Glee e o “Poder de Madonna”

Resumo: Este artigo busca analisar como o episódio de Glee intitulado “The Power of Madonna” (“O poder de Madonna”, 1.15) aborda o empoderamento feminino, pensando na maneira em que as músicas de Madonna são inseridas na narrativa e suas performances, como os homens do coral tratam as mulheres do grupo e a reação deles ao receberem como tarefa preparar um número da artista.

Na série Glee (Ryan Murphy, Brad Falchk e Ian Brennan, 2009–2015), o décimo quinto episódio da primeira temporada tem como tema abordar o empoderamento feminino, apenas com músicas de Madonna presentes durante o enredo. Sue Sylvester (Jane Lynch), treinadora das líderes de torcida, idolatra Madonna e decide que a cantora é um modelo a ser seguido, por suas alunas e por toda a escola.

Sue encoraja as suas líderes de torcida a agir e a pensar como a Madonna

Sue coloca músicas de Madonna para tocar pelos corredores da escola, para que os estudantes possam aprender o melhor que a cantora tem a oferecer para além das atividades acadêmicas, como a sua força e independência. Ela utiliza da chantagem para convencer o diretor: o sonho de homenagear a cantora com um número (a ser realizado pelo seu grupo de líderes de torcida) não seria impedido sequer pelo diretor da escola, figura que teoricamente seria soberana.

Enquanto isso, na sala do Clube Glee, as meninas do grupo conversavam sobre relacionamentos, e sobre como os rapazes da escola, e sobretudo do grupo, faltam com respeito em relação a elas. Uma das jovens, Tina Cohen-Chang (Jenna Ushkowitz), chega a dizer que o seu pretendente, Artie Abrams (Kevin McHale), disse para ela que para eles namorarem, ela precisaria mudar seu visual, ou seja, eles só ficarão juntos se Tina mudasse seu estilo para agradar aos desejos do homem.

Tina parece estar conformada com o comportamento machista dos garotos do grupo.

O professor do coral, Will Schuester (Matthew Morrison), ao ouvir esse relato, tenta compreender o que está acontecendo, porém é questionado se ele, homem, realmente entenderia o que as garotas passam. Ainda é levantada a questão de que a sociedade em que elas vivem por si só já é machista, onde há uma diferença clara de remuneração (as mulheres ganham 70% do que os homens ganham realizando o mesmo trabalho, apenas por serem mulheres). Sendo assim, Will, que viu a maneira como a Sue estava “empoderando” as suas alunas com músicas da Madonna, resolve propor uma atividade ao coral: apresentar um número de Madonna. Todas as meninas do grupo, junto com o personagem queer, Kurt Hummel (Chris Colfer), pareceram entusiasmados com a tarefa, porém os homens (heterossexuais) do coral se sentem desconfortáveis em apresentar um número de Madonna, que apresenta características que eles consideram como exclusivas do feminino. O professor pede que os alunos se coloquem no lugar das meninas do grupo, pois a postura deles em relação às alunas é, por muitas vezes, desrespeitosa.

Will dá uma bronca nos alunos (homens-héteros)

O que esses alunos que se recusaram a apresentar um número de Madonna precisam entender é que o legado da cantora transcende a música, suas letras falam sobre ser forte, confiante e independente, independente do sexo, além de mensagens sobre igualdade.

Rachel, ainda percebendo um receio desses alunos ao realizarem a tarefa, sussurra algo para um membro da banda (que está presente no canto da sala) e então começa a cantar “Express Yourself”. Há, como proposto por Jane Feuer, uma sensação de espontaneidade, quando os membros da banda começam a tocar, e de repente corta a cena, e muda para o auditório, onde todas as integrantes mulheres do coral estão vestidas com figurinos, coreografadas e em sincronia em uma apresentação no auditório: “[…] talvez a audiência se sinta mais confortável vendo números musicais no contexto de um show, do que vendo rainhas de contos de fadas e princesas sentindo uma musica vindo de repente em seus aposentos reais” (FEUER, 2002).

Porém, por mais que a música seja simbólica no que diz respeito ao emponderamento feminino, apenas o professor, como incentivador das artes e por estar tentando desconstruir a mentalidade machista do grupo, e Kurt, parecem estar gostando da apresentação.

Trecho de “Express Yourself”

Em um outro momento, Finn (Cory Monteith) confronta Rachel sobre seu possível relacionamento com Jesse St. James (Jonathan Groff), e fica desapontado com a resposta. A música, uma versão mash-up de Boderline e Open Your Heart, começa a tocar e as tensões entre eles desaparecem: ambos estão em conexão. Rachel canta “pare de brincar com o meu coração/ termine o que começou…”, ao que Finn responde, cantando :“Não tente resistir a mim”. A música resolve utopicamente os problemas da narrativa, uma vez que os personagens estavam se desentendendo, passam a expressar com intensidade seus sentimentos através da música.

Em seu texto “Entertainment and Utopia” Richard Dyer entende musicais como “entretenimento puro”: “Entretenimento oferece a imagem de ‘algo melhor’ para se viver, ou algo que nós queremos tão profundamente e que o nosso dia-a-dia não fornece.” (DYER, 2002). Rachel e Finn não são um casal, mas durante o número temos a expressão dos verdadeiros sentimentos dos personagens em relação ao outro que cantam enquanto caminham pelos corredores da escola (com jovens garotas, vestidas com roupas que relembram momentos da carreira da Madonna) e fica perceptível uma sensação de espontaneidade. Quando a música acaba, os sentimentos expressados são confirmados brevemente com a frase “isso foi bom”, e ambos fogem do desejo que possuem um pelo outro (deixando-o restrito apenas à performance), cada um seguindo seu caminho.

Dando sequência ao episódio, Will faz uma piada sobre o cabelo de Sue e ela, que nunca pareceu ligar ou estar interessada nos cortes da moda, parece realmente chateada com os comentários. Sue conta para Kurt e Mercedes (Amber Riley) — que perceberam o quão chateada a treinadora ficou e resolveram conversar com ela) — que cresceu com uma irmã deficiente e que, por ter que criá-la, não teve tempo ou dinheiro para acompanhar os visuais da moda. Porém, inspiradas pelo visual da Madonna no álbum True Blue, Sue, com a ajuda de sua irmã, resolveu descolorir o cabelo com produtos químicos que tinha em casa, o que acabou por destruir o cabelo e ser o motivo dela só poder usá-lo curto desde então.

Sue conta aos estudantes o quanto é dolorido ter que usar cabelo curto.

Sue revela ainda a verdade de implicar com o cabelo de Will: ter inveja. O motivo de tanta ofensa e ataques desnecessários ao cabelo do Will passa a ser justificado porque na verdade, a treinadora queria ter um cabelo assim.

Mercedes e Kurt se oferecem para tentar ajudar Sue a encontrar um novo visual, e a participar de um projeto audiovisual que ambos estão planejando. Esse projeto é o videoclipe da música “Vogue”, onde Sue aparece vestida com roupas diferentes do uniforme de treino habitual: vestidos, rendas, boá, jóias, maquiagem, e cabelo com um penteado também em um estilo diferente. Para se sentir “finalmente linda”, Sue muda completamente o seu estilo nesse projeto audiovisual, se adequando a padrões de moda da sociedade, padrões estes que até então ela não tinha demonstrado interesse em seguir.

Sue aparece vestida e penteada de uma maneira diferente da habitual.

O número transporta Sue para um lugar utópico, onde ela atinge os ideais de beleza que ela “sempre quis” (mas não demonstrou anteriormente) e que precisava guardar em segredo, talvez porque entendesse que se preocupar com questões ligadas a vaidