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Rússia e Ucrânia: o anseio de reconquista territorial

Virgílio Caixeta Arraes

Photo by Jan Reinicke on Unsplash

Se se pudesse retornar a 1822, poder-se-ia registrar a desenvoltura de grandes potências na Europa como Grã-Bretanha, ascendente por causa da estruturação industrial e financeira, França, em recuperação após o intenso onírico período napoleônico, Prússia, cuja atribuição de comando havia sido ironizada ora por Mirabeau, ora por Voltaire a depender do autor sobre sua característica belicista, Áustria, declinante malgrado seu duradouro equilíbrio multinacional.

Por fim, Rússia cuja vastidão territorial não equivalia de igual forma a poderio político, fosse devido a sua desconfiança com relação aos acima mencionados, causadora eventual de isolamento diplomático. Aos cinco países, acrescentar-se-ia de maneira ocasional a Espanha e a Turquia no concerto do continente.

Com a volta ao presente, já não se observa Viena como ator significativo nem sequer no proscênio regional. Berlim, contida de modo militar depois do longo pesadelo da Segunda Guerra Mundial (1939–1945), influencia a economia global e procura firmar-se pela diplomacia; Londres e Paris figuram em papeis importantes, ainda que a primeira próxima demais, por vezes, de Washington. Com exceção britânica, as três unem-se em torno do original arranjo da União Europeia (UE).

Por derradeiro, Moscou, apesar de percalços como modificações expressivas de regimes políticos ou de dificuldades de delinear de maneira duradoura suas fronteiras, manteve-se como a única a ombrear com a potência em voga nas últimas décadas, embora de forma desfavorável na apresentação ao sistema internacional — ‘mundo livre’ versus totalitarismo ou democracia contras ditadura ou capitalismo em oposição ao comunismo.

Com a incomum derrocada da União Soviética (URSS), o status de democracia do país pouco avançou, não obstante o acolhimento irrestrito das recomendações sobre economia do Ocidente ao tempo de Boris Yeltsin (1991–1999).

Na atabalhoada administração de quase um decênio deste dirigente, tratada de modo condescendente pelos vencedores da Guerra Fria em função da justificativa de transição do comunismo malogrado para neoliberalismo temerário, houve encolhimento considerável do território russo se cotejado com o da época soviética. O universalismo comunista teria abafado antigas aspirações nacionalistas, não as eliminado.

Com a incapacidade do Kremlin de prover o bem estar adequado à população, a insatisfação econômica somar-se-ia ao anseio de autonomia, ainda mais em repúblicas com condições de desenvolver-se de forma acelerada em decorrência da fartura de recursos naturais, de mão de obra relativamente qualificada e da amplitude do parque industrial, mesmo em estado de obsolescência, como era o caso de Kiev.

O ingresso de Vladimir Putin no governo moscovita como primeiro-ministro e depois como presidente interrompe a marcha aparentemente inexorável da acelerada decomposição territorial, ao utilizar-se da utilização da força, não da negociação — a Chechênia seria o exemplo do padrão a ser aplicado pela gestão recém-chegada.

Nos últimos dias, os meios de comunicação divulgaram informação concernente a ocasionais desejos neoimperiais de Putin, ao ter ele evocado o soberano Pedro I (1682–1725), em cujo reinado se edificou São Petersburgo — após a conquista da área junto à Suécia depois de anos de escaramuças — capital a datar de então por cerca de dois séculos da pátria.

De maneira oficial, o nome homenageava expressiva figura religiosa, Pedro, o primeiro pontífice, não o próprio imperador; seria alterada sua designação logo após o emergir da Revolução Soviética para Leningrado em alusão ao líder do processo de transformação, Vladimir Lênin. Hoje, desfruta a cidade de novo do nome da época monárquica.

De acordo com o mandatário moscovita, seu remoto antecessor não teria tomado aquele torrão, porém tão só recuperado, haja vista a localidade ser residência antiquíssima de eslavos e fineses, povos constituintes da nação russa.

Apesar de as demais monarquias não reconhecerem a incorporação da dinastia Romanov naquela fase, o monarca manteria sem hesitação seu posicionamento e firmaria, portanto, a anexação. Destarte, seria lição a ser lembrada e adotada na contemporaneidade.

Assim, eis uma possível justificativa para ação castrense de Moscou — a ideia de recomposição da pátria russa. À medida que o tempo passa, a tática do lado invasor se ajusta. De início, o presidente Volodymyr Zelensky, a par da avaliação de impopularidade, era considerado fantoche, em consequência, entre outros motivos, da inexperiência política.

Defenestrá-lo do cargo e encaminhar sua substituição de modo provisório por civil ou até militar estaria nas formulações do Kremlin quando do envio das tropas no final de fevereiro; no entanto, o denodo do mandatário ucraniano surpreenderia o mundo e proporcionaria para si o papel de comandante-chefe, de sorte que potências ocidentais têm direcionado ao governo variado auxílio — de treinamento a armamento pesado.

Com a inesperada reação da nação invadida, o projeto acalentado de absorção integral seria interrompido — o questionamento inquietante é qual parcela das terras da Ucrânia a Rússia irá ajuntar ao seu, mesmo de forma indireta, ao estabelecer países tampões como Donetsk e Lugansk.

No ponto no qual a confrontação se situa, quatro meses de ocupação parcial, não parece crível o recuo total dos contingentes atacantes. Outrossim, saliente-se que a Crimeia nem constaria na especulação, por já ser estimada russa, na prática.

Além de novo delineio do território ucraniano, quer por incorporação ao vizinho, quer por desmembramento, ao gerar duas pequenas pátrias, Moscou deve exigir a ampla desmilitarização de Kiev, hipótese menos provável de aceitação, ao ter em foco sua própria sobrevivência no médio prazo e ao atemorizar nações como Polônia, Lituânia, Finlândia, entre outras, cuja proximidade histórica e geográfica com a Rússia é inegável.

O argumento de que a área usurpada comporia a região do agressor não é reconhecida também pela maioria da Europa e pelos Estados Unidos. Se, por um lado, Moscou poderia promover plebiscitos nas duas repúblicas referente a seus destinos para fundamentar a separação física junto a Kiev, para o restante do país ele jamais organizaria processo similar, de maneira que, caso isto ocorresse, seria a genuinidade tácita da independência do povo ucraniano.

A vontade imoderada de influir no continente não é característica só e só de Putin; ela se expressa, por exemplo, com Joseph Stalin nos estertores da Segunda Guerra Mundial ou com Alexandre I (1801–1825) durante o andamento do Congresso de Chatillon (fevereiro a março de 1814), momento em que ele ambicionou a indicar um governante temporário em Paris até a França encerrar sua transição política — dos Bonapartes para os aguardados Bourbons.

Sobre o autor

Virgílio Caixeta Arraes: graduado, mestre e doutor em história pela Universidade de Brasília e pós-doutor em história pela Université de Montréal (Canadá). Professor Associado da Universidade de Brasília.

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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