A primeira vez com Magic Mike

Resumo: Este artigo pretende analisar o filme Magic Mike (Steven Soderbergh, 2012) através de suas coreografias de dança, relacionando a iniciação sexual com a inserção no meio artístico do strip-tease, buscando comparar as performances de danças com atos sexuais.

Magic Mike

Magic Mike é uma comédia dramática, e considerando que a indústria cinematográfica categoriza filme “musical” como “um filme com música que emana de forma diegética, ou seja, justificada no mundo ficcional criado pelo filme — em oposição à típica música de fundo (background music), que não tem uma justificativa diegética para a sua origem” (BASTOS, 2011, p. 16), esta produção não seria enquadrada como tal. Mas, como bem aponta Altman, esta categorização só é válida para o produtor e defende que o filme define o modo dominante da abordagem e não vice — versa. De fato, Magic Mike, não apresenta uma trilha sonora elaborada para o filme, porém, partindo do pressuposto que os personagens trabalham com dança e música (strip-tease) e acompanha o seu dia — dia, é impossível não analisar o filme no ponto de vista de um musical considerando a importância dessas cenas para a narrativa.

Linda Willians, em seu artigo Film Bodies: gender, genre and excess (1991), incluiu o ‘melodrama’ como um “gênero de corpo”, assim como o ‘pornô’ e o ‘horror’. Esses três gêneros ressaltam as sensações, por isso sendo cabível suas comparações, tratam-se de gêneros movidos pelo desejo, onde o número performático equilibra a narrativa. Nuno Cesar Abreu, ao citar Linda Willians em seu livro “O olhar pornô” (1996) aponta como a autora classificou as diferentes soluções utópicas propostas por Richard Dyer, oferecidas pelos musicais, dentro do cinema pornográfico; desses modos, estes podem ser:

utopias integradas: filmes em que os números se entrelaçam através da narrativa, mantendo-se esta como discurso veiculador do problema e o número como solução […]
utopias separadas: filmes nitidamente concentrados em torno das performances, no quais a exposição narrativa é situada a parte. Os problemas vêm do universo da narrativa e são ‘resolvidos’ nos números elaborados como shows […]
utopias dissolvidas: neste tipo de filme não há distinção entre narrativa/mundo real e números sexuais/fantasias. De maneira geral, eles oferecem fantasias idealizadas de liberação sexual e uma visão utópica também do mundo da narrativa […] (ABREU, 1996, p. 116–117)

Magic Mike, portanto, dentro dessas classificações, se encaixaria como utopias separadas. Ao longo do filme acompanhamos todo o drama do personagem Mike (Channing Tatum), em busca da realização do seu negócio com móveis, suas relações pessoais, tendo nos números de dança do seu trabalho — assim sendo a comparação com o ato sexual — a solução dos seus problemas, tanto para conseguir dinheiro, como para separar seus sentimentos e aceitar a condição que por ser um stripper é difícil desvincular a imagem de um homem solteiro nato.

Percebendo, então, a relação de Magic Mike dentro dos dois gêneros (musical e pornô), busca-se analisar outro personagem central no filme, Adam — The Kid (Alex Pettyfer). Adam é um jovem americano de 19 anos, e como muitos traçando um caminho para sua vida. Mora com sua irmã, possui uma personalidade forte para a idade, arruma um emprego de vez em quando para manter seu estilo de vida, mas sem grande expectativas. Poderíamos dizer que o jovem não tem uma aparência física atraente, e que não faz sucesso entre o sexo oposto, que relacionar-se sexualmente é uma dificuldade… mas não, este não é o caso de Adam. Porém, ainda assim, o filme Magic Mike aborda a sua primeira vez. Acompanhamos sua trajetória no universo do strip-tease e sua transformação dentro dele. A comparação com sexo é clara, em nenhum momento o filme esconde isso: dance como se estivesse fazendo amor com o público.

