Across the Universe: As relações entre o filme, a carreira dos Beatles e as categorias utópicas de Dyer

Resumo: Este artigo visa abordar a relação que a narrativa do filme Across The Universe (Julie Taymor, 2007) estabelece com a carreira da banda The Beatles, através da comparação de situações dramáticas apresentadas no filme, que muito se assemelham a situações vividas pela banda, e por produtos de divulgação da mesma, como filmes e videoclipes, além da aplicação das categorias utópicas de análise dos musicais, propostas por Richard Dyer.

O lançamento de Across The Universe (Julie Taymor, 2007) foi cercado de excitação e regozijo por parte dos fãs de Beatles e de musicais. Pela primeira vez, teríamos uma adaptação das canções dos garotos de Liverpool para o gênero musical, que fosse uma história ficcional original e não fosse protagonizada pelos mesmos. Apesar de se tratar de um roteiro original escrito por Julie Taymor, Dick Clement e Ian La Frenais, muito da trama do filme se utiliza de eventos reais, ou de produções ficcionais da banda para impulsionar sua narrativa adiante. Por vezes essa relação é subliminar, outras é mais óbvia, e é isso que eu pretendo mostrar nesse artigo.

Julie Taymor no set de filmagens de Across The Universe.

A estória gira em torno da relação entre Jude (Jim Sturgess) e Lucy (Evan Rachel Wood). Ambientado no ano de 1966, o filme apresenta Jude, um jovem da classe operária de Liverpool, na Inglaterra, onde trabalha como estivador durante o dia e frequenta pubs obscuros como diversão durante a noite. Em paralelo, somos apresentados a Lucy, uma típica adolescente estadunidense que está em seu último ano no ensino médio, namora um soldado do exército, e apresenta todos os clichés que a representação cinematográfica de uma garota dessa idade possibilitam.

É interessante notar como logo no início do filme já podemos notar a óbvia, e intencional, semelhança entre o filme e a carreira dos Beatles. Além do próprio personagem Jude ser uma clara alusão a John Lennon, que se intitulava um working class hero (herói da classe operária), o número Hold Me Tight mostra um duplo foco narrativo (ALTMAN, 2002), apresentando o masculino e o feminino como opostos: nos Estados Unidos vemos Lucy em seu baile de formatura, apaixonada por seu namorado, e em Liverpool observamos Jude e sua namorada curtindo um show de rock n’ roll num pub. A referência é gritante: o pub é uma réplica quase idêntica ao Cavern Club (pub verdadeiro que abrigou a grande maioria das apresentações do início de carreira dos Beatles), assim como a banda que está tocando ali presta reverência aos fab four bem no início de sua carreira, desde sua indumentária inspirada em Elvis Presley e Eddie Cochran, até a forma de se comportar no palco. Por outro lado no baile de formatura de Lucy, temos uma banda que se apresenta nos moldes de como os Beatles viriam a ser mais adiante em sua carreira, por volta do ano de 1963.

Cena do filme no Cavern Club, que mostra a banda “clone” dos Beatles, durante o número musical “Hold Me Tight”

Durante o número musical de All My Loving, temos a criação do conflito que fará a narrativa avançar. Com o recurso de montagem paralela, amplamente utilizado na película, a estória mostra a separação que ambos os protagonistas sofrerão. Jude se separa de sua namorada dizendo que a ama e que irá para os EUA para trabalhar, quando na verdade está indo procurar o pai; enquanto isso, Lucy sofre com a ida do namorado para o front na guerra do Vietnã. Aqui é interessante observar uma clara manifestação do conceito de transparência no número — demonstração de sentimento de amor puro e utópico, como proposto por Richard Dyer em seu artigo Entertainment and Utopia (DYER, 2002) .

Em diversos momentos do filme, o paralelo que os autores traçam com a carreira dos Beatles é justamente no sentido de se distanciar da obra original, ainda que lhe prestando reverência — por exemplo no momento em que somos apresentados à personagem Prudence (T.V. Carpio). Através da música I Wanna Hold Your Hand, Prudence expressa toda a sua frustração e sua paixão platônica por uma colega líder-de-torcida, em partes pela complicação que era se assumir homossexual nos anos 60, e também por saber que ela tinha um namorado, ambos empecilhos para que este amor se concretizasse. É interessante ressaltar o belo trabalho dos roteiristas nesse número, apresentando uma releitura, pois a letra de uma música originalmente alegre, implicitamente endereçada a um remetente heteressoxual, no filme serve como plataforma para um sentimento melancólico de intensidade, com a queerificação do tema central da mesma, com auxílio de um arranjo musical lento e de uma interpretação dramática.

