“Garotos gostam de garotas como eu”: Teen Beach Movie e a representação feminina

Resumo: O presente artigo tem o intuito de analisar o filme Teen Beach Movie (Jeffrey Hornaday, 2013) através da perspectiva do feminismo, utilizando as ideias de Lucy Fisher e traçando um comparativo entre as formas de representação feminina nos filmes antigos e atuais, além de mostrar a importância de personagens femininas fortes para adolescentes.

Imagine que você é uma adolescente americana em 2013, aproveitando o verão com seu namorado e acostumada não apenas à modernidade dos tempos atuais, mas também com a liberdade que as mulheres adquiriram após anos de repressão para seguir os padrões do patriarcado e muitos anos de luta para mudar essa situação. Agora imagine que de uma hora pra outra você está em um filme dos anos 60, com jovens que pensam de maneira muito diferente da sua e esperam que você aja de acordo com os padrões estabelecidos na época. Essa é a premissa do filme Original do Disney Channel “Teen Beach Movie” (Jeffrey Hornaday, 2013), que narra a História de Mack (Maia Mitchell) e Brady (Ross Lynch), um casal de surfistas que durante uma ressaca acabam tomando um “caixote” em uma onda muito grande, e quando emergem estão dentro do universo do filme “Onda Sublime Onda”, um musical dos anos 60 que retrata a briga entre 2 gangues adolescentes rivais — os motoqueiros e os surfistas — e a história de amor entre Tanner (Garrett Taylor), líder dos surfistas e Lela (Grace Phipps), irmã do líder dos motoqueiros.

O filme é todo voltado para o drama que se instala com a presença de Mack e Brady, já que eles acabam entrando na cena em que Tanner e Lela se apaixonariam um pelo outro — o que causaria o fim da disputa entre as gangues — e Tanner se interessa por Mack, enquanto Lela se interessa por Brady. Com isso, os dois começam a tentar de todas as formas aproximar Tanner e Lela, para que o filme possa seguir seu curso e eles possam voltar para casa (com a ajuda de uma tempestade que acontece no final do filme). Porém, algo que chama muito a atenção durante o desenrolar da história é o pulso firme da personagem Mack durante toda a situação. Ela é uma garota que sabe o que quer, o que precisa fazer, e como deve agir para que isso aconteça. Enquanto Brady está aproveitando a vida dentro do filme, se sentindo parte do que acontece e querendo continuar ali pra sempre — pois quando eles voltarem para a “realidade”, Mack terá que ir embora para um colégio interno e os dois não estarão mais juntos — , ela está buscando fazer o que puder para voltar pra casa. E essa atitude, de se impor e preferir a realidade difícil do que a chance de viver feliz com seu amor é um comportamento que nem sempre é comum em personagens femininas, especialmente adolescentes em filmes para adolescentes.

As meninas cuidam da beleza enquanto os meninos das motos

Ao estudar a representação feminina no cinema, com ênfase no filme “Dames” (Mulheres e Música, Ray Enright, Busby Berkeley, 1934), Lucy Fisher afirma que é comum a designação de papéis femininos e masculinos ser baseada em estereótipos que são muito diferentes. Enquanto para as mulheres as personagens eram quase sempre baseadas em atributos de beleza ou aparência física — A loira estonteante, a femme fatale, a deusa sensual — para os homens os personagens se baseavam em personalidade ou profissão — o cowboy, o gângster — e isso é algo que fortalecia a relação de objetificação das mulheres (FISHER, 1976). Muitas eram vistas mais como adereços, objetos de decoração utilizados mais para chamar a atenção e embelezar a história do que realmente dar corpo à ela. Em Teen Beach Movie isso pode ser observado quando as cenas das gangues são apresentadas e apenas os meninos são os pilotos das motos e apenas eles surfam. As meninas ficam ao lado deles, ou em conjunto pintando as unhas enquanto eles trabalham nas motos, ou aguardando na areia enquanto eles surfam.

Durante todo o filme, a personagem Mackenzie busca quebrar essas barreiras impostas e sair do estereótipo de garota que eles estão acostumados a ver. Em um determinado momento ela vai para o mar surfar junto com Tanner, e todos os que estão na areia se mostram chocados com isso. Cutucam uns aos outros dizendo “Olha, é a Mack surfando com o Tanner”, porque isso era uma quebra muito grande ao padrão que eles estavam acostumados a ver por ali. Quando eles saem da água, Tanner afirma que nunca foi vencido nas ondas antes, especialmente por uma garota, e Mack diz uma frase que acaba sendo repetida outras vezes durante o filme: “As garotas podem fazer tudo que os garotos fazem”.

A culminância de toda essa questão do comportamento esperado das garotas e dos garotos é o número musical “Like Me”, no qual os meninos estão na lanchonete que as gangues costumam frequentar e as meninas na casa de Lela em uma festa do pijama — poderíamos começar a problematização desde aqui, ao vermos que os meninos estão fora, jogando sinuca e sendo “legais”, enquanto a diversão para as meninas deve ser em casa, cuidando da beleza — e ambos os grupos começam a cantar sobre o que devem fazer para conquistar o outro.

