Carmen Jones e a visibilidade de afro-descendentes no cinema

Resumo: Este estudo se propõe a analisar o filme Carmen Jones (Otto Preminger, 1954), uma adaptação da ópera Carmen, de Bizet, e, neste contexto, pensar a participação e visibilidade de artistas afro-descendentes no mercado cinematográfico.

Em 1954, Otto Preminger dirigiu a adaptação cinematográfica de Carmen Jones, a aclamada peça musical da Broadway conhecida como a versão black da imortal ópera de Georges Bizet, Carmen. O filme traz Harry Belafonte e Dorothy Dandridge nos papéis principais, conta com harmonias originais de Bizet e letra e música de Oscar Hammerstein II. Carmen Jones foi vencedor do Globo de Ouro de Melhor filme musical ou de comédia no ano de 1954.

Poster com a imagem da protegonista Carmen Jones (Dorothy Dandridge)

O filme conta a história de Carmen Jones (Dorothy Dandridge), uma bela mulher que trabalha em uma fábrica de paraquedas. Desejada por todos os homens, Carmen quer seduzir Joe. Harry Belafonte interpreta Joe, um soldado americano aspirante a piloto. Na história, ele está comprometido e prestes a se casar com a inocente Cindy Lou e não dá atenção à Carmen. Num determinado momento, Carmen se envolve em uma briga na fábrica, e Joe é encarregado de levá-la à cadeia na cidade. No caminho Carmen o envolve, o seduz e foge. Em consequência, Joe vai preso por não ter cumprido a ordem de seu superior. Carmen é despedida da fábrica e começa a se apresentar em uma casa de shows. O romance entre os dois se inicia e, após Joe ser liberado da cadeia, a relação é conturbada por ciúmes, em função do jeito de ser voluptuoso e sedutor de Carmen. Ela então começa a ser assediada pelo lutador Husky Miller, homem em boa situação financeira e com uma carreira em ascensão. A história segue entre mortes, ocorrências policiais, encontros e desencontros amorosos. Por fim, os ciúmes de Joe aumentam e no filme, o trágico final de Carmen se mantém fiel ao original na ópera: Carmen é morta por Joe.

Tanto o teatro musical, quanto sua adaptação audiovisual apresentam como diferencial a característica de possuir um elenco apenas composto de atrizes e atores afro-americanos, isso, quando ainda estava em vigência a segregação racial no sul dos EUA. Jaden Robinson aponta que, neste período, diversos musicais com a mesma proposta de manter elenco apenas composto por artistas negros foram lançados:

Ao longo da era pós-Depressão, o gênero musical introduziu um modo de fuga do turbulento período de guerras mundiais, porém a disposição dos estúdios em produzir musicais com o elenco afro-americano reinventou como a arte popular foi vista. Oito musicais conhecidos com o elenco negro foram produzidos na época de 1929 à 1959. Esses musicais, em ordem cronológica, incluíam Heart of Dixie (1929), Hallelujah (1929), Green Pastures (1936), Cabin in the Sky (1943), Stormy Weather (1943), Carmen Jones (1954), St. Louis Blues (1958) e Porgy and Bess (1959). (ROBINSON, 2015)

Com o objetivo de adaptar a história à cultura negra, o filme traz muitas diferenças da ópera que a originou. Enquanto a obra original de Bizet explora a história de ciganos espanhóis, em especial Carmen, uma trabalhadora da indústria do tabaco, Preminger reimagina estes aspectos, trazendo-os para uma realidade mais próxima da época: ele situa os personagens em Carolina do Norte, durante o momento da Segunda Guerra Mundial. Detalhes como nomes foram modificados, Don José foi transformado em Joe, Micaela foi transformada em Cindy Lou e a protagonista Carmen teve o sobrenome Jones adotado.

Foram feitas adaptações nas letras de músicas, para que estas pudessem ser interpretadas com um tom mais familiar ao apreciado pelos afro-americanos à época. Essa iniciativa foi problemática e trouxe críticas para Hammerstein. James Baldwin, autor afro-americano por exemplo, apontou que os diálogos forçados fizeram com que os personagens soassem afetados e que a utilização de termos como “Dis” e “Dat” nas músicas, no lugar dos termos formais em inglês, “This” e “That”, colocou os personagens em um patamar de baixa classe (por exemplo, “Dat’s Love”, a versão de “Habanera” da ópera original). Em resposta a tais comentários, Hammerstein argumentou que seu objetivo seria apenas o de retratar americanos negros simples e honestos (ANDRE, BRYAN, SAYLOR, 2012).

