
É como se você fosse um duende. Seu sonho é ir para o Polo Norte e trabalhar com o Papai Noel. Você nunca se importou se ficaria na sessão de confecção de brinquedos, ou no departamento de checagem de crianças, nem de empacotamento ou cuidados com renas, você simplesmente quer trabalhar com o Papai Noel porque ele é um cara legal e você o admira.
Digamos que você consiga. Você é um duende dedicado e esforçado, entrou para a academia de duendes e passou no teste de seleção. Deu seu suor e sangue para isso porque afinal de contas, é o seu sonho. É o seu futuro em jogo, sua escolha de vida.
E está tudo bem, você se preparou para aperfeiçoar suas técnicas de duende durante sua infância. Tudo parecia até pouco tempo com um sonho que você tinha esperança de se tornar realidade mas ainda não tinha lhe caído a ficha. Mas olha lá, chegou o dia!
E se você chega todo eufórico e animado, todo cheio de pro-atividade e vontade de se empenhar e aprender. Nunca teve experiência com a montagem dos brinquedos, nem a marcenaria da madeira que os compõe, ou como funciona aquela máquina enorme na sala de checagem de crianças bondosas e malvadas, ainda não sabe como dobra o pacote dos brinquedos de forma que fique menos torto, e ainda leva uns coices de rena na hora de escovar, mas ainda assim tem dentro de si aquela vontade de melhorar e de se tornar um grande duende dentro de sua equipe, e — nesse meio tempo você acaba sendo convidado a conhecer o Papai Noel. Será que vai se qualificar para entrar no Polo Norte?
O duende secretário te chama. Ele sabe que é sua primeira experiência e vai te fazer algumas perguntas. Muito bom, muito bom. Você está indo bem. Agora, me diga, por que você quis trabalhar aqui? Bacana. Ah, não se preocupe sobre não ter trabalhado em outros lugares antes, precisamos de duendes como você, que querem aprender.
Qual a sua expectativa? Entrar na sala dele, com certeza. Vê-lo sentado em sua grande e macia poltrona acolchoada, atrás de sua grande mesa de madeira robusta, tomando um delicioso chocolate quente cujo cheiro envolve toda a sala, com um enorme pergaminho cuidadosamente colocado em sua mesa ao lado do recipiente de ouro que contém uma tinta e pena para registrar suas anotações natalinas. E a lareira que se encontra a sua direita então? Aconchegante. Você se sentará em uma das poltronas a frente dela, e ali será igualmente servido por outro duende e comerá cookies enquanto o nobre Papai Noel de alma humilde e bondosa conversa contigo de igual para igual em ar fraternal sobre os afazeres do dia e te mostra as diversas áreas em que precisam de sua presença, e te diz como você poderá ajudar da melhor maneira.

E se eu te disser, meu caro, que ao entrar naquela sala a realidade será um Papai Noel de saia balonê assentado em um mísero banquinho rachado de plástico com um cigarrão na boca. Sua mesa é muito mal e porcamente uma caixa de madeiras com latinhas de cerveja como suporte. Não há lareira. Há uma janela, e uma alpaca. Há um tabuleiro de pôquer com duas ninfas fora de forma — eram para ser três, mas o orçamento foi insuficiente esse mês. O bafo de alho dele envolve toda a sala. O bicho tá gordo porque tem crise de ansiedade e recusa se cuidar, acha que comer fast-food e assistir Netflix vai resolver seus problemas. A “Mamãe Noel”? Tá falando daquela tia de meio cabelo raspado tingido de roxo ali no canto dando um malho na duende secretária? Então, é que a situação tá meio complicada. Como assim você veio estagiar no Polo Norte e não sabe os esquemas de confecção de brinquedos? Mas você não fez academia de duendes? Ah, é a sua primeira experiência? Oh, então você quer “aprender”? Vê se sai da minha sala e se vira, porque isso aqui é o Polo Norte e eu tenho mais o que fazer.