“Garotos gostam de garotas como eu” é parte do refrão da música

O número começa quando Brady e Tanner estão conversando na lanchonete e Brady diz que se sente confuso com as atitudes da menina que ele gosta e queria ter certeza de que ela também gosta dele tanto quanto ele dela. Enquanto isso na casa de Lela, Mack tenta convencê-la de que ela não precisa fazer algo só para impressionar um garoto, mas sim porque ela sente vontade de fazer. Nisso ambos os grupos começam a cantar, Tanner e Lela tentando convencer Brady e Mack de que eles sabem “o que as(os) garotas(os) gostam” baseado no pensamento daquela época, enquanto os dois tentam mostrar uma visão diferente, baseada no “nosso tempo”. Para os meninos, é destacada como importante a atitude de não demonstrar se importar e de tomar o controle de tudo enquanto para as meninas o importante é ser prendada e se vestir bem, como podemos reparar na transcrição de partes da letra abaixo:

Meninos
Tanner: Assuma a dianteira, ela gosta quando você está no controle
Brady: Deixe-a respirar, relaxe e vá com o fluxo
Tanner: Faça todos os planos
Brady: Não seja mal-educado
(…)
Seacat: Saia com os caras
Rascal: Não deixe que ela saiba o quanto você se importa
Brady: Olhe nos olhos dela, e diga a ela, mesmo se você estiver com medo
Tanner: Você entendeu tudo errado!
Brady: Não! Eu entendi certo!
Meninas
Lela: Um olhar rápido, pisque os olhos e olhe para longe
Mack: Dê uma chance, por que não chamá-lo para um encontro? Pague a conta!
Lela: Não! Asse-lhe uma torta!
(…)
Cheechee: Calças justas
Struts: Um suéter bonito e perfume doce
Mack: Não se vista para ele, é melhor quando você se veste para você! Minhas roupas são soltas!
Lela: As minhas são apertadas!

Sobre a questão desse comportamento esperado pelas mulheres ser muito mais rígido que os dos homens, de existir muito mais pressão social e muito mais regras para mulheres do que homens em ambientes sociais, existem muitos filmes que nos mostram essa problemática. Podemos mencionar o filme Gigi (Vincente Minnelli, 1958), no qual a protagonista toma aulas de etiqueta para que possa frequentar a sociedade. Em Teen Beach Movie, as meninas que estavam dentro do filme devem seguir os comportamentos esperados para que possam continuar andando com os garotos e atraindo a atenção deles.

Outro ponto debatido por Lucy Fisher em sua análise de Dames é em como existe uma unidade nas personagens femininas, em como existem momentos nos quais a personagem perde toda a sua individualidade, num sentido mais profundo do que além de sua aparência (FISHER, 1976). Também existe a perda da identidade das personagens para que possa existir uma unidade visual mais bonita, uma certa uniformidade que é agradável aos olhos. Fisher nos diz que isso era muito comum nos musicais e teatros antigos nos quais eram utilizados os “chorus lines” — grupos de dançarinas performáticas — que geralmente eram formados por mulheres muito similares com roupas idênticas que apresentavam coreografias fluidas e até formavam imagens com seus movimentos ou roupas.

Em “Like Me” é possível observarmos que além das meninas basearem seu comportamento no que seria melhor na visão dos garotos para que eles gostem delas, perdendo a questão da personalidade própria, nos momentos finais quando repetem o refrão várias vezes há uma mudança e as meninas aparecem com a mesma roupa em cima de uma espécie de palco nos mostrando essa uniformidade visual: mesmo estilo de cabelo, mesmas roupas, mesmo sapato, mesma coreografia. Ao final da música, podemos ver que todas elas estão iguais e conseguiram fazer com que Mack se vestisse da forma que elas achavam que seria a melhor.

Mack após a “transformação” feita pelas meninas

É interessante observarmos como a representação feminina mudou através dos anos. Obviamente ainda existem clichês, personagens que pretendem mostrar o que é o “ideal de mulher” e ainda há muita influência da visão patriarcal na indústria do entretenimento, especialmente na cinematográfica/televisiva. Porém, a imagem de mulheres frágeis, preocupadas com o que os outros vão pensar e seguindo regras que lhes foram impostas sem questionamento se torna cada vez menos frequente e existem cada vez mais personagens que nos trazem a visão de mulheres que não se prendem aos ideais de ninguém além de seus próprios e buscam ser apenas quem querem ser. E isso é de extrema importância, pois sabemos que a ficção — seja na literatura, na televisão, no cinema — serve de influência na sociedade, especialmente para o público adolescente, que está em fase de descobrimento e afirmação de sua personalidade.

Ter uma personagem como Mack, uma garota decidida, que valoriza mais o que ela pensa sobre si mesma do que os outros, que não abre mão de tudo por um amor se houver uma opção melhor para ela e que busca alcançar seus objetivos mesmo que tudo esteja complicado é um grande incentivo para jovens meninas que assistem sua história, além de mostrar bem a diferença entre a forma que a juventude se portava no passado em comparação com os tempos atuais. É comum os pais falarem que “na minha época as meninas se portavam de outra forma”, mas com esse filme é possível visualizar essa diferença claramente, o que facilita a compreensão. A Disney tem mostrado cada vez mais personagens femininas fortes em seus filmes para o cinema— Mulan, Tiana (A Princesa e o Sapo), Merida (Valente), Anna (Frozen) — mas é interessantíssimo que estejam trazendo essa imagem também para os filmes televisivos, mostrando meninas fortes e decididas que podem ser exemplos para muitas garotas na atualidade.

Referências bibliográficas:

FISHER, Lucy. “The Image of Woman as Image: The Optical Politics of “Dames””. Film Quarterly, Vol. 30, No. 1, 1976, p. 2–11.