílio. Gonçalves Dias.

Sobre o autor

Paulo Antônio Pereira Pinto é Embaixador aposentado.

Mundorama

Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais — ISSN 2175–2052

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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