A crítica realizada por Baldwin abre espaço para se imaginar o quão inusitado e utópico deve ter sido no contexto daquela época, uma produção marcada pela imagem de uma sociedade apenas composta por negros. Nesse sentido, como uma das formas de produção humana, a perspectiva cinematográfica oferece a possibilidade de se pensar em diferentes realidades . A propósito de The Wiz, dirigido por Sydney Lumet em 1978 (adaptação de O mágico de Oz com o elenco também sendo formado apenas por atores afrodescendentes), Randal Auxier aponta o estranhamento de ver uma família negra retratada de uma outra forma, que não a relativa aos estereótipos de pobreza e sofrimento comuns aos filmes desta época (AUXIER, 2009).

Cabe destacar a competência dos atores principais que estão ótimos no filme, embora durante as canções as vozes tenham sido dubladas por Marilyn Horne (Dorothy /Carmen) e LeVern Hutcherson (Belafonet/Joe). Ator principal, o norte americano com descendência jamaicana, Harold George Belafonete Jr., é referido como tendo uma trajetória de militância política digna de respeito, sendo considerado um artista fantástico. Por sua vez, Dorothy foi a primeira atriz afro-americana a ser indicada ao Oscar por sua interpretação em 1955.

Belafonte e Dandrige como o casal protagonista de Carmen Jones

Belafonte, nasceu no Harlem, um bairro de Manhattan na cidade de Nova Iorque, conhecido por ser um grande centro cultural e comercial dos afro-americanos. O ator e cantor ficou conhecido por popularizar os ritmos caribenhos nos Estados Unidos, durante os anos 50. Participou ativamente das lutas pelos direitos civis, contra a discriminação racial e criticou duramente em especial o governo de George W. Bush por atos como a ocupação do Iraque. Belafonte teve aulas de arte dramática ao lado de nomes como Marlon Brando, Tony Curtis e Sidney Poitier e chegou a ganhar um Prêmio Tony por seu desempenho no teatro. Em 1956, seu álbum Calypso virou mania nos EUA, tendo sido o primeiro disco a conseguir a tiragem de um milhão de cópias no País. Nos anos 60, ganhou dois prêmios Grammy e seis discos de ouro, além de ter apresentado novos artistas ao público. Harry foi padrinho de artistas como Miriam Makeba, da África do Sul, com quem gravou canções denunciando o apartheid na terra da cantora.

Poster do filme “Carmen: A Hip Hopera”

Em 2001, a MTV americana fez nova adaptação da ópera Carmen de Bizet para uma versão rap, também interpretada por atores e cantores negros, com o título de Carmen: A Hip Hopera (Robert Townsend, 2001). A versão foi interpretada por Beyoncé, e letras e músicas foram criações originais do grupo Destiny’s Child, ao qual a artista pertencia antes de seguir carreira solo. Várias estrelas do hip hop americano fazem participações nesta versão, como a cantora Da Brat e o rapper Lil’Bow Wow.

A MTV descreve o filme como uma “interpretação urbana da ópera clássica”, e a primeira comédia musical hip hop. Nessa versão, a história se passa na Filadélfia e, da mesma forma, o jovem rapaz negro tem sua vida arruinada em virtude do relacionamento com Carmen. Com isso, ele vê destruído seu sonho de se tornar uma estrela do rap.

Discurso de Halle Berry no Oscar de 2002

Cabe considerar que Dorithy Dandridge foi a primeira atriz afro-americana a ser indicada ao Oscar por sua interpretação em Carmen Jones, e este constitui um dos mais valorizados prêmios do universo cinematográfico. Nesse ano o prêmio foi concedido à Grace Kelly por The Country Girl. Apenas em 2002 o Oscar foi concedido pela primeira vez a uma atriz negra, Halle Berry, que prestou homenagem a Dandridge na ocasião.

Importante ressaltar também que a desigualdade racial também se expressa na Academia. No ano de 2016, esse assunto entrou em foco após a polêmica causada pelo fato de que nenhum ator negro estava concorrendo ao Oscar. Foi criada a hashtag #OscarsSoWhite nas redes sociais em protesto, e houve o boicote por parte de artistas negros importantes, como o diretor Spike Lee e a atriz Jada Pinkett Smith. A partir disso, a presidente da Academia, Cheryl Boone, declarou que medidas seriam tomadas para que isso não voltasse a se repetir.

