“Sawabona”: conversas com Desmond Tutu.

Editoria Mundorama
Dec 29, 2021 · 9 min read

Paulo Antônio Pereira Pinto

Fonte: Getty Image

“Sawabona” quer dizer: “eu te respeito, eu te valorizo[i]”.

É uma das palavras mais bonitas que conheço. Em zulu, é uma forma de cumprimento. No período em que servi em Pretória, como chefe interino da Embaixada do Brasil, entre 1979 e 1982, tentei aprender essa língua local, pois, naquelas cansativas recepções diplomáticas, sempre me perguntavam se eu estava estudando africâner — idioma de origem holandesa e um dos dois oficiais da África do Sul, além do inglês.

Respondia sempre que naquela língua não havia feito progresso algum, mas que, em zulu, “estava indo muito bem” (mentia, pois nunca consegui pronunciar os click sounds — sons que é necessário emitir da garganta). Após ter servido em duas outras capitais africanas — Libreville, Gabão, entre 1975 e 77, e Maputo, Moçambique, 77 e 79 –, já com três filhos pequenos, minha mulher e eu tivemos necessidade de ir para um posto onde não houvesse carência de alimentos nem de assistência médica, enquanto, segundo meu projeto pessoal — razão de ter ingressado na carreira diplomática — despertasse interesse político.

Como não havia alguém, em situação hierárquica superior à minha, interessado em Pretória, tive o pleito aprovado pelo Itamaraty. Como Segundo Secretário, permaneci, então, por três anos e meio, como Encarregado de Negócios da missão diplomática. Isso porque o Brasil continuava a manter relações oficiais com a África do Sul. Mas não designava Embaixador para aquele país, como protesto contra suas políticas racistas.

Como realces de minha gestão do posto, ressalto: a pronta contratação de uma secretária negra, chamada Vitória, algo proibido pelo apartheid; contatos com lideranças africanas internas contrárias ao sistema; distanciamento de autoridades do regime; e relatórios seguidos com análises sobre a evolução política local, na Namíbia (então sob administração ilegal da África do Sul) e na antiga Rodésia (hoje Zimbábue), com ênfase no entendimento de que, na África Austral, se lutava contra prerrogativas raciais dos brancos e a favor da redistribuição de terras produtivas à população africana.

Cabe ressaltar que, naquele período, como se sabe, estava em vigor a Guerra Fria. Nesse confronto, países ocidentais incluíam a África do Sul como aliada na luta contra a “expansão comunista”, por todas as regiões do mundo.

A contratação de Vitória foi, além de um êxito para o funcionamento do posto, a formação de uma aliada na minha postura de protesto contra o apartheid, considerando que a função de secretária, entre outras, era reservada apenas para brancos. A colocação de uma africana na recepção da Embaixada do Brasil em Pretória era, a meu ver, um primeiro recado aos solicitantes de vistos, no sentido de que, se quisessem viajar a nosso país, deveriam ir se acostumando a receber instruções de negros, já em nossa representação diplomática.

Ela era de dedicação incrível. Com maior orgulho, certa feita, assisti a seu trabalho, quando, ao fazer a um solicitante o pedido de documentação para a emissão de visto de turista, usou o termo “nosso governo” para informar sobre a exigência disso e daquilo. Estava, literalmente, vestindo a camisa amarela, sentindo-se brasileiríssima para tratar os brancos de seu país com cordialidade, mas firmeza. Em troca, sem que eu entendesse, em africâner, os postulantes locais lhe endereçavam palavras racistas, insistindo que aquela não era uma função de “non white”.

Tive minha sala invadida três vezes por insatisfeitos que não admitiam ser recebidos por “uma negra”. Uma vez, vendo que ela chorava, após ter recebido tratamento agressivo de um africâner, perdi a calma e expulsei pessoalmente o enorme indivíduo do recinto.

Além de cumprir suas funções de secretaria, recepção e representação, Vitória também me auxiliava nos contatos com lideranças africanas moderadas no interior da África do Sul. Assim, com seu auxílio, visitei, por duas vezes, em Soweto — bairro negro próximo a Johanesburgo — o Dr. Ntatho Motlana, médico e empresário reconhecido como líder opositor ao regime racista e membro do Soweto Committe of Ten.

Era sempre operação complexa, que implicava ser acompanhado por seguranças da própria área, pois, sendo eu branco, poderia ser atacado por grupos negros radicais residentes. Escrevo branco, pois, quando servia em Moçambique por vezes cruzava a fronteira com a África do Sul para fazer compras de alimentos e remédios na cidade de Nelspruit, ao norte daquele país e a cerca de 200 km de Maputo.

Na primeira visita, ao procurar registro em hotel — éramos três, minha mulher, um afrodescendente funcionário brasileiro da Embaixada, e eu –, tivemos o acesso negado, por sermos identificados como “indianos”, “grupo étnico” também discriminado pelo apartheid.

A propósito, cabe lembrar que, de acordo com aquele regime, meios de transporte, bancos de parques, banheiros públicos, hotéis, restaurantes e outras utilidades eram expressamente classificadas para o acesso de brancos, mestiços — incluindo indianos e malaios — ou negros (whites only, coloureds or blacks). A terrível experiência que foi ter sentido, na pele, o desprezo de ser discriminado — devo confessar — foi um dos estímulos para que eu solicitasse minha transferência para a África do Sul após o término da missão em Moçambique.

Isso porque, caso na condição de chefe interino da embaixada, fôssemos discriminados novamente — apesar de minha mulher e eu termos olhos claros — poderia criar um incidente diplomático, diante de eventual proibição de acesso nosso a qualquer lugar.

Assim, após ter assumido o cargo no novo posto, tive que comparecer três vezes à cerimônia de abertura do parlamento sul-africano, na Cidade do Cabo. Antes do evento, costumava adquirir um bronzeado de sol, a título de provocação, na esperança de voltar a ser discriminado. De nada adiantou. O máximo que consegui foi, uma vez, vergando o “traje de gala, com casaca” — tipo “roupa de maestro, com gravata-borboleta branca” — exigido para a ocasião, enquanto aguardava o carro oficial, em frente do hotel, alguém me deu uma gorjeta — pensando, possivelmente, que, por causa do traje, eu fosse um dos porteiros.

De qualquer forma, voltando às entrevistas com o Dr. Motlana, meu objetivo era o de estabelecer interlocução com uma liderança africana que se dedicava ao que hoje se poderia chamar de empreendorismo, na formação de empresários entre a maioria negra. Com efeito, após o término do apartheid, em 1994, soube que ele realmente assumiu função de comando na área de economia privada, a partir de então livre da segregação.

Também graças à intermediação de Vitória, consegui estabelecer diálogo com o Bispo anglicano Desmond Tutu, liderança negra moderada, que, em 1984, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, por seu combate ao apartheid. Fui o primeiro diplomata estrangeiro em Pretória a convidá-lo para jantar em minha residência. Vale lembrar que negros não podiam deslocar-se, à noite, a bairros reservados a brancos. Foi necessário, portanto, toda uma preparação junto a autoridades locais, levando-se em conta que a Embaixada é “território estrangeiro”, devido a imunidades diplomáticas.

Mantinha encontros semestrais com Tutu, indo visitá-lo em sua igreja, em Johanesburgo. Era importante, por ouvir dele interpretações sobre a situação interna do país, que, no início da década de 1980, buscava institucionalizar um sistema de bantustões, que significaria retirar a nacionalidade sul-africana dos negros (então estimados ao redor de 15 milhões, para cerca de 6 milhões de brancos) e confiná-los em enclaves, com o pior tipo de terreno para o cultivo de alimentos e criação de gado.

Sobre esses assuntos — visitas a Motlana e Tutu — mantinha o Itamaraty informado. Isto é, insistia na explicação de que, na África Austral, não se tratava de conflito Leste-Oeste. Não havia um mero marxismo cultural que incitasse os negros contra os brancos. Havia, sim, o esforço de manter as prerrogativas raciais dos brancos e de evitar a redistribuição de terras férteis a favor dos africanos. Acabei recebendo instruções para que “evitasse me intrometer nos assuntos internos daquele país”.

A propósito, nas conversas com Tutu, ele se prontificava a dissertar sobre as mazelas da política interna de seu país, mas, com firmeza, me cobrava sobre o que se passava no Brasil, sob o regime militar autoritário. Com lealdade às funções oficiais que exercia, sempre respondi utilizando os “argumentos governamentais” que antecipavam “aberturas graduais, de acordo com calendário a ser decidido pelas autoridades constituídas, etc.”.

Mas, sempre era possível manter o diálogo, sem intransigências incontornáveis — ao contrário do que acontece, hoje, no Brasil, quando pessoas com visões divergentes não conseguem estabelecer uma conversa civilizada.

Quanto a minhas informações sobre a evolução das questões da Namíbia e da Rodésia, contudo, tive leitores mais atentos na área política do Itamaraty. Tendo conhecido, em Maputo, muitos dos assessores diretos de Mugabe, que saiu vencedor nas eleições rodesianas, levando à independência do Zimbábue, apostei, em sucessivas comunicações, que esse líder guerrilheiro assumiria o poder em Harare. Em contrapartida, outros postos — principalmente em Londres e Washington — pregavam que Nkomo, liderança interna de oposição a Ian Smith, então no poder em Salisbury (antiga Harare), que contava com o apoio dos países ocidentais, no contexto da Guerra Fria, seria o vencedor.