O papel de Mike na vida de Adam é de protetor, o homem que ao mesmo tempo apresenta os prazeres da vida e que o aconselha. Dentro dos filmes pornográficos de hardcore é comum essa relação de mestre experiente e aprendiz. Ao permitir que Adam o acompanhe na boate, Mike ainda é desacreditado que o rapaz se encaixe ao local, mesmo enxergando o seu potencial, enquanto a postura de Adam é de reconhecimento, de observador e um pouco vislumbrado com esse ‘mundo’. Ao realizar sua primeira performance em cima do palco, e como bem aponta Leonardo Bastos em sua pesquisa, “não é vão que termos como ‘performance’, ‘coreografia’ e ‘número’ são referenciados as ambas manifestações (dança e sexo)” (BASTOS, 2011, p.11), vemos todo despreparo, vergonha, falta de ritmo, que uma primeira relação sexual pode provocar até que os envolvidos se sintam confortáveis e confiantes.

Não por acaso a música da apresentação é Like a virgin, da Madonna: Adam estava sendo tocado pela primeira vez neste meio do strip-tease. A coreografia do personagem era solo no palco, mas todo o público tira sua virgindade participando como voyeur do seu ato. Essa essência do olhar é ponto comum entre o musical e o pornô, pois está ligado ao efeito do prazer que a narrativa propõe, mesmo sabendo que se trata de uma ficção. Como um ato impulsivo, Adam beija uma cliente durante seu número e depois é recriminado pelo seu chefe, que diz para não misturar esse prazer ao trabalho. Pode-se lembrar da personagem de Julia Roberts em Uma Linda Mulher (Garry Marshall, 1990), onde a prostituta tinha como regra, para seus encontros, não beijar na boca. Essa questão é muito discutida dentro do mercado pornográfico, que coloca a questão da sexualidade como mercadoria e não como algo sensível para ser aproveitado.

Adam fica conhecido pelo nome artístico The Kid, e o crédito do seu sucesso é justamente sua juventude. O imaginário sexual com pessoas mais novas é ferramenta comum nos filmes pornográficos, alimentando uma fantasia de alguém que ao mesmo tempo que precisa de cuidados e possui uma virilidade. Pode-se pensar como The Kid como um “Lolito” para o filme.

Para fazer parte desse show, Adam precisa aprender como ser um stripper e é aí que o filme deixa claro como a cena musical trata-se de uma performance sexual, sendo muito subjetivo a relação de estímulo pois esta depende de nossas atitudes, crenças e experiências. Mas nesta sequência, o personagem de Mathew McConaughey, Dallas, ensina que para ser um bom stripper sua dança precisa ser sensual, envolvente, provocante, o público precisa acreditar que está fazendo sexo com ele em cima do palco. E o que são as coreografias utilizadas nos musicais além de um método para atrair o espectador para essa realidade?

Ao longo do filme, percebe-se então o amadurecimento de Adam após sua primeira vez, e como ele passa a ter satisfação no que faz, sendo cada vez mais performático e experiente. Assim como no sexo, sua dança se aprimora cada vez que ele a prática.

Magic Mike, à primeira vista, não é um filme elaborado para ser um musical. Suas músicas não foram previamente pensadas para isso, mas apresenta uma comparação clara do que há muito tempo é estudado entre as categorias dos filmes musicais e pornográficos, estabelecendo claramente a relação dança/sexo, e mostrando o instrumento comum nesses dois gêneros cinematográficos: o corpo humano. O personagem Adam passa por todos os aspectos de uma relação sexual através dos seus números sem precisar uma única vez exibir seu órgão reprodutor. Esta análise é possível ao questionarmos as subjetividades das classificações impostas pelo mercado, e propormos novas leituras.

Referências bibliográficas:

ABREU, Nuno César. O olhar pornô: a representação do obsceno no cinema e no vídeo. Campinas: Mercado de Letras, 1996.

BASTOS, Leonardo. A dança do prazer: A representação da pulsão sexual no filme musical de Hollywood. Monografia — UFF, 2011.

WILLIAMS, Linda (1991). “Film Bodies: gender, genre and excess”. In: BRAUDY, Leo e COHEN, Marshall (ed.). Film Theory and criticism. Oxford University Press, 2004.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.