Soft power e sustentabilidade nas Olimpíadas de Tóquio 2020

Editoria Mundorama
Oct 1 · 5 min read

Alberto Teixeira da Silva

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Resumo: Diante das crises sistêmicas globais, crescem preocupações ambientais e climáticas e ganham força tendências e iniciativas com base no paradigma do desenvolvimento sustentável e na diplomacia do poder brando (soft power), em busca de transições para sociedades mais resilientes e eficientes. As Olimpíadas de Tóquio 2020 já podem ser consideradas um dos eventos mais emblemáticos em termos de sustentabilidade mundial.

Palavras-chave: Olimpíadas de Tóquio; Soft Power; Sustentabilidade.

No calor das disputas decisivas pelo poder global, travadas pelas grandes potências, durante a segunda guerra mundial (1939–1945), o Japão já foi reconhecido como player emblemático, outrora imperialista, dotado de força bélica/militar (hard power) e pragmatismo expansionista. Todavia, as inesquecíveis e dramáticas bombas atômicas jogadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki frearam o ímpeto do sonho japonês de hegemonia na Ásia e um assento estratégico na nova ordem mundial do pós-guerra (SARAIVA, 2008: 186).

A contenção da terra do sol nascente no tabuleiro da geopolítica mundial e da guerra “fez nascer um Japão na paz” (como fala a música de Gilberto Gil e João Donato), que ressurgiu através de investimentos orientados de forma estratégica para a educação, ciência, tecnologia e inovação. Não por acaso, o Japão reinventou-se como uma das economias capitalistas mais pujantes, sob o signo da diplomacia cultural centrada em vários elementos e símbolos, o Cool Japan (OLIVEIRA; MAYARA, 2020), no contexto de produtos da cultura pop japonesa, identificados com a imagem de um Japão criativo e empreendedor (BRITO, 2013: 206). O Japão contemporâneo se mobiliza nos fluxos dos recursos de poder derivado do soft power (poder brando), ou seja, a capacidade de influência e partilha de valores na sociedade global, projetando avanços civilizatórios, que possam ser aceitos e/ou compartilhados por outros países.

Segundo o cientista político norte-americano Joseph Nye, com soft power “um país deve obter os resultados que deseja nas políticas mundiais porque outros países — admirando seus valores, querendo se igualar a seu exemplo, aspirando seu nível de prosperidade e abertura — querem segui-lo” (NYE, 2004, p. 5). Neste sentido, a inserção internacional japonesa em tempos de globalização, na virada do século XX, tem como orientação de política externa a governança pública articulada aos interesses comerciais e empresariais, na perspectiva de influenciar o mundo e suas dinâmicas e agendas de desenvolvimento.

Depois de entraves diplomáticos, adiamentos e certamente prejuízos financeiros, devido à pandemia da Covid-19, que mudaram os rumos do planejamento originalmente concebido; finalmente o Japão entrega em 2021 o que prometeu: os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (sem esquecer a Paraolimpíadas, realizado logo em seguida), com organização exemplar, sofisticação tecnológica e visão antenada aos desafios globais de enfrentamento das mudanças climáticas, causadas principalmente pelos emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), provenientes da queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) e o aumento do desflorestamento, sobretudo na Amazônia brasileira, e outras formas variadas de poluição e contaminação.

Vale considerar que o cenário atual de degradação social e ecológica, com o mix de pobreza, escassez hídrica e perda de biodiversidade, impõe a necessidade de transitar, de forma célere, para as fontes renováveis e as possibilidades de arranjos e experimentos com base na economia circular e mitigação de impactos ambientais. Sem dúvida, a organização das Olimpíadas de Tóquio 2020 abraçou fortemente o compromisso com a sustentabilidade, dando visibilidade midiática e apontando caminhos para as diversas maneiras de aproveitamento inteligente e criativo de resíduos (comumente chamado de “lixo”) e fontes energéticas renováveis. Os resultados foram surpreendentes nos múltiplos espaços e palcos das competições.

Toneladas de dispositivos eletrônicos (smartphones, computadores e outros), adquiridos através de doações da população japonesa, serviram para confeccionar as 5.000 medalhas (ouro, prata e bronze), distribuídas na premiação. Garrafas de plástico recicladas foram utilizadas na fabricação das roupas dos participantes do revezamento da tocha olímpica. Também foi utilizado papelão reciclável nas camas dos atletas (que suportam peso de 200 quilos) da Vila Olímpica.

Todos os pódios foram concebidos com material reciclado e impressos em 3D. As tragédias também foram ressignificadas: algo em torno de 30% do alumínio da tocha olímpica (designer simbolizando a flor de cerejeira) foi procedente de casas temporárias construídas para os desabrigados do terremoto de 2011, em Fukushima. Vale registrar que os meios de transportes utilizados no evento são movidos a base de hidrogênio, à bateria ou fontes híbridas (energias solar, eólica ou marítima).

No conjunto da primorosa macro e micro arquitetura nipônica, detalhes engenhosos e arranjos de eficiência e produtividade, tudo foi pensado de forma integrada e harmoniosa, no sentido de levar uma mensagem de otimismo e esperança à humanidade. O Japão já estabeleceu como objetivo a neutralidade de carbono em 2050, mas é bom lembrar que segue com o dilema dos riscos e possibilidade de desastres nas suas usinas nucleares.

Um marco histórico que define uma época de mutações paradigmáticas e horizontes moldados por uma cultura da paz e prosperidade coletiva. O esporte assume, seguramente, uma dimensão de meritocracia, inclusão social e instrumento de civilidade (DAMATTA, 2021). Enfim, diante das crises sistêmicas contemporâneas, crescem preocupações ambientais e climáticas e ganham força tendências e iniciativas com base no paradigma do desenvolvimento sustentável e na diplomacia do poder brando/suave, em busca de transições para sociedades mais resilientes e eficientes. As Olimpíadas de Tóquio 2020 já podem ser considerados eventos emblemáticos em termos de sustentabilidade mundial.

Tomara que a cultura da sustentabilidade possa avançar no cotidiano das cidades e nas políticas públicas dos países, servindo de aprendizado e permeando ações e atitudes responsáveis de governos, empresas, instituições públicas e cidadãos de todo o planeta. Que a próxima Olimpíada em Paris, prevista para 2024, caminhe nesta direção.

Referências

ARAUJO, Mayara; OLIVEIRA, Alana. “Construindo o amanhã”: Cool Japan como recurso de soft power para a imagem do Japão nas Olimpíadas de 2021. Revista Compolítica, vol. 10 (3). 2020.

BRITO, Quise Gonçalves. Animê como recurso de soft power: comunicação e cultura na situação de globalização. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá, MT, 2013.

DAMATTA, Roberto. Esporte e civilidade. Jornal Estado de São Paulo. Disponível em https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,esporte-e-civilidade,70003806946, acesso em 10/08/2021.

NYE, Joseph. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: Public Affairs, 2004.

SARAIVA, José Flávio Sombra. A agonia européia e a gestação da nova ordem internacional. In: SARAIVA, José Flávio Sombra (Org.) História das relações internacionais contemporâneas: da sociedade internacional do século XIX à era da globalização. São Paulo: Saraiva, 2008.

Sobre o autor

Alberto Teixeira da Silva: Sociólogo (UFPA), doutor em ciências sociais (UNICAMP) e técnico em gestão ambiental da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS). E-mail: alberto.silva@semas.pa.gov.br.

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Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais — ISSN 2175–2052

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Mundorama é uma publicação do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília

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