George Reid Andrews, em artigo de 1985, ressalta que o Brasil orgulha-se de ser uma “democracia racial”, enquanto os Estados Unidos são conhecidos pela aspereza de suas relações raciais. No entanto, o autor lembra que, desde a II Guerra Mundial, os afro-americanos, que representam apenas 12% da população dos Estados Unidos, têm provado ter uma força política substancialmente maior na vida de seu país do que os afro-brasileiros, que representam talvez 50% da população brasileira. No artigo, o autor se pergunta se existiriam formas pelas quais a história da luta dos negros nos Estados Unidos poderiam trazer luz às lutas antirracistas no Brasil:

“As mais impressionantes conquistas do movimento afro-americano, do período pós-45, aconteceram durante a fase de movimento pelos direitos civis dos anos 50 e 60. Considerando a história das relações raciais nos Estados Unidos até aquela data, os avanços conseguidos durante aqueles anos foram verdadeiramente extraordinários. A segregação foi superada, o sufrágio definitivo foi estendido ao povo negro através do Ato dos Direitos de Voto de 1965, e o governo federal instituiu programas de “igualdade de oportunidades” e “ação afirmativa” para combater o racismo. Essas conquistas transformaram o Estado nacional, de um impositor da desigualdade racial, em exatamente o oposto: um ativo e poderoso oponente da discriminação racial e fiador das oportunidades para o povo negro (e outras minorias raciais, como os índios americanos, porto-riquenhos e mexicanos) em áreas como educação, moradia e emprego.” (ANDREWS, 1985)

O autor ressalta o quanto a segregação racial exigiu, nos Estados Unidos, a necessidade do povo negro desenvolver instituições sociais e culturais próprias. Assim, os EUA possuem a tradição de igrejas e faculdades independentes, bem como produções culturais que favoreceram sensivelmente a formação da base ideológica e institucional e de liderança, para o movimento dos direitos civis.

Comparando com produções para teatro e cinema no Brasil, pode-se pensar com Andrews (1985) que uma certa ausência de limite entre o que é “negro” e “branco”, pode ter tornado possível a cooptação de afro-brasileiros talentosos pelo grupo racial branco hegemônico, o que possibilita em alguns casos, uma negação de sua negritude. Como exemplo de uma das raras produções brasileiras exclusivamente montada com artistas afrodescendentes, pode-se citar o musical de teatro Love Story, em cartaz até julho de 2016, baseado no filme de mesmo título, de 1970. Durante a primeira triagem de currículos para a produção da peça, a equipe percebeu que havia uma grande percentagem de bons artistas negros. Assim, tomou-se a decisão de realizar a peça com um elenco apenas de afrodescendentes. A decisão foi muito bem recebida pelas redes sociais, sendo considerada uma ação afirmativa que levou atores a se apresentarem para concorrer a papéis que, tradicionalmente, não eram destinados a afrodescendentes. No entanto, montagens teatrais ou cinematográficas com essa mesma proposta ainda são o escassas no Brasil.

Elenco da montagem brasileiro do musical “Love Story”

Considerações finais

No Brasil, as produções que tratam da população negra, estão concentradas em festivais e encontros específicos e, aquelas que chegam ao grande público, tratam da realidade do afrodescendente em geral como pobre ou sofredor, contribuindo para a consolidação de um estereótipo. A análise permite pensar o quanto um sistema como o americano, em que indivíduos negros vem assumindo posições de liderança e protagonismo na sociedade há tempos, favorece maior visibilidade ao talento de afrodescendentes. Nesse contexto, cabe destacar a produção de Carmen Jones com um elenco formado apenas com atores negros em 1954 e refletir sobre a invisibilidade da produção cinematográfica afro-brasileira contemporânea.

Referências bibliográficas:

ANDRE, Naomi; BRYAN, Karen; SAYLOR, Eric. Blackness In Opera. 2012. Editora da Universidade de Illinois. 1ed.

ANDREWS, George Reid. O negro no Brasil e nos Estados Unidos. Lua Nova, São Paulo , v. 2, n. 1, p. 52-56, June 1985 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64451985000200013&lng=en&nrm=iso>. access on 04 Aug. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451985000200013.

AUXIER, Randall. The Wizard of Oz and Philosophy: Wicked Wisdom Of The West. 2009. Open Court

BUNCH, Ryan. Oz and the musical: The american art form and the reinvention of the American fairytale. Studies in Musical Theater.2015 v 9 n 1 pp. 53–69, doi: 10.1386/smt.9.1.53_1

ROBINSON, Jalen. Black Hollywood: The Stereotypes, Erasure, and Social Inclusivity of Black Entertainers in Hollywood, 1930-60s. 2015.