Duetos de Uma Só: A trajetória de Garnet em Steven Universe

Resumo: Em análise da trajetória de Garnet, personagem de Steven Universe (Rebecca Sugar, 2013 — ), a partir de dois episódios centrais em seu desenvolvimento e seus números musicais, buscarei trazer para a discussão da teoria queer como a representação do amor entre duas personagens do mesmo gênero tem se dado de forma particular na animação, ainda mais voltada para crianças.

O universo narrativo do audiovisual sempre foi propenso a excluir de seu cânone a diversidade, seja de raça, sexualidade ou gênero. A luta dos movimentos sociais consegue, aos poucos, imprimir visibilidade nas diversas mídias, mas custa a dialogar de forma ideal com a realidade. A narrativa heteronormativa, entretanto, insiste em conceder ao universo queer apenas a aceitação, num tom que continuamente transmite isolamento de uma suposta “naturalidade” presente na heterossexualidade. Thomas Peele coloca da seguinte forma:

Representações que clamam por aceitação somente reivindicam que não há nada realmente errado com a cultura queer, mas não têm nada a dizer sobre as formas em que a cultura queer pode oferecer poderosos modelos de comunidade*. (PEELE, 2007, p. 2)

Esta limitação enraizada não é capaz de fazer o básico: levar mais que aceitação, mas amor às manifestações diferentes do próprio amor.

Steven Universe (Rebeca Sugar, 2013 –), animação do canal Cartoon Network, faz rir, chorar e amar. Na série animada, três fortes protagonistas femininas — marcadas pela diversidade física e de personalidade — Garnet (Estelle), Ametista (Michaela Dietz) e Pérola (Deedee Magno-Hall) formam junto com Steven Universo (Zach Callison), um menino de 13 anos, um núcleo familiar.

Utilizarei nomes e termos correspondentes à dublagem brasileira, que traduzem apenas alguns deles. É importante valorizar a dublagem, mesmo que não seja uma primeira preferência, em vista da acessibilidade à todos, algo que será importante neste artigo.

Da esquerda para a direita: Ametista, Pérola, Garnet e Steven

As figuras femininas assumem na narrativa papéis de heroínas, tutoras e protetoras — não só de Steven, mas da cidade onde vivem e de todo o mundo. É importante destacar: nenhuma delas é humana. No universo mágico criado, gemas — pedras preciosas, chamadas oficialmente de gems — de outro mundo são vivas, autoconscientes e assumem formas humanoides. Em seus corpos, trazem coladas em determinada região a gema que concentra suas essências. Nem todas as gems, entretanto, querem o bem da Terra. O grupo que acompanhamos na série — as Crystal Gems — é composto por aquelas gems que se rebelaram contra a colonização do nosso planeta, que há milênios é desejada pelas matriarcas — as Diamantes — do mundo de origem de onde vieram estes minerais conscientes.

Em vias de não entregar mais do que o necessário (o que já é muito para os leitores mais contrários aos spoilers) para o acompanhamento da análise, entrarei somente em alguns detalhes a respeito do pano de fundo das personagens — que ainda se desenrola na série, que está em sua terceira temporada. É importante ter conhecimento acerca da capacidade das gems de se fundirem, adquirindo nova forma. Este trunfo permite que as personagens ganhem atributos extras, como tamanho e força, assim os utilizando (na maioria das vezes) para derrotar seus antagonistas.

Gráfico básico das fusões das gems

Dada esta contextualização básica, vale atentar-se à estrutura da série. Com episódios de 10–11 minutos, uma primeira temporada de 52 episódios e as seguintes com 26 cada, o programa estabelece forte continuidade entre seus episódios (muitos deles sendo partes de arcos de dois ou mais episódios). Como qualquer outra animação seriada, também apresenta histórias isoladas, que funcionam por conta própria, mas dificilmente algo que faz parte de um enredo maior não será envolvido. Por fim, algo essencial na construção das narrativas e que busco analisar são os números musicais presentes em não todos, mas muitos episódios. Na maioria das vezes as músicas são compostas pela própria criadora e showrunner da série, o que já revela indícios da importância destas nas narrativas.