Como consequência desse conhecimento adquirido sobre os fatos em questão e pessoas envolvidas, fui agraciado com uma missão ao Zimbábue, recém-independente, em 1980, para preparar a visita do então Chanceler Ramiro Guerreiro, em périplo pela África Austral.

Outra vertente do trabalho na Embaixada em Pretória, sempre com o auxílio da Vitória, era o de negar contatos oficiais e desportivos com a África do Sul. Era prática, então, das autoridades militares apresentarem passaporte comum, sem referência à importância do portador, para que este pudesse aparecer no Brasil em busca de contato com dirigentes nossos. Fui bem-sucedido no esforço de identificar, por exemplo, o Comandante das Forças Armadas sul-africanas, apesar de sua foto, à paisana e, feliz, cumprir as instruções de negar-lhe o visto. Estava ele a caminho do Paraguai, que mantinha Embaixador na África do Sul.

Também com frequência apareciam grupos de jovens que, a partir de diferentes agências de viagens, solicitavam vistos de turista. Na verdade, eram equipes desportivas. Estava em vigor sistema de sanções contra intercâmbio de qualquer esporte com os sul-africanos, em protesto contra a discriminação racial vigente no setor. Negava-se, portanto, com cuidadoso trabalho de seleção dos formulários, a autorização para que viajassem ao Brasil, com pesar por afetar os sonhos de tantos jovens.

Durante os três anos em que servi em Pretória, minha vida familiar era afetada pelo sistema do apartheid. Descobri, por exemplo, que, de acordo com o sistema estabelecido, os empregados — todos negros e moçambicanos — estavam instalados em local separado da residência. Um dia, percebi que havia uma criança trancada no recinto. Tratava-se de um garoto negro, de idade aproximada de meus filhos — menos de seis anos.

De acordo com o regime racista, seria proibida sua permanência em área residencial reservada a brancos. Imediatamente e com severidade, exigi que sua mãe o liberasse do confinamento — havia uns 15 dias que estava escondido por ela — e o deixasse brincar com minhas três crianças, no jardim e dentro de casa. Era uma alegria, a partir de então, assistir a sua felicidade, correndo, andando de bicicleta e falando a mesma língua portuguesa com os novos amigos.

Vizinhos que protestassem ouviam a resposta de que a Embaixada era território estrangeiro e que, no Brasil, brincadeiras infantis não tinham barreiras raciais. Causava surpresa, entre a população branca da capital sul-africana, o fato de que levávamos conosco o menino africano à vacinação das nossas crianças e a passeios a lugares públicos.

Tínhamos, contudo, que respeitar normas locais de que ele não poderia, por exemplo, frequentar lanchonetes reservadas a “whites only”. Nesses locais, não podíamos recorrer ao argumento de que se tratava de “território estrangeiro”.

Sempre preocupado em estabelecer diferenças entre a “multiculturalidade” brasileira e a segregação sul-africana, certa vez, participei de jogo de futebol entre diplomatas estrangeiros e uma equipe de Soweto. Cabe lembrar que, na África do Sul, o principal esporte era o rúgbi, seguido pelo críquete — reservados a brancos. O futebol era apreciado mais pela população africana. Durante a partida, joguei o primeiro tempo entre os diplomatas estrangeiros. No segundo, troquei camisas suadas com um jogador negro e passei para a equipe contrária. Tal gesto foi muito comentado.

Prova de que o racismo não é algo inato, mas adquirido, foi o fato de que, após seu ingresso em colégio sul-africano — segregado só para brancos, naturalmente — um dia, minha filha mais velha referiu-se ao garoto negro — com quem, com naturalidade, se dava tão bem — como “filho da empregada”. Senti que era chegado o momento de pedir transferência para outro país, tendo em vista que, claramente, minha família estava sendo afetada pela propaganda racista do apartheid.

Ah, já ia me esquecendo. No que diz respeito a contatos com dissidentes do regime do apartheid, pedi autorização ao Ministério das Relações Exteriores, em 1981, para visitar um dos maiores opositores, conforme o faziam representantes de outros países em Pretória. Aquele que se encontrava preso em “Robben Island”. Era um tal de Nelson Mandela.

Recebi resposta negativa.

Notas

[i] Vide “Percurso Diplomático Diferenciado pela África”, por Paulo Antônio Pereira Pinto, Editora AGE, 2021.

Sobre o autor

Paulo Antônio Pereira Pinto é Embaixador aposentado. Foi chefe interino da Embaixada do Brasil em Pretória, África do Sul, entre 1979 e 1982.

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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