A representação da religião em “Tommy”

Resumo: Este artigo busca analisar as críticas à religião e à Igreja Católica presentes em Tommy (1975), de Ken Russell. Através da música e das imagens extravagantes, busca-se identificar paralelos entre a história do protagonista e a história de Jesus Cristo, e a visão do cineasta sobre isto.

Roger Daltrey, líder da banda The Who, vive o protagonista da ópera rock Tommy (1975)

Musicais de rock e as óperas rock

O rock ’n’ roll surgiu nos Estados Unidos durante os anos de 1950 e foi aperfeiçoado e popularizado na década seguinte. Já durante essa época, os primeiros musicais utilizando este gênero foram utilizados nos palcos, mas a consolidação do musical de rock só se deu a partir de 1967, quando Hair estreou na Broadway:

Quando Hair foi transferido para a Broadway em 1968, sua fenomenal popularidade e impacto levou alguns críticos a afirmar que a influência do rock revolucionaria os musicais, que naquele momento já estava caindo de popularidade entre os americanos. E, de fato, o musical de rock tornou-se uma parte importante de Nova York. Quase todo ano após a estreia de Hair no Biltmore, pelo menos alguns musicais que pegam emprestado elementos de gêneros contemporâneos populares apareceram na Broadway, Off-Broadway ou Off-Off-Broadway, com degraus altamente variáveis de sucesso de crítica e comercial (WOLLMAN, 1969. p. 1).

Clive Barnes (então o poderoso crítico-chefe do New York Times) afirmou que o rock era a única esperança para os musicais da Broadway (KENRICK, 1996). A influência de Hair inspirou diversos sucessos subsequentes na Broadway, como a produção de Jesus Christ Superstar, de 1971.

Baseado em um álbum de estúdio lançado no ano anterior no Reino Unido, com músicas de Andrew Lloyd Weber e letras de Tim Rice, ambos novatos, Jesus Christ Superstar se baseia nos relatos bíblicos sobre a última semana de Jesus Cristo, mas adicionando elementos contemporâneos. A produção de 1971 classificada como “nova e impertinente em algumas horas e pesada em outras, estava a um mundo de distância de outros musicais de rock do final dos anos 1960” (KENRICK, 1996).

Por se tratar de um musical no qual todo o diálogo estava inserido nas letras das músicas, Jesus Christ Superstar pode ser considerada a primeira ópera rock da Broadway. No entanto, em 1966, Pete Townshend compôs a música A Quick One While He’s Away, para o disco A Quick One (1966), do The Who. A canção, uma mini-ópera rock de nove minutos que, assim como Rael, uma música um pouco menor do disco seguinte da banda, The Who Sell Out, serviram de “precursores para as ideias mais ambiciosas e abrangentes de Townshend” (UNTENBERGER, 2013): o disco Tommy, de 1969.

Ao mesmo tempo em que Townshend escrevia Tommy, outros artistas também trabalhavam em suas próprias óperas rock:

De tempos em tempos, é lançado um álbum que figura entre os melhores do rock, um que demonstra perfeitamente as forças de uma única banda e um único compositor. The Who normalmente é classificada como essa banda, e Pete Townshend, como esse compositor — por causa do enorme sucesso de Tommy, de 1969, o disco que muitas pessoas pensam ser a primeira e melhor ópera rock. Mas certamente não foi a primeira. Antes de existir o The Who, houve uma banda britânica chamada Nirvana e uma incursão precoce no subgênero da ópera rock com The Story of Simon Simopath, de 1967 (STEWART, 2014).

The Story of Simon Simopath conta a história de um garoto que tinha o sonho de ter asas. Após chegar à idade adulta, em 1999, trabalha em um escritório e sofre um colapso nervoso. Incapaz de encontrar uma instituição psiquiátrica que o ajude, ele entra em um foguete e encontra um centauro e uma pequena deusa, com a qual termina se casando. O disco, “como a maioria dos discos de óperas rock, soam como uma coleção de músicas desconexas que são forçadas a ficar juntas por uma história escrita no encarte” (STEWART, 2014).

Tommy foi lançado em 1969 e foi automaticamente um sucesso. Contando a história de um menino que é traumatizado por eventos na infância e cresce cego, surdo e mudo, para ser curado somente já adulto e tornar-se um líder espiritual messiânico. Em entrevista à revista Rolling Stone na época do lançamento, Townshend comentou a figura de Tommy como líder religioso. Para ele, não há diferença entre o que Tommy diz e o que outras figuras religiosas dizem:

Rama Krishna, Buda, Zarathustra, Jesus e Meher Baba são todas figuras divinas na Terra. Todos dizem a mesma coisa; mas ainda assim nós temos dificuldade. Isso é basicamente o que Tommy diz. No entanto, seus seguidores perguntam como segui-lo e esquecem seus ensinamentos. Eles querem regras e regulações, como ir à igreja aos domingos — mas ele só diz “viva a vida”. (DALTON, SANDERS, 1969).

Sucesso imediato, Tommy foi chamado de obra-prima e considerado um clássico instantâneo do rock. A música “Pinball Wizard” se tornou um grande hit e a banda saiu em turnê, o que catapultou os músicos ao estrelato absoluto, especialmente após a participação no Festival de Woodstock. O sucesso foi tão grande que Tommy foi adaptado: primeiro, em 1972, houve uma “gravação de orquestra e, em 1975, se tornou um filme surrealista dirigido por Ken Russell e estrelando [o vocalista da banda, Roger] Daltrey, o restante do The Who, Tina Turner, Eric Clapton e Elton John.” (WAWZENEK, 2015).

Ken Russell

O britânico Ken Russell, que trabalhou como ator e dançarino nos anos 1950, começou sua carreira como fotógrafo. Na segunda metade daquela década, após realizar alguns documentários, passou a trabalhar no programa Monitor, da BBC, o que o deu notoriedade suficiente para conseguir dirigir seu primeiro longa, French Dressing (1964).

O cineasta possuía um estilo bem característico. De acordo com Tom Vallance:

Ken Russell era uma figura extravagante e controversa que conseguiu uma indicação ao Oscar por seu filme “Mulheres Apaixonadas” (1969), famoso por suas cenas gráficas e intensas cenas de luta livre com Alan Bates e Oliver Reed nus. Uma personalidade excêntrica […], ele frequentemente brigava com censores e distribuidores por causa de sua abordagem não convencional a filmes tão variados, como Delírio de Amor (1970), Os Demônios (1971), The Boyfriend (1971) e a ópera rock Tommy (1975) (VALLANCE, 2011).

Os filmes de Ken Russell são marcados por dois temas principais: sexualidade e religião. Devido às polêmicas que cercam esses dois temas, os filmes do diretor eram raramente bem recebidos pelos críticos. Russell, entretanto, não deixava de revidar. “Pouco após o lançamento de ‘Os Demônios’, ele apareceu na televisão com o crítico britânico Alexander Walker, que chamou o filme de ‘uma monstruosidade indecente’. Russell bateu na cabeça dele com um jornal enrolado.” (LIM, 2011).

Os Demônios conta a história de um padre chamado Urbain Grandier, que tenta impedir a Igreja e Estado de anexarem a cidade de Loudon à França do Século XVII. Grandier acaba sendo acusado de ser um enviado do demônio e é queimado na fogueira. O caso, baseado em uma história real, chamou a atenção de Russell, que se converteu ao catolicismo em sua juventude, mas já havia desistido da fé quando fez o filme:

Houve outros [casos de julgamentos políticos pela Igreja], claro, desde a época de Cristo, mas este teve um tom particularmente moderno, que me chamou a atenção. [Grandier] era como muitos dos meus personagens heroicos — ótimos apesar deles mesmos. […] Ele era um pequeno padre que foi usado como bode expiatório em um conflito político, que perdeu sua vida e sua batalha, mas venceu a guerra. Após aqueles acontecimentos, Igreja e Estado não poderiam continuar fazendo o que estavam fazendo da mesma forma e, por volta daquela época, a Igreja começou a perder seus poderes. Vinte anos depois, ninguém poderia mais ser queimado vivo como bruxa na França (GALLAGHER, 2015).

Uma afirmação de Russell resume bem a sua obra: “Eu sei que meus filmes perturbam as pessoas. Eu quero deixá-las perturbadas”. O diretor faleceu no ano de 2011, aos 84, de causas naturais.

A adaptação de Tommy para o cinema

Ken Russell já havia desenvolvido um gosto por música clássica desde pequeno. Quando, em 1970, os empresários do The Who abordaram o cineasta para realizar a versão cinematográfica de Tommy, o diretor não se interessou muito. Porém, essa opinião mudou dois anos mais tarde:

O evento mais significante aconteceu em 1972, quando a Orquestra Sinfônica de Londres apresentou uma adaptação mais clássica da obra. Isso fez com que Russell prestasse atenção. Ele tentou ouvir o disco original do The Who, mas ouviu apenas um lado e pensou ‘Bobagem! Eu não conseguia entender nada da história’. Como sempre, seus ouvidos eram treinados para compositores românticos como Elgar e Tchaikovsky, então ele entrou de vez na versão da Orquestra de Londres após assistir a uma performance: ‘Eu ouvi. Vi imensas possibilidades. Eu não gostava muito de rock, mas reconheci que se tratava de algo especial.’ (LANZA, 2007, p. 178)

Russell acreditava que a história do disco tinha “muitos furos, pouco contexto sobre o pai de Tommy, Capitão Walker, e o intervalo de tempo da história — que se esticava entre as duas Grandes Guerras — era muito grande para se digerir” (LANZA, 2007. p. 179). Entre as mudanças feitas por Russell, está o fato de que, no disco, é o próprio Capitão Walker quem mata o namorado da esposa, mas o cineasta acreditava que o impacto na personagem de Tommy seria maior se ele visse o pai ser assassinado.

Há outras mudanças em relação à história original, como a mudança de pedaços de letras, a inversão de músicas e a inclusão de novas canções. Dentre essas novas músicas, a mais lembrada é Champagne, que mostra a ascensão de Tommy como astro milionário ao mesmo tempo em que seus pais aproveitam o dinheiro. Neste número, Mrs. Walker tem uma crise de consciência, que leva aos eventos de outra música escrita diretamente para o filme: Mother and Son, na qual Tommy mostra a sua mãe que rejeita as coisas materiais ao jogar todas as suas jóias no mar, e prepara seu plano de montar uma nova fé baseada em sua habilidade com o pinball.

Para o filme, alguns dos principais nomes do rock ’n’ roll foram escalados. Tina Turner assumiu o papel de Acid Queen, Elton John foi o Pinball Wizard, Eric Clapton foi The Preacher e o próprio The Who participa do filme. O baterista Keith Moon fez o papel de Uncle Ernie, enquanto o vocalista Roger Daltrey foi o próprio Tommy. Oliver Reed, frequente colaborador de Russell, foi escalado como Frank, o namorado de Mrs. Walker, que foi vivida pela atriz Ann-Margret. A atriz acabou indicada ao Oscar pelo papel.

O filme recebeu duas indicações ao Oscar: Ann-Margret como melhor atriz e Pete Townshend como melhor trilha sonora original ou adaptada. Já a trilha sonora, lançada no mesmo ano do filme, alcançou a segunda posição na lista de álbuns mais vendidos da Billboard.

A representação da religião em Tommy

Muito antes de Tommy se tornar um messias que tenta espalhar sua “iluminação” para as pessoas, Mrs. Walker leva seu filho ainda criança a uma igreja. Tudo é bem tradicional, a não ser pelo fato de a figura adorada ali ser a atriz Marilyn Monroe e o pastor encarregado de conduzir a cerimônia seja Eric Clapton.

Ao som da música Eyesight to the Blind, diversas pessoas com diferentes tipos de deficiências fazem fila para encostarem em uma estátua da atriz na busca da cura, enquanto mulheres usando máscaras de Marylin Monroe dançam coreografadamente. Tudo parece uma mistura do ritmo e dança de uma igreja protestante tipicamente americana com os rituais e a ordem de uma missa da Igreja Católica.

Erci Clapton lidera a cerimônia religiosa de Eyesight to the Blind (ao fundo, a venerada estátua de Marilyn Monroe)

Mrs. Walker e Tommy ficam para o final. Os dois se encaminham em direção à estátua e, ao realizarem o rito de passar a mão nela, a estátua se quebra em pedaços, como se o cineasta quisesse afirmar que a cura não está na igreja ou em seus rituais e que ela deve ser procurada em outro lugar. No entanto, há também uma crítica ao culto de celebridades e “falsos profetas” contidas no número. Essa ideia também vai de encontro ao destino do próprio Tommy, que se tornará um messias com seu próprio culto quando atingir a cura.

Antes deste número, no entanto, quando Tommy ainda é uma criança, há Christmas. Nele, Tommy está com sua família celebrando o natal, mas sua mãe o observa e questiona-se qual o propósito daquilo, uma vez que ele “não sabe quem foi Jesus ou o que é rezar”, então “como ele pode ser salvo do túmulo eterno?”

Um fato importante diz respeito ao uso do rock ’n’ roll. Visto como um gênero musical “demoníaco” e “impróprio” em seu início (quando se passa a história), a utilização dele em um musical que trata especificamente da questão da religião mostra-se como outra provocação. Russell, que afirmou não gostar de rock, faz questão de usar guitarras à exaustão na trilha.

Após passar por diversos traumas, como abuso sexual, violência e ser forçado a usar drogas, Tommy descobre seu potencial como jogador de pinball. Ele ganha fama e dinheiro e, ao se curar, resolve espalhar o que aprendeu para as pessoas — o que acaba formando um culto em torno de sua figura.

O culto começa pequeno e vai crescendo a ponto de Tommy gastar sua fortuna para abrigar as pessoas que recorrem a ele por ajuda. Sua família, no entanto, resolve se aproveitar da situação através de cobrança de ingressos e venda de itens referentes ao próprio Tommy.

Ao mesmo tempo, os seguidores exigiam de Tommy algo para fazer. Não bastava simplesmente ouvir o que ele tinha para dizer e seguir. Eles precisavam de algo concreto, como rituais e ações mais diretas. Tommy sugere que todos passem a se dedicar exclusivamente a jogar pinball sem ver, ouvir ou falar, exatamente como ele — o que leva seus seguidores a matarem Frank e Mrs. Walker.

Toda essa situação faz um paralelo com a grande maioria das religiões, mas especialmente a religião católica. Surge uma única figura que inspira multidões, seguida por outras pessoas que passam a se aproveitar disso para lucrar e o estabelecimento de regras para tornar tudo mais prático e fácil para todos. No fim, Tommy parte sozinho em sua nova busca por iluminação e por si mesmo. Ao som da agora clássica Listening to You, ele encontra o que procurava na natureza — longe de qualquer rito ou religião.

Considerações finais

A história de Tommy possui paralelos bem fortes com a figura da instituição mais criticada no filme: Jesus Cristo. Ele passa por provações durante toda a vida até começar a espalhar para as pessoas seus ensinamentos, ganhando uma legião de seguidores e sendo responsável pela criação de um negócio lucrativo. No entanto, Tommy tem um final feliz, uma vez que ele encontra o que tanto procura, enquanto aqueles que se aproveitavam de sua vontade de ensinar foram mortos — exatamente o oposto da história bíblica. Ken Russell, no entanto, utiliza essas relações e o rock ’n’ roll pra criticar a instituição católica e todas as suas práticas, e não a religião em si. Dessa forma, ele dá ao filme mais conteúdo do que simplesmente a crítica envolvendo os males da religião, e torna-o bem mais atraente para o público em geral.

Referências bibliográficas:

DALTON, David. SANDERS, Rick. Townshend On ‘Tommy’: Behind the Who’s Rock Opera. 1969. Disponível em <http://www.rollingstone.com/music/news/townshend-on-tommy-behind-the-whos-rock-opera-19690712>. Acessado em 26 julho 2016.

FLEMING, Colin. The Who made the best rock opera ever, but it’s not the one you think. 2011. Disponível em <http://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2011/11/the-who-made-the-best-rock-opera-ever-but-its-not-the-one-you-think/248431/>. Acessado em 31 julho 2016.

GALLAGHER, Paul. Sex, Politics and Religion: The Making of Ken Russell’s ‘The Devils’. Disponível em <http://dangerousminds.net/comments/sex_politics_and_religion_the_making_of_ken_russells_the_devils>. Acessado em 01 agosto 2016.

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KENRICK, John. The 1970s, Part I: Rock Musicals. 1996. Disponível em <http://www.musicals101.com/1970bway1.htm>. Acessado em 28 julho 2016.

LANZA, Joseph. Phallic Frenzy Ken Russell and His Films. Chicago Review Press, 2007.

LIM, Dennis. Ken Russell, Director Fond of Provocation, Dies at 84. 2011. Disponível em <http://www.nytimes.com/2011/11/29/arts/ken-russell-controversial-director-dies-at-84.html>. Acessado em 29 julho 2016.

STEWART, Mason. Nirvana: The Story of Simon Simopath. Disponível em <http://www.allmusic.com/album/the-story-of-simon-simopath-mw0000084577>. Acessado em 30 julho 2016.

UNTERNERGER, Richie. The Who: A Quic One While He’s Away. 2013. Disponível em <http://www.allmusic.com/song/a-quick-one-while-hes-away-mt0033393728>. Acessado em 30 julho 2016.

VALLANCE, Tom. Ken Russell: Film director whose style was unmistakable and whose love of controversy defined his career. 2011. Disponível em <http://www.independent.co.uk/news/obituaries/ken-russell-film-director-whose-style-was-unmistakable-and-whose-love-of-controversy-defined-his-6269181.html>. Acessado em 29 julho 2016.

WAWZENEK, Bryan. The History of the Who’s ‘Tommy’. 2015. Disponível em <http://ultimateclassicrock.com/history-of-tommy/>. Acessado em 29 julho 2016.

WOLLMAN, Elizabeth Lara. The Theater Will Rock: A History of the Rock Musical, from Hair to Hedwig. University of Michigan Press, 2006.