A mudança das princesas Disney/Pixar

Resumo: Esse trabalho se propõe a analisar a representação do ideal de princesa relacionando-o diretamente ao ideal de mulher e mostrar como este se alterou ao longo das décadas. Além disso, busca expor como as novas princesas do estúdio dialogam com o novo papel social da mulher no século XXI, mas também como ainda legitimam alguns padrões hegemônicos de comportamento e beleza.

A Disney é um poderoso império econômico que arrecada milhões com filmes, produtos associados e personagens, com seus canais de televisão e seus parques de diversões. Em nossa sociedade, as princesas não deixam de ser objetos de consumo, carregadas de ideologias. Afinal, é difícil encontrar uma menina que nunca tenha brincado de princesa. Elas fazem parte do imaginário infantil, com seus longos vestidos, belos castelos e tiaras. Em um mundo onde as mulheres são constantemente expostas a imagens de um ideal de beleza a ser alcançado, as princesas são o primeiro exemplo que meninas querem imitar — um ideal impossível, com sua juventude, cinturas extremamente finas e cabelos sempre impecáveis.

Através das princesas Disney, as crianças, adolescentes e adultas absorvem, desde a infância, a ideia do que é uma mulher ideal, tanto sob o aspecto físico quanto comportamental. As princesas de contos de fadas servem como um referencial de gênero e exemplo de feminilidade. As protagonistas das animações ensinam às meninas desde cedo o que é ser bonita, graciosa e delicada, tendo como contraponto as bruxas, que evidenciam a feiura, a maldade e o comportamento que se deve evitar.

Desde o lançamento do primeiro longa-metragem animado pela Disney, Branca de Neve e os Sete Anões (David Hand,1937), os filmes de princesas encantam gerações. Entretanto, é possível notar grandes mudanças no estereótipo deste tipo de personagem apresentado pelos estúdios de Walt Disney. De doces e ingênuas garotas, sempre à espera do amor verdadeiro para poderem, enfim, encontrar a felicidade, as princesas, hoje, são independentes e buscam seus sonhos — que passam longe de se resumirem a encontrar um “príncipe encantado”.

As primeiras obras da franquia “Disney Princesa” traziam protagonistas femininas frágeis e submissas, idealizando uma mulher pura, dócil e de bom coração, dando ênfase a uma idealização de romance perfeito. Os pontos que se destacam na representação da sociedade são a competitividade feminina, personificada na figura das vilãs, e a passividade das personagens que esperam a salvação através do príncipe. Com a mudança do papel social da mulher, a Disney foi adaptando suas personagens a essa nova realidade, mas não se pode deixar de lado que se trata de uma empresa, e como tal busca o lucro. Para isso, precisa criar filmes que atraiam o público, e por isso, é possível perceber essa mudança no modelo de princesa.

Pensando sobre esses filmes e suas trajetórias, consegui enxergar mudanças e avanços, mas que estão ainda longe de serem totais. As princesas foram se modificando em seu comportamento, nas atitudes, pensamentos e etnias. Através de uma linha do tempo, é possível perceber a mudança dessas personagens:

· Branca de Neve (David Hand, 1937): Protagonista do primeiro clássico da Disney, ela inaugura o ideal de princesa que se mantém há mais de sete décadas: uma mulher bonita, dócil, pura e de bom coração. Ao comer a maçã envenenada, Branca de Neve é traída por sua ingenuidade e derrubada pela competição feminina, a Rainha Má. E as únicas pessoas que têm compaixão por ela e a ajudam são homens, os anões e o caçador que a liberta, ao invés de matá-la. Além disso, a salvação de Branca de Neve está na passividade: ela deve esperar deitada e casta até que o príncipe encantado apareça e resolva o problema.

· Cinderela (Clyde Geronimi, Hamilton Luske e Wilfred Jackson, 1950), também bela, pura, casta e bondosa, é submetida pela madrasta e pelas irmãs a uma rotina de servidão e humilhações — já que a competição e a maldade feminina imperam — , e aceita o sofrimento com doçura. Mais uma vez, a princesa tem uma atitude passiva diante dos problemas, mas desta vez é a Fada Madrinha que traz a salvação, num passe de mágica. Porém, com uma advertência e uma punição para as mulheres que desobedecerem à hora de voltar pra casa. Mulheres de respeito não podem ficar na rua a partir da meia noite. A salvação de sua rotina de humilhações está novamente num homem, ou precisamente, no casamento.

· Aurora, A Bela Adormecida (Les Clark, Eric Larson e Wolfgang Reitherman, 1959): Entre as princesas, é certamente a que tem o papel mais passivo na trama, já que só aparece acordada em menos de 20 minutos de filme. Está sempre preocupada em agir de acordo com o que os outros querem e não reafirma suas próprias opiniões. E claro, é salva por um homem e pelo casamento.

· A Pequena Sereia (Ron Clements e John Musker, 1989): A sereia deseja ter pernas para tentar conquistar o príncipe e não hesita em modificar sua aparência física para estar de acordo com o padrão estético imposto, mesmo que para isso tenha que sacrificar também sua voz, ou seja, sua liberdade de expressão. Desse modo, vai conseguir o que toda mulher deseja, casamento. E novamente, a personagem má da história é uma personagem feminina — a bruxa do mar — e que não atende a nenhum estereótipo de beleza — não é branca, não tem cabelos compridos e é bem gorda. Quando a bruxa do mar lhe diz que ela terá que perder a voz, a sereia lhe pergunta como conseguirá conquistar o príncipe. Ao que a malvada lhe diz: “Você terá sua aparência, seu belo rosto, e não subestime a linguagem do corpo”. E ainda canta uma música para ela que diz (versão dublada brasileira): “O homem abomina tagarelas; garota caladinha ele adora. Se você ficar falando, o dia inteiro fofocando, o homem se zanga, diz adeus e vai embora. Não vai querer jogar conversa fora, que os homens fazem tudo pra evitar. Sabe quem é mais querida? É a garota retraída. E só as bem quietinhas vão casar.” Porém, aqui a princesa mostra algum avanço, ao desafiar o poder patriarcal e sair um pouco da passividade, já que ela toma a iniciativa perante o homem.

Bela, de A Bela e a Fera (Gary Trousdale e Kirk Wise, 1991): A heroína que se apaixona pela Fera e enxerga além de sua aparência monstruosa inova ao esnobar o rapaz mais desejado do povoado e demonstrar seu amor pela literatura. Aliás, no começo, Bela nem pensa em casamento, apenas almeja sair da cidade pequena e progredir. O interessante é que ela é vista na cidade como uma mulher muito estranha. Todos se perguntam por que ela não quer casar e não se interessa por vaidade, apenas por leitura. E é legal também que colocam um personagem masculino bem boçal e machista, mostrando como ele é grotesco. Também foi a primeira vez que a Disney mostrou uma princesa na posição de salvadora do príncipe, e não o contrário, como de costume.

· Jasmine, de Aladdin (John Musker e Ron Clements, 1992): A filha do sultão é uma das princesas mais avançadas em termos de representação da mulher moderna. Rebelde frente ao poder patriarcal e à ordem da realeza, ela desafia a estrutura social ao assumir o amor por um rapaz de classe bem mais baixa. Diferentemente da maioria das princesas, ela tenta fazer seu próprio destino, sem esperar passivamente pela ajuda dos outros. E é também a primeira vez que a heroína não é branca com características européias.

· Pocahontas (Mike Gabriel e Eric Goldberg, 1995): Ela é também um marco da visão mais feminista nos desenhos Disney. Desafia o poder patriarcal, não aceita o noivo que o pai lhe impõe, não pensa em casamento, e também não é passiva. Ela é quem toma a iniciativa e beija um homem, sem pensar em casamento. No final, é ela quem salva o homem e toda a sua tribo e ainda discursa com propriedade e sabedoria.

· Mulan (Tony Bancroft e Barry Cook, 1998): Quando o imperador ordena que um homem de cada família seja convocado para servir ao exército, Mulan, sabendo que seu pai está velho e doente e, portanto, não resistiria à guerra, decide assumir seu lugar. Disfarça-se de homem e se apresenta no exército, de armadura, espada e tudo. É legal a parte em que é mostrada indignada com a condição das mulheres, que têm de se enfaixar, se entupir de maquiagem e andarem retidas, com aqueles tamancos altíssimos. Ela odeia isso tudo. E, quando se disfarça de homem, cortando os cabelos, tirando a maquiagem, tirando os vestidos apertados e colocando calças, ela se sente muito mais confortável e feliz. E ainda se dá melhor do que os homens! Se torna o melhor, mais persistente e mais inteligente soldado. Mesmo com menos força, ela se sai melhor, o que é uma vergonha para os homens. No final é ela quem salva um país inteiro.

· Tiana, de A Princesa e o Sapo (Ron Clements e John Musker, 2009): A Disney lançou a personagem Tiana, a primeira heroína negra da história do estúdio. Tiana é a primeira do panteão de princesas a trabalhar fora, como garçonete, mas acaba servindo a uma branca rica. Apesar de sua beleza, Tiana passa a maior parte do filme transformada em um sapo, ao lado de um príncipe boêmio, falido e amaldiçoado, longe de estereótipos anteriores.

· Rapunzel, de Enrolados (Byron Howard, 2010): A Disney lança uma releitura do clássico conto Rapunzel. No conto original a protagonista é salva de sua prisão na torre pelo príncipe. Na nova versão, chamada Enrolados, o príncipe é na verdade um ladrão que Rapunzel chantageia e usa para conquistar sua liberdade e explorar o mundo. Apesar de que ela não esteja em busca do “amor verdadeiro” e do casamento, acaba se apaixonando e se casando no final.

· Mérida, de Valente (Mark Andrews e Brenda Chapman, 2012): Valente se pauta no aprofundamento da relação entre mãe e filha, e ela é a primeira princesa a não ter uma figura romântica atrelada à sua imagem, já que seu único interesse é trilhar o próprio caminho. O filme parece quebrar o paradigma de que amor e casamento, juntos, são o caminho óbvio para o “felizes para sempre”, tão recorrente nas princesas Disney tradicionais. Merida simboliza a jovem que não está preocupada em casar ou ter filhos, que não quer reproduzir o modelo de mulher que é sua mãe, ou o modelo de família representado por seus pais, ou o modelo de poder hierárquico representado pelas autoridades políticas e pela nobreza na qual está inserida.

Frozen (Chris Buck e Jennifer Lee, 2013): Frozen aborda o “amor verdadeiro” como algo mais real e singelo, e faz uma crítica à antiga representação do amor à primeira vista nos filmes que o antecederam. Enquanto Anna acredita que está apaixonada por Hans e deseja se casar com ele no mesmo dia, o moço é, na realidade, uma espécie de vilão do filme. A animação também apresenta o amor verdadeiro com poder de salvação como algo que não se concretiza com um beijo entre um casal de pessoas que acabaram de se conhecer, mas sim pela coragem de uma irmã em se arriscar para salvar a outra. Elsa não tem nenhum envolvimento amoroso e nem precisa lutar contra a instituição do casamento. Ela representa a dificuldade das jovens de se adequarem a um modelo socialmente aceito e mais, de se aceitarem como são. A rainha sofre com o preconceito por ser diferente, e isso assusta as pessoas ao seu redor, que ao invés de ajudarem-na a conhecer seu poder, a instruem a escondê-lo.

Merida e Elsa, como as princesas da Disney mais atuais, são símbolos da mulher independente que quer tornar-se protagonista de seu próprio destino, rompendo com o protótipo de mulher gentil, destinada ao lar e à maternidade. Ao explorar mais a princesa Elsa, percebemos que ela é uma personagem complexa, cujo dilema consiste em encontrar a autoaceitação, para conseguir deter total controle sobre seus poderes. Daí a fuga, o isolamento, que nada mais são do que sua busca em aceitar-se tal como ela o é. É cantando versos de que falam sobre a liberdade que surge uma mulher poderosa e, sobretudo, cheia de si. Como nos antigos contos de fadas, ela acha a resposta para seus problemas no amor. Mas não no amor de um homem, de um príncipe, que lhe salva a vida, mas no amor diário das pessoas que a cercam. Na canção original Let it go (Livre estou em português), a princesa Elsa dá seu grito de liberdade e finalmente se vê sem o medo que a afligia e pode explorar seu poder:

Livre estou, livre estou!
Não posso mais segurar,
Livre estou, livre estou!
Eu saí pra não voltar.
Não me importa o que vão falar,
Tempestade vem, o frio não vai mesmo me incomodar!
De longe tudo muda, parece ser bem menor
Os medos que me controlavam, não vejo ao meu redor.
É hora de experimentar,
Os meus limites vou testar,
A liberdade veio enfim, pra mim (FROZEN, 2013, 24min36seg)

Resumindo, com o passar do tempo a mulher conquistou direitos nas esferas sociais, política, cultural e econômica. Alguns exemplos são direito ao voto, à licença maternidade, à educação e ao divórcio. O fato de que a cada dia que passa as mulheres vêm reafirmando seu espaço na sociedade não é mais novidade. A busca pela igualdade de direitos entre os sexos veio através de revoluções feministas, trazendo novos posicionamentos sociais e políticos. E é claro que atividades culturais como o cinema acabaram acompanhando esse processo de mudança. As produções dos estúdios Disney centradas na figura de princesas percorrem um caminho que acompanha as mudanças sociais de suas épocas ou, ao menos, fortalecem um discurso midiático social. As imagens dos filmes Disney reproduzem os padrões aos quais as sociedades estão acostumadas e perpetuam, através de suas narrativas, discursos dominantes, fixados ou pré-estabelecidos. Ou seja, trata-se de um agente social de mídia que detém enorme poder de representação na sociedade.

Referências bibliográficas:

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero — Feminismo e Subversão da Identidade.

FOSSATTI, Carolina Lanner. Cinema de animação e as princesas: Uma análise das categorias de gênero.

CARVALHO, Ana Elisa Alves de. Personagens femininas em animações dos Estúdios Disney — transformações de perfis em mulheres complexas.

LOPES, Karine Elisa Luchtemberg dos Santos. Análise da evolução do estereótipo das princesas Disney.

PEGORARO, Celbi Vagner Melo. A Fabricação de Valor no Imaginário: Problemáticas no deslocamento da imagem da produção Disney.

GOMES, Paola Basso Menna Barreto. Princesas: estereótipos na construção de identidades.

BUENO, Michele Escoura. Girando entre Princesas: performances e contornos de gênero em uma etnografia com crianças.

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