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Rússia e China — “Encantos” do “Projeto Euroasiático” e da “Proposta de Comunidade de Nações”

Paulo Antônio Pereira Pinto

Photo by L B on Unsplash

Rio de Janeiro, 8 de março de 2022.

“Encanto” é a nova animação da Disney, sobre uma extraordinária família Madrigal, situada em região montanhosa na Colômbia. Estas pessoas seriam dotadas de poderes mágicos, que incluiriam a cura de doenças. Não me ficou claro se seriam capazes de promover a paz. De qualquer forma, a referida película, com referências a “soluções mágicas” pode servir de inspiração, no início deste exercício de reflexão sobre propostas russas e chinesas, quando, até recentemente, se pensava que haveria período de convivência pacífica na Eurásia.

No momento em que se vive intensa preocupação mundial com a situação ucraniana, pode ser instrutivo refletir sobre “encantos” enunciados, em Moscou e Pequim, a respeito de esforços compartilhados entre nações, em favor do progresso da humanidade.

Quando, recentemente, foi assinado na capital chinesa, o Comunicado Conjunto da Federação Russa e da República Popular da China sobre as Relações Internacionais em direção a Nova Era e da Sustentabilidade Global do Desenvolvimento, em 4 de fevereiro de 2022, houve esperança de que, pelo menos uma parte do mundo pudesse viver período de “encanto”.

Foi, então, acordado que “ambas as partes estão procurando avançar em seu trabalho de vincular os planos para o desenvolvimento da União Econômica Eurasiana, patrocinada por Moscou e a Iniciativa do Cinturão e Rota das Sedas, de Pequim, com vistas a intensificar a cooperação prática entre os projetos russos e chineses de forma a promover maior integração entre a Ásia-Pacífico e a Eurásia”.

O projeto euroasiático de Putin

Nesse sentido, cabe lembrar que, a visão de futuro apresentada pelos russos, até recentemente, “sugeria” novos vínculos para um espaço pós-soviético, seguindo caminho no sentido de uma “União das Repúblicas do Exterior Próximo”.

A iniciativa de Putin baseia-se em documento publicado em 2008, “Um novo projeto de integração para a Eurásia: o futuro que nasce hoje”. Sugeria, em suma, o “encanto” de algo mais parecido com roteiro de um bem organizado retorno a passado saudoso, do que movimento em direção a novo objetivo.

Isto porque, durante a existência da URSS, Moscou dirigia todos os detalhes da organização político-socioeconômica das Repúblicas Soviéticas. A réplica deste mesmo projeto permeava a descrição da proposta do Presidente da Federação Russa.

Assim, Vladimir Putin retomava, com o conceito da União Eurasiática, a defesa da fusão de mecanismos de integração existentes, com vistas à criação de um polo de poder no mundo contemporâneo e ponto entre a Europa e a região da Ásia e Pacífico.

O líder russo revelava que a meta era chegar a “patamar superior de integração”. Na prática, isso significaria a reconstrução de relações com os países do exterior próximo”, que integravam tanto o Império Russo, quanto à União Soviética.

Lembra-se, contudo, que, durante a existência da URSS, enquanto novas “Repúblicas”, traçadas a partir de Moscou, foram se consolidando, classes dirigentes fortaleceram-se com métodos de governança soviéticos, tais como julgamentos e execuções sumários, e “desaparecimentos”.

Na medida em que estas “modalidades de controle social” iam se incorporando aos hábitos locais, vínculos de cumplicidades congelavam elites que se mantinham no poder, às custas do emprego da violência contra seus próprios nacionais.

Suas causas resultaram da forma desordenada como ocorreu o processo de desintegração da União Soviética. Na medida em que o mecanismo ideológico que a sustentava desapareceu, sobreviveram rivalidades criadas e consolidadas pelo modelo de governança stalinista.

Este privilegiava lideranças das chamadas “repúblicas soviéticas” que, após o desaparecimento da URSS, insistem em defender prerrogativas próprias que lhes foram outorgadas pelo “velho regime”.

Tais privilégios diziam respeito, principalmente, ao conceito de “autodeterminação”, que veio a provocar o surgimento de “repúblicas soviéticas” — etapa intermediária para a consolidação do socialismo — com capacidade de decisões próprias, com o emprego, até mesmo, de forças armadas a sua disposição.

