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Rússia e Ucrânia: a hora da diplomacia das grandes potências

Virgílio Caixeta Arraes

Photo by Jan Reinicke on Unsplash

Em duas semanas de conflito entre Rússia, invasora, e Ucrânia, há o registro — até este momento — impreciso da quantidade de mortos, quer civis, em especial do lado ucraniano; quer militares, em essência do russo. De toda maneira, estimam-se os falecidos em milhares.

Adicione-se a isso outro tanto de feridos, soma a crescer nos próximos dias, à medida que o deslocamento agressor se intensificar nas cidades principais do país atacado. Prisioneiros militares ainda são incertos nas estatísticas de feitio provisório.

O número de deslocados, consoante meios internacionais de comunicação de maior audiência, situa-se acima do milhão, ao pressionar nações fronteiriças — como Polônia, Eslováquia e Romênia — a envolver-se na confrontação em função do necessário auxílio humanitário a quem conseguir chegar a seus territórios.

Até agora, representantes de Moscou e de Quíeve/Kiev têm-se sentado à mesa sem máscaras, em solo belarusso. Ao cabo de duas rodadas, não existe acordo, mesmo provisional, no tocante a um cessar-fogo, embora tenha havido concordância quanto ao estabelecimento de vias humanitárias para o trânsito seguro de civis.

Nas tratativas, a diplomacia russa almeja da contraparte ucraniana o reconhecimento de nova configuração territorial na região, ou seja, o aceite da perda definitiva da Crimeia, reconquistada em 2014, de Donetsk e de Lugansk. Concernente ao encaminhamento destas duas áreas, a princípio, elas seriam autônomas, com a aquisição de status de zona tampão, na prática.

No aspecto marcial, a relativa lentidão no avanço dos contingentes moscovitas em jurisdição adversária decorre em primeiro lugar da resistência natural das tropas quievitas, em cuja base compartilham-se com as do rival fundamentos na formação e no treinamento das forças armadas — acima de meio milhão de efetivos à época soviéticos estiveram na Guerra do Afeganistão (1979–1989), de modo que parcela do generalato de ambos os países tenha combatido lá como oficiais de patentes iniciantes.

Outrossim, integra a disputa psicológica por parte da Rússia o indefinido estacionamento dos maciços contingentes com equipagem de última geração à beira de cidades importantes como a própria capital.

Com isso, a população civil fica à mercê de duas vontades dirigentes, sem ter a condição apropriada de identificar qual no momento seria a mais balizadora de seu destino imediato: a do seu governo, desgastado pelo parcial isolamento geográfico, ou a do estrangeiro, agastado com o denodo do povo assaltado.

Nesse entretempo, chama a atenção a falta de capacidade ou de habilidade diplomática da União Europeia (UE), França e Alemanha, em especial, dos Estados Unidos (EUA) e dos BRICS, por ser a Rússia um dos cinco componentes, de concertar um entendimento provisório ao menos. Isto sem esquecer-se do papel da China ou da Grã-Bretanha (GB).

A correta reprovação do comportamento de Moscou no Conselho de Segurança (CS), por larga maioria, e na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) por mais de uma centena de países é importante, sem dúvida, porém insatisfatória, ao ter em vista a insensibilidade do Kremlin mesmo diante da ampla convergência política de repúdio ao ataque.

Saliente-se que três dúzias de representações se abstiveram de condenar o procedimento agressor, conjunto em torno da qual o Brasil não se dispôs a integrar, malgrado as primeiras declarações do presidente da República.

Se ocorre, portanto, divergência no proscênio onusiano devido à quantidade de governos envolvidos, por conta da multiplicidade de interesses econômicos e políticos, e à disparidade de poderio real entre eles, reduzam-se os participantes às principais potências, haja vista a imperiosa conveniência de terminar a violência castrense em andamento.

Do terço de maior lustro do Conselho de Segurança das Nações Unidas, os chamados P-5, há a cisão — espera-se temporária — entre Rússia e China, de uma face, e Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, de outra.

Vez que esta trindade bélica constitui também o cerne da Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN), sem desmerecer a associação da Turquia e da Alemanha, por exemplo, a negociação seria menos tortuosa, dado que a filiação da Ucrânia à entidade militar é um dos pontos centrais de discórdia entre Moscou e Kiev.

A opção das grandes potências dissonantes tem sido a de valer-se da economia para efetuar a sua moda o cerco ao Kremlin: exclusão do sistema bancário; investigação dos bilionários, alcunhados de oligarcas, residentes no arco norte-atlântico; encerramento de filiais em território russo e quiçá belarusso de multinacionais dos segmentos de energia, entretenimento, vestuário, alimentação etc, e exclusão de seus nacionais de atividades esportivas, sociais e culturais globais.

O impacto negativo não será espraiado de imediato porque a Rússia preparou-se para as eventuais retaliações, de sorte que possa absorvê-lo por período ainda incerto. Como contraponto, poderia haver a interrupção do fornecimento de gás, ainda que temporariamente, ao continente europeu.

Desdobramento involuntário da extensão da peleja seria o aumento do preço do barril do petróleo, com consequências mundiais deletérias em uma fase de continuidade da pandemia do vírus corona e, por conseguinte, de recuperação econômica ainda instável.

Preocupante também é o interesse das forças armadas moscovitas de capturar locais nos quais existam unidades nucleares de porte como em Energodar, onde se situa a usina de Zaporizhia, a maior da Europa, e Chernóbil, desativada desde o terrível acidente de 1986 por ter ocasionado ela catástrofe ambiental sem precedentes.

Se Moscou rufa os tambores com vigor, Bruxelas, quer como União Europeia, quer como Organização do Tratado do Atlântico Norte, deveria adotar postura distinta, isto é, a da distensão. Assim sendo, circular com cautela entre os envolvidos, vez que o objetivo é interromper as hostilidades, não as estimular, e, destarte, preservar vidas.

O ato afrontante da Rússia ao direito internacional é inegável; a resposta a ele não deveria ser o de arriscar a dilatação de tensão, ao permitir a admissão no presente tempo às fileiras otonianas da Finlândia ou da Suécia.

Não é a conduta diplomática apropriada da vez, por proporcionar ao Kremlin a justificativa para manter a constância militar. O avanço de um lado não pode ser contestado com o adiantamento do outro; a hora é a de invocar o recuo recíproco sob acompanhamento regional ou multilateral: retirada da Rússia da Ucrânia em troca da renúncia de figurar esta no quadro da OTAN.

Sobre o autor

Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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