Rebecca Sugar também é música. É comum de ser encontrada com seu ukulele e um belo sorriso.

Judith Butler, já no prefácio de seu “Problemas de Gênero — Feminismo e subversão da identidade” questiona “que (…) categorias fundacionais da identidade podem ser apresentadas como produções a criar o efeito natural, original e inevitável?” (BUTLER, 2003, p. 9). Também introduz a indagação a respeito da “melhor maneira de problematizar as categorias de gênero que sustentam a hierarquia dos gêneros e a heterossexualidade compulsória” (idem, p. 8). Com interesse em demonstrar como Rebecca Sugar, falando uma língua próxima à de Butler, consegue transmitir em sua animação uma visibilidade única e original para a homossexualidade — com forte naturalidade e afetividade — me atentarei a dois episódios (e a seus números musicais) que, apesar de separados por 21 outros, estabelecem continuidade profunda entre si.

“Jailbreak (1x52, 2015) e “The Answer (2x22, 2016) são centrais para a narrativa de Garnet, a virtual líder das Crystal Gems. Ambos revelam o que se mantém sob mistério anteriormente: o relacionamento que a personagem vive — melhor dizendo, talvez, o relacionamento que Garnet é.

Ao fim de The Return (1x51, 2015), episódio em que a vilã Jasper invade a Terra para combater as gems, Garnet sofre um ataque e é acometida pelo que ocorre com as gems quando são abatidas: sua forma humanoide se rompe e some, dando lugar apenas à pedra essencial das personagens. Quando Garnet se desfaz, duas gemas caem sobre onde ela estava, as duas gemas que ela leva nas palmas de suas mãos.

A sequência de desestabilização física foi censurada em alguns países. No Brasil, sofreu alguns cortes.

O porquê de Garnet ser composta de duas pedras nunca antes fora explicado, mesmo que a série como um todo não evite plantar informações com as dicas da lógica por trás disso.

Em Jailbreak, o enredo gira em torno de Steven, aprisionado em uma cela na nave da vilã que derrotou os heróis no episódio anterior. Conseguindo escapar, ele encontra Rubi, uma gem nunca antes vista, também presa.

Trecho do episódio em questão. Também disponível dublado no link acima

Ajudando-a a escapar, eles partem em busca de outra gem enclausurada que Rubi quer reencontrar. Esta é Safira, outra personagem desconhecida do público que, ao ser resgatada, corre em direção de Rubi em júbilo, abraçando e beijando aquela que é sua parceira. Elas giram em uma dança e é revelada uma das maiores surpresas da série: Rubi e Safira se fundem e Garnet retorna à tela, regenerada (a composição das cores da personagem muda, inclusive, em uma clara conotação de maior entrelaçamento entre ambas) e demostrando uma felicidade nunca antes transmitida pela heroína.

Steven, que presencia a cena, faz o papel do espectador, surpreso com o fato de Garnet ser uma fusão. Não demora para que o número musical de Garnet — o primeiro dela até então — comece, este que é capaz de não só resolver o conflito da narrativa — o embate com a vilã que prendeu as gems — mas também se valer da transparência (DYER, 1992) para reforçar o que Garnet é:

“Stronger Than You” é composta por Rebecca Sugar e Estelle interpreta. Versão dublada disponível.
“(…) Mais do que as duas eu sou muito mais, sou o que elas nunca deixarão pra trás, sou sua fúria, sua paciência, eu sou uma conversa. Sou feita de amo-o-o-or”

Revelando que a personagem já tão amada pelo público é, em si, o amor entre duas mulheres — mesmo que tecnicamente “agenders” (sem gênero), já que são de um mundo que não há essa divisão, é impossível não fazer a leitura de que são figuras femininas — , Steven Universe quebra o paradigma da heterossexualidade presumida e compulsória — muito problematizada em Butler —, sempre previamente assumida, e imprime muito mais do que aceitação da diversidade sexual, mas uma verdadeira expressão da naturalidade existente na relação.