O objetivo final, após aquele período, seria a inserção de todos estes minis governos na moldura de governança maior da então poderosa União Soviética. A etapa posterior ocorreria, com a universalização do poder do proletariado. A dialética marxista garantiria que, com o “desaparecimento da luta de classes”, as referidas repúblicas se dissolveriam, em favor do interesse maior compartilhado por todos, ansiosos por serem conduzidos ao comunismo.

Nessa perspectiva, a origem dos problemas que ainda permanecem nas antigas Repúblicas Soviéticas encontra-se na complexa interpretação stalinista sobre o significado de “nação”.

Em termos reconhecidamente simplificados, é possível entender que, para aquele líder soviético — natural, como se sabe, da Geórgia caucasiana — caberia distinguir nação, de raças, tribos, grupos linguísticos ou pessoas que simplesmente habitassem o mesmo território.

A nação, segundo ele, seria uma comunidade que teria “evoluído historicamente e se tornado estável”. Tal conceito poderia ser definido em termos de uma cultura comum, a incluir “idioma, território, vida econômica e características psicológicas semelhantes”.

Coerente com o raciocínio do “materialismo histórico”, Stalin identificaria, como contradição principal, o surgimento do nacionalismo, principalmente, como resposta à opressão por algum outro grupo social. Isto é, a consciência nacional — da mesma forma que a de classe — surgiria em função da circunstância de que uma comunidade nacional se encontrasse subordinada a outra.

A diferença entre o conceito stalinista de nação e o pensamento “burguês” sobre o tema seria, que, para este “o nacionalismo seria o caminho para a guerra e o imperialismo”. Para os seguidores do líder soviético, no entanto, apenas um sistema político, que permitisse a nações exprimirem seu desejo de autodeterminação, evitaria conflitos e eliminaria a burguesia do poder. Tal autodeterminação, contudo, deveria ser claramente percebida como sendo “em benefício dos interesses do proletariado”.

Dessa forma, por exemplo, não seria permitido a líderes religiosos reivindicarem autodeterminação de uma área, apenas para satisfazer anseios de muçulmanos ou cristãos. “Os interesses dos trabalhadores, como um todo, deveriam ser levados em conta, para obter o benefício em questão.”

Na medida em que novas classes dirigentes foram se consolidando nessas “Repúblicas”, métodos de governança soviéticos vieram a ser adotados, tais como julgamentos e execuções sumários, e “desaparecimentos”.

Enquanto estas “modalidades de controle social” iam se incorporando aos hábitos locais, vínculos de cumplicidades fortaleciam as elites que se mantinham no poder, às custas do emprego da violência contra seus próprios nacionais.

Seria a conveniência da promessa de estabilidade — cabe ressaltar — oferecida pela proposta de Putin que agradaria autoridades destas ex-Repúblicas Soviéticas. Afinal acena-se com um “patamar superior de integração” com a reconstrução das relações com os países do “exterior próximo”, que integravam o Império Russo e a URSS.

O “encanto” deste projeto vem sendo diluído, há menos de um mês, pelas “intervenções” russas na Ucrânia. Mas, cabe não esquecer quais eram os objetivos construtivos originais de Moscou, no sentido de projetar imagem positiva da Rússia.

A comunidade de nações com destino comum

No que diz respeito ao “encanto” chinês, exposto por ocasião de discursos recentes, o Presidente Xi Jinping tem afirmado o compromisso da China com a construção de paz duradoura.

O conceito da “comunidade de destino da humanidade”, que Xi já havia proposto, articularia a experiência chinesa de convívio pacífico e solução negociada dos conflitos com sua própria concepção de cooperação econômica.

Em seus pronunciamentos, Xi ressalta que “a China, nação com mais de cinco mil anos de história, enfrentou conflitos diversos ao longo dos tempos. A pacificação do Império só foi possível pelo estabelecimento de acordos entre a China e os povos que conviviam no mesmo território. Como resultado, hoje convivem, na China, mais de 50 etnias, 24 idiomas e cinco sistemas de escrita. Há ainda templos budistas, igrejas cristãs e mesquitas por todo o território.”

Ainda segundo o dirigente da RPC, “essa experiência aplicou-se também no nosso tempo, especialmente na questão dos territórios de Hong Kong e Taiwan, onde funcionam sistemas diferentes do restante do país, mas mantém-se a unidade nacional por meio de negociações”.