Prudence cantando “I Wanna Hold Your Hand

Jude chega à Universidade de Princeton, onde imagina que encontrará o pai como professor, para saber que seu pai na verdade é zelador do campus. Os dois acertam as arestas de seu relacionamento conturbado (ou inexistente), e em seguida somos apresentados a Max (Joe Anderson), irmão de Lucy. Após quebrar o vidro do escritório de um dos professores com uma bola de golfe, Max é abrigado por Jude no quarto do zelador, o que promove de imediato o início de uma amizade entre os dois, selada no número de With A Little Help From My Friends. Nesta performance fica evidente uma sensação de utopia como resolução para os problemas cotidianos vividos pelos personagens: Max apresenta Jude à seus amigos da fraternidade, eles bebem, fumam maconha, jogam e tudo parece perfeito, no maior clima de camaradagem e união, ressaltando durante o número o que Dyer chama de comunidade.

Ao ser convidado para passar o dia de ação de graças com a família de Max, Jude tem o primeiro contato com Lucy. E após uma briga entre Max e o pai acerca de seu futuro universitário, os jovens seguem para uma partida de boliche, onde temos a semente da paixão de Jude por Lucy (explicitada pela letra da música I’ve Just Seen a Face) e um sentimento de comunidade, pelo sentimento que eles compartilham de liberdade e quebra com o establishment enquanto escorregam pela pista de boliche (mais um momento utópico).

Jude se apaixonando por Lucy.

Outro momento interessante do filme é quando Lucy descobre que seu namorado faleceu na guerra, caindo assim em profunda tristeza. Nesse momento temos novamente o recurso de montagem paralela para sermos introduzidos a Jo-Jo (Martin Luther), que acaba de perder o filho devido à repressão policial numa manifestação do movimento negro. Tudo isso ao som da música Let it Be, executada já no funeral do menino, por um coral evangélico tradicional de música negra americana, um momento belíssimo de comunhão na tristeza.

A chegada de Jo-Jo a Nova Iorque marca um dos únicos momentos clássicos de energia no filme. No número de Come Together a cidade para pra recebê-lo, cantando, dançando e performando com ele: coreografias, cores e situações irreais realçam a utopia que a cidade representa para ele, como uma fuga de sua realidade onde o filho foi morto pela violência policial. Este número conta também com a participação mais do que especial do cantor Joe Cocker atuando e cantando, lenda dos anos 60 que imortalizou suas versões de canções dos Beatles como With A Little Help From My Friends e She Came In Through The Bathroom Window, que também recebe reverência neste filme. Além disso, as semelhanças aos contemporâneos dos Beatles também tem lugar no filme: Jo-Jo é a representação de Jimi Hendrix, enquanto que Sadie (Dana Fuchs) remete a Janis Joplin.

Sadie e Jo-Jo, as homenagens à Janis Joplin e Jimi Hendrix no filme.

Em Nova Iorque Jude e Lucy começam o romance que será a tônica da qual o filme irá orbitar. Em If I Fell, após se envolverem numa confusão com um policial devido ao retrato que Jude faz de Lucy num galpão abandonado, Lucy percebe que pode estar se apaixonando por Jude, apesar do sentimento ser conflitante pois ela ainda está muito mexida pela morte de seu namorado, denotando um sentimento vivido de forma direta, intensidade.

As referências à carreira dos Beatles seguem aparecendo conforme a narrativa avança. Ao conhecerem Dr. Robert (Bono Vox) numa apresentação psicodélica, ao som de I Am The Walrus, todos embarcam com ele num ônibus hippie, colorido e surreal, mais uma vez mostrando a utopia como fuga da realidade, dessa vez para todos como grupo. O paralelo aqui é bem óbvio, evoca um dos períodos mais conturbados da carreira dos Beatles: em 1967, após o lançamento de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, e a morte de seu empresário e pilar emocional, Brian Epstein, Paul McCartney começa a tomar as rédeas do grupo e desenvolve o conceito da Magical Mystery Tour, que trata de uma caravana alternativa hippie que viaja o país de forma psicodélica e surreal. Tal álbum rendeu um filme homônimo (The Beatles & Bernard Knowles, 1967), de qualidade duvidosa e que recebeu críticas mistas na época. Ainda nesse, clima o filme apresenta o número Being For The Benefit of Mr Kite, onde o grupo se encontra num circo no meio do nada, e neste circo está Prudence, que havia desaparecido após perceber que não teria chances com Sadie, sua outra paixão platônica no filme.