É claro que podem ser vistas limitações nesta narrativa queer: a demora para se revelar a relação pode ser tida como uma reminiscência do tabu nas mídias, sendo necessário, para a consolidação de empatia e laços afetivos entre público e personagens, o estabelecimento do universo ficcional e de suas personagens, para que se dê a desconstrução reveladora. É importante, entretanto, pensar o objeto também a partir de seu maior público alvo: o infantil. Há no romance entre Rubi e Safira um elemento de descoberta e de novidade — reforçado posteriormente no episódio The Answer, que conta como ambas se conheceram e descobriram a fusão.

Em seu ato final, Jailbreak traz Steven mais uma vez surpreso — e encantado — com a fusão de Garnet. As gems revelam que o plano era apresentar Rubi e Safira para Steven em seu aniversário. Ele responde, ao melhor jeito seu, que irá fingir que não lembra que já conheceu as duas.

Este é o gancho para The Answer (A Resposta) — episódio nomeado ao Emmy de melhor episódio animado de 2016 — que se passa justamente à meia-noite do aniversário de 14 anos de Steven. O menino então segue o prometido, ao ser acordado por Garnet, perguntando a ela se “finalmente vai contar que é a fusão das gems Rubi e Safira como prometeu”. Como ele já sabe disso, Garnet faz além e, sentada na cama do rapaz como uma mãe faz com seu filho, conta a história de sua origem. Assim, narrado por ela, o episódio traz o flashback do evento em questão.

Se passando em um local dominado apenas por gems, vemos que Safira é parte da realeza de seu mundo, enquanto Rubi faz parte da guarda real, composta por outras rubis semelhantes a ela. O local é invadido pelas rebeldes Crystal Gems — em sua formação da época, composta apenas por Pérola e Rose Quartz (Susan Egan). A dupla ataca e, ameaçada, Safira é salva por Rubi e elas, acidentalmente, se fundem.

O design de Garnet, que sempre se transforma, traz nesta fusão uma mistura pouco homogênea das gems, em face do despreparo da “primeira vez”.

O ato choca a todos em volta, que reprimem a fusão entre as gems diferentes — algo que nunca acontecera na época — ainda mais acontecendo entre uma gem de classe alta e outra de classe baixa. “Inacreditável! Que nojento! Isso é impossível!”. São estes os comentários feitos pelos que testemunham o fato, uma primeira inserção da discriminação coletiva dentro do universo, tão marcada fora dele — agora não só pelo caráter homossexual, mas também de segregação de classes.

Ao escaparem dali, Rubi e Safira fogem — juntas, mas em seus corpos separados, pois não conseguiram manter por muito tempo a fusão — e caem pela primeira vez na Terra, agora isoladas de seu mundo de origem. Vivem então juntas os conflitos internos de estarem perdidas e confusas pelo que acabaram de viver — uma legítima tensão sexual. É no número musical que essa tensão é resolvida.

Something Entirely New é composta por Rebeca Sugar e interpretada por Charlyne Yi e Erica Luttrell. Versão dublada disponível.

Something Entirely New é um dueto marcado pelo diálogo cantado e a abundância e intensidade (DYER, idem), delimitado pelos códigos internos como cenários exuberantes e o forte sentimento de ambas, além da dança, elemento que integra e faz novamente das duas uma só.

Garnet demora para se acostumar a ser a integração das partes, e também a entender o que é. Cheia de questionamentos, ela interroga Rose Quartz, que a acolhe imediatamente. O que é? Por que se sente feliz naquele estado? Rose, como uma figura materna que é, tem a resposta.

Créditos na imagem. Rose não está mais entre as Crystal Gems, mas sua presença é sempre sentida. Sua história ainda é contada e revelada aos poucos.

Jason Jacobs afirma, em “Raising Gays: On Glee, Queer Kids, and the Limits of the Family”:

“(…) o que jovens queers (…) mais precisam são de outros queers. Pais heterossexuais — mesmo aqueles determinados a tolerar, amar, e proteger seus filhos gays — ainda são incapazes de familiarizar suas crianças às tradições, hábitos, códigos sociais, estéticas, ou valores de comunidade especificamente queer, e isso é, talvez, especialmente verdadeiro em pais que insistem em ver seus filhos heterossexuais e não-heterossexuais como “iguais”*. (JACOBS, 2014, p. 319)

Partindo daí, é essencial que se faça presente na cultura a visibilidade da cultura queer, tão mais essencial que a heteronormativa. Reforçando tal ideia para o viés infantil, Rebecca Sugar é firme ao dizer que a representatividade LGBT não é uma batalha política ou a respeito de tomar uma posição: é algo vital ao desenvolvimento das crianças. Em entrevista na School of Visual Arts Society of Illustrators, a criadora de Steven Universe discorre sobre a questão:

“Não se pode esperar que crianças cresçam para deixar que saibam que pessoas queer existem. Há uma ideia de que isso é algo a ser discutido somente com adultos — isso está completamente errado. Se você espera para dizer para crianças queer que o que elas sentem importa — ou mesmo que elas são uma pessoa –, então será tarde demais*”

Ainda sobre a heteronormatividade histórica nas mídias — especialmente nas animações — e seus danos para toda uma sociedade que não se vê na tela, Sugar cita a maior referência para o mundo das animações e para ela mesma:

“Eu penso muito sobre contos de fadas e filmes da Disney e como o amor é algo sempre discutido com crianças. Penso também que há uma insistência na representação queer como algo que ocorre no “mundo adulto” distante e somente nele. Ao mesmo tempo é dito que você deve sonhar com o amor, este amor realizador que você terá. O príncipe e a Branca de Neve não são os pais de alguém. Eles são algo que você quer ser. É como sonhar com um futuro onde você encontrará felicidade. Por que todos não podem ter isso? É absurdo que não são todos que podem ter isso. Eu amo os filmes da Disney, mas nunca pensei que eles fossem eu.*”

Rebecca faz parte de uma comunidade grande e que precisa se ver representada. A chance de compreender a si mesmo através da ficção colabora em muito para a consolidação de um senso de identidade, e é essencial que isso se dê a todos de todas as maneiras possíveis.


Considerações Finais

Steven Universe é capaz de trazer em sua linguagem uma rica presença da diversidade necessária ao audiovisual infantil e, através da personagem de Garnet, revelar que é possível trazer ao contexto das séries televisivas muito mais do que aceitação, mas naturalidade, particularidade e força à cultura queer. Focando no estudo dos números musicais, vemos a manifestação de códigos próprios de uma narrativa classicamente caracterizada pela heteronormatividade utilizados para abordar novos contextos. Um estudo mais amplo poderia recortar diversos outros aspectos desta e de outras animações que levam em conta a demanda por representações LGBT legítimas, cada vez mais assumidas pelos novos produtores de conteúdo audiovisual. O recorte utilizado, entretanto, busca mostrar um ponto crucial de ruptura entre a passagem de um universo presumidamente sem diversidade para um inclusivo e mais humanista.


*Traduções de texto de minha autoria.

Referências bibliográficas:

­ BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

JACOBS, Jason. “Raising Gays: On Glee, Queer Kids, and the Limits of the Family.” GLQ: A Journal of Lesbian and Gay Studies, Duke University Press, v. 20, n. 3, pp. 319- 352, 2014.

PEELE, Thomas (ed.). Queer Popular Culture: Literature, Media, Film, and Television. Palgrave MacMillan, 2007.

DYER, Richard. “Entertainment and Utopia”. In: Only Entertainment. London: Routledge, 2002. pp. 17–34.