“A fórmula “um país, dois sistemas”, vem permitindo o convívio pacífico apesar das diferenças e de alguns retrocessos, como a atual hostilidade da presidenta de Taiwan, eleita pelo Partido Progressista. É certo que a parte continental da China teria meios suficientes para submeter as ilhas pela força. Mas essa via não é do interesse do Estado chinês, que mantém o entendimento de que a ação militar é sempre a pior solução.”

A economia tem papel destacado no conceito de comunidade de destino da humanidade: ao contrário dos países imperialistas (uma vez que a China sofreu, no século 19 e primeiras décadas do século 20, com a ação imperialista de europeus, japoneses e estadunidenses, que invadiram e dividiram seu território para explorar seu povo), que impõem seus termos para o comércio entre as nações, o gigante asiático propõe a cooperação econômica de tipo ganha-ganha com os países em desenvolvimento.

No momento, a China aparenta estar expandindo seus interesses por acesso a recursos naturais e a novos mercados, ao Pacífico Ocidental, ao redor da periferia dos países do Sudeste Asiático, e ao Sul da Ásia, bem como em direção à Ásia Central e crescentemente sobre o continente eurasiano.

Com respeito ao relacionamento da RPC com o Sudeste Asiático, Pequim formula discurso com o realce de laços históricos que têm sido capazes de garantir a inserção internacional chinesa atual em universo de influência cultural do antigo “Império do Centro”. Procura, então, dar versão benigna às viagens do Almirante Zheng He, ocorridas há 600 anos, aos mares austrais do continente asiático.

Quanto à Ásia Central e Eurásia, registram-se formulações quanto ao ressurgimento de uma Nova Rota das Sedas. Assim, a China está empenhada na frenética construção de ferrovias, estradas e dutos para a importação de recursos energéticos, através da Eurásia. Tais vias de transporte substituirão as caravanas de camelos da antiga Rota das Sedas. Da mesma forma, a moderna Marinha da RPC substitui a frota de Zheng He, nas costas da África e do Mediterrâneo.

O objetivo é estabelecer um fluxo de livre comércio e futura integração internacional de mercados. Com essa iniciativa, a China almeja novas oportunidades de comércio, estabelecendo “network” de integração e cooperação (“conectividade” para empregar o termo preferido de seu governo atual) com vários países que se dispuserem a participar.

Assim, se materializaria a “iniciativa de um cinturão e uma rota”, lançada por Pequim, em 2013, ambicionando a modernização da massa terrestre eurasiana, onde vive (incluindo chineses e indianos) cerca de sessenta por cento da população mundial. Ademais, tendo em vista a fragilidade do sistema de poder internacional vigente o projeto de “Belt and Road” poderia indicar um novo ordenamento nas relações entre os países a serem incluídos.

Os dirigentes chineses pretendem, de qualquer forma, resgatar as referidas expedições marítimas históricas como registro de suas “intenções pacíficas” e exemplo da permanente busca de “harmonia” — em oposição a “hegemonia” — nas relações da China com seus vizinhos ao sul de suas fronteiras. O Partido Comunista Chinês (PCC), portanto, se esforça, tanto no plano interno, quanto no das relações com o exterior, no sentido do convencimento de que, em todos os momentos de emergência do país — há 600 anos, como agora — a China pode ser forte, sem representar ameaça regional ou mundial.

Verifica-se, ainda, certa inquietação quanto à outra proposta chinesa. A de criação de uma nova Rota das Sedas, como um projeto estratégico que visa a transformar a Ásia Central de sua condição atual de “land locked” (sem acesso ao mar) em “land-linked” (com ligação terrestre) proporcionando, assim, acesso a mercados e portos no Oceano Índico, Golfo Pérsico e Oceano Atlântico.

Resta torcer para que a Disney não se inclua entre os que aplicam sanções à Rússia, para que seu filme lá seja exibido. Ademais, cabe esperar que película seja exibida, sem censura, na China. O “encanto” das premissas originais de cada proposta construtiva mencionada acima dependeria, assim, da conclusão dos objetivos imperiais de Moscou e da perseverança do desejo de estabilidade de Pequim.

Sobre o autor

Paulo Antônio Pereira Pinto é Embaixador aposentado.

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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