Os números de Because e Something são belíssimos, com uma forte presença do surrealismo característico dessa fase dos Beatles, e da utopia característica dos musicais clássicos, como por exemplo em Because, no momento em que Jude e Lucy dançam nus em meio a água, num campo onde não existe água, ressaltando psicodelia e utopia. Enquanto em Something há a demonstração clara de transparência através do amor puro e de certa forma inocente que Jude sente por Lucy, desenhando-a enquanto ela dorme.

“Because”
“Because”

Outros números emblemáticos do filme são Revolution e Across The Universe/Helter Skelter, pois ambos mostram o conceito de intensidade de forma sucinta e poderosa o contexo dos anos 6o, com a guerra do Vietnã e todos os coletivos e suas manifestações. Onde Helter Skelter culmina com uma violenta repressão policial, numa montagem paralela com imagens de Max servindo na guerra, e onde Jude vai preso e eventualmente é deportado para a Inglaterra. Um fato interessante de Helter Skelter é que podemos classificá-lo como uma antítese do conceito de abundância de Dyer, pois o número serve para mostrar a escassez de recursos e de sentimentos humanos gerados pela guerra, tanto dentro quanto fora dela, servindo como um número distópico. Em Blackbird o foco é a transparência dos sentimentos de Lucy em relação à guerra e a partida forçada de Jude para a Inglaterra.

A estória vai se encaminhando para a conclusão do terceiro ato, e em Hey Jude há um momento fortemente utópico com a integração entre personagens que estão em cidades diferentes (Jude e Max) como se estivessem frente a frente, Max convence Jude que deve voltar para Nova Iorque para reconquistar Lucy, e então o número evolui para a comunidade de Jude com as crianças na rua de Liverpool e a energia de toda a cidade incentivando seu retorno aos EUA.

O gran finale conta com a referência que talvez seja a mais direta e simbólica de todo o filme. A banda de Sadie e Jo-Jo vence as brigas e resolve celebrar fazendo um show no telhado da gravadora deles, que tem como logotipo um morango esmagado desenhado por Jude. As referências são muito carinhosas para qualquer fã. Como muitos sabem, a gravadora dos Beatles era a Apple (que não é a do Steve Jobs), e a última apresentação ao vivo do quarteto foi um show surpresa no terraço da mesma. A sequência é conduzida com maestria e cuidado, os objetos cênicos e figurinos são muito próximos aos do show verdadeiro, trazendo um sentimento de nostalgia muito forte. Em Don't Let Me Down, que inclusive foi uma das músicas tocadas no show da Apple, assim como na vida real, a polícia termina o show de forma arbitrária, retirando todos os músicos e amigos do telhado. E, de maneira utópica, de alguma forma Jude consegue permanecer lá e sozinho começa a cantar All You Need Is Love, que é um grande número clássico de musicais onde os conceitos de intensidade, comunidade e energia se misturam, pois a partir daí os policiais entram no clima de comunhão e fraternidade. O filme termina com todos reunidos, o público cantando nas ruas e o tão esperado reencontro entre Jude e Lucy, que se dá pelo encontro dos olhares dos dois amantes, um em cada prédio, em partes opostas da rua, devido a confusão inicial da sequência.

Apresentação no telhado que encerra Across The Universe

Considerações finais

Os autores do filme optaram por fazer uma analogia com a carreira dos Beatles, utilizando referências e fazendo reverência a diversas passagens da vida real e artística da banda mais influente do século XX. E mesmo assim, de forma magistral, criaram uma narrativa ficcional independente que funciona muito bem sozinha. Além disso é importante dizer que este filme foge um pouco aos padrões apresentados por Richard Dyer. Apesar de se enquadrar diversas vezes nas categorias propostas por ele, em muitas outras as categorias são o completo oposto do que é colocado na narrativa. Ao contrário do musical clássico hollywoodiano, Julie Taymor segue um caminho corajoso, e que não é óbvio, ao apresentar em muitas vezes no filme os números musicais como a própria distopia, e não uma solução para ela.

Referências:

ALTMAN, Rick. “The American Film Musical as DualFocus Narrative”. In: COHAN, Steven (ed.). Hollywood Musicals, The Film Reader. London, New York: Routledge, 2002.

DYER, Richard. “Entertainment and Utopia”. In: COHAN, Steven. Hollywood Musicals, The Film Reader. Routledge. 2002. p. 19–30

NORMAN, Philip. John Lennon, A Vida. São Paulo: Companhia das Letras. 2009. (2ª reimpressão)

The Beatles Anthology (documentário). Direção: Geoff Wonfor, Bob Smeaton, 1995.