Resenha do livro “De-dollarization: The revolt against the dollar and the rise of a new financial world order

Editoria Mundorama
Jun 18 · 6 min read

José Paulo Silva Ferreira

Gal Luft é doutor em estudos estratégicos pela Johns Hopkins University e é proeminente nas áreas de geopolítica, segurança energética e relações Estados Unidos — China. Anne Korin é conselheira sênior do United States Energy Security Council, e é doutoranda na Stanford University. Ambos são co-diretores do Institute for the Analysis of Global Security — IAGS (em português, Instituto para Análise da Segurança Global), um think tank sediado em Washington que fomenta o debate público sobre a segurança energética mundial (IAGS, 2021). O livro “De-dollarization: The revolt against the dollar and the rise of a new financial world order” busca mostrar como nos últimos anos tem se formado uma coalizão de atores estatais e não-estatais, que estão insatisfeitos com a atual organização do sistema monetário internacional, e possuem assim pretensões revisionistas que podem ameaçar o status do dólar como moeda-chave das relações econômicas internacionais.

Os autores não se limitam apenas à análise de conjuntura, mas a utilizam para prospectar possíveis cenários para o futuro do dólar, e para sugerir políticas públicas a serem implementadas pelo governo dos Estados Unidos para que a posição estratégica do dólar não seja desbancada. Do ponto de vista conceitual, Luft e Korin (2019) trazem que a preservação do status especial do dólar como moeda de reserva internacional deve ser tratada como uma preocupação de segurança nacional. Segundo os autores, essa tendência a desdolarização tem se fortalecido à medida que os demais países têm criado o entendimento de que os Estados Unidos estariam utilizando medidas econômicas coercitivas, como as sanções, de maneira excessiva (LUFT; KORIN, 2019). Assim, essa coalizão estaria em busca de redesenhar uma ordem monetária internacional menos anacrônica, desafiando o “privilégio exorbitante” norte-americano (EICHENGREEN, 2011).

Na introdução da obra é apresentado que a posição do dólar advém do poderio militar dos Estados Unidos, da centralidade de sua economia, e da projeção de confiança, estabilidade e respeito. A agenda de “América em Primeiro Lugar” do governo Trump juntamente com o recuo em acordos e instituições multilaterais e a fragilização de alianças levaram a dúvidas do compromisso americano em liderar. A substituição do dólar por uma única moeda é improvável, mas, caso venha ocorrer a perda de sua hegemonia, um cenário mais possível é a substituição por uma combinação de outras moedas, sendo algumas flexíveis e outras digitais (LUFT; KORIN, 2019, p. 15–20).

Os autores destacam que nenhum dos países dessa coalizão possui sozinho capacidades de reformar a ordem monetária e financeira, e é pouco provável que a ação conjunta de Estados como a Venezuela e o Irã possa implicar em mudanças de fato, mas dois atores que não podem ser subestimados são a China e a Rússia. Pequim é ainda mais preocupante por ter expandido seu alcance global pelo comércio e pelo financiamento de infraestrutura, e, assim, possui maior capacidade de futuramente compelir seus aliados a utilizar o renminbi em detrimento do dólar (LUFT; KORIN, 2019, p. 24–26).

No Capítulo 1 é disposto que o uso da força tem se tornado extremamente impopular, assim sanções e outras medidas econômicas foram utilizadas cada vez mais nas últimas décadas como forma de exercer pressão, tornando-se a principal solução na execução da política externa americana. O problema é que cerca de um décimo dos países do mundo estão sob sanções dos Estados Unidos. Embora alguns países como a China não estejam inclusos em um programa de sanções, eles são alvos de medidas punitivas como tarifações especificas e embargos, as chamadas “sanções indiretas” (LUFT; KORIN, 2019, p. 30). Como o dólar é propriedade do governo americano, transações feitas nessa meda, ou que passem por bancos americanos, incluindo bancos estrangeiros que possuam licença para operar nos Estados Unidos, estão sob a jurisdição das cortes estadunidenses. O ressentimento de Rússia e China gerado pelas ações norte-americanas de alargamento de sua jurisdição financeira pode levá-los a mobilizar seus parceiros econômicos (LUFT; KORIN, 2019, p. 38).

O Capítulo 2 define e busca compreender as razões de cada país membro dessa coalizão informal contra o dólar. Os países listados são: Rússia, China, Irã, Turquia, Venezuela, Índia e Paquistão. Até mesmo os países europeus são citados como descontentes com o recuo da liderança estadunidense, e sua projeção excessiva de poder financeiro (LUFT; KORIN, 2019, p. 46–59). O Capítulo 3 mostra que o risco real oferecido por Pequim a Washington não seria a liberação em massa dos Títulos de Dívida Pública dos Estados Unidos no mercado global, até porque isso surtiria um efeito negativo na economia chinesa, mas, como a sociedade chinesa está passando por uma transição de uma população que tende a poupar para uma sociedade orientada pelo consumo, haveria menos saldo disponível para financiar a dívida pública estadunidense (LUFT; KORIN, 2019, p. 71). Além do mais, o governo chinês poderá usar seu poder de mercado para promover mudanças estruturais em mecanismos que dão sustentação a posição de centralidade do dólar (LUFT; KORIN, 2019, p. 82).

O Capítulos 4 traz o mercado global de hidrocarbonetos como um dos mecanismos que podem ser alterados por Pequim, o que pode abalar a hegemonia do dólar, resultando na transição do petrodólar para o petroyuan (LUFT; KORIN, 2019, p. 94–95). O Capítulo 5 descreve como os BRICS podem ser centrais no movimento de desdolarização (LUFT; KORIN, 2019, p. 103). O capítulo seguinte chama a atenção para os novos desafios ao dólar que surgem com o desenvolvimento tecnológico, de modo que moedas digitais ou criptomoedas emitidas tanto por bancos centrais ou por agentes não-estatais podem fragilizar o status privilegiado da moeda estadunidense (LUFT; KORIN, 2019, p. 120–123).

O Capítulo 7 aponta que é preciso uma mudança drástica de mentalidade da classe política norte-americana, pois os atuais planos de governo dos Democratas e dos Republicanos poderiam agravar ainda mais o déficit público, gerando estagnação e aumento da inflação (LUFT; KORIN, 2019, p. 143). O último capítulo traz sugestões de políticas econômicas que mitiguem a tendência à desdolarização e permitam que os Estados Unidos gozem do status especial de sua moeda por mais tempo (LUFT; KORIN, 2019, p. 157–159).

O argumento principal do livro é que garantir a posição do dólar como moeda de reserva internacional é um assunto de segurança nacional para os Estados Unidos (LUFT; KORIN, 2019, p. 136). Apesar das críticas ao governo Trump, tanto pelo recuo de liderança, quanto pelo seu regime de sanções, parece haver um entendimento comum nessa agenda, à medida que a doutrina Trump foi pautada no lema “segurança econômica é segurança nacional” (NAVARRO, 2018).

A análise de Luft e Korin (2019) tem se mostrado bastante precisa e atual. Mesmo que o livro tenha sido publicado pouco antes do início da pandemia do Covid-19, é mencionado que eventos catastróficos como guerras, desastres naturais, ou uma pandemia poderiam levar o aprofundamento do déficit público norte-americano, e acelerar a tendência de desdolarização (LUFT; KORIN, 2019, p. 25). A prospecção se mostrou correta: a exemplo dessa aceleração está o lançamento da moeda digital chinesa no primeiro semestre de 2021, que significa mais um esforço de projeção do renminbi e de destronar o dólar (HASENSTAB, 2021).

A obra é uma ferramenta útil de constatação de que o dólar não é tão invulnerável quanto parece ser, e que os Estados Unidos precisarão reajustar seu comportamento para sustentar a posição privilegiada de sua moeda. Essa necessidade de reajuste não significa o fim da Pax Americana, mas que há uma janela de oportunidade para os governantes norte-americanos promoverem mudanças estruturais, e, caso a percam, a ordem monetário internacional atual poderá ser contestada.

Referências:

EICHENGREEN, Barry. Privilégio exorbitante: a ascensão e a queda do dólar e o futuro do sistema monetário internacional. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.

HASENSTAB, Michael. “China’s digital currency is a threat to dollar dominance”. Financial Times, 14 abr. 2021. Disponível em: https://www.ft.com/content/3fe905e7-8b9b-4782-bf2d-fc4f45496915. Acesso em: 18 jun. 2021.

Institute for the Analysis of Global Security: About us. IAGS, 2021. Disponível em: http://www.iags.org/staff.htm. Acesso em: 18 jun. 2021.

LUFT, Gal; KORIN, Anne. De-dollarization: The revolt against the dollar and the rise of a new financial world order. Washington: Institute for the Analysis of Global Security, 2019.

NAVARRO, Peter. 2018. “Why Economic Security Is National Security”. Disponível em: https://trumpwhitehouse.archives.gov/articles/economic-security-national-security/?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=wh. Acesso em: 18 jun. 2021.

Sobre o livro:

LUFT, Gal; KORIN, Anne. De-dollarization: The revolt against the dollar and the rise of a new financial world order. Washington: Institute for the Analysis of Global Security, 2019.

Sobre o autor

José Paulo Silva Ferreira é Graduando em Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás (UFG) e bolsista de iniciação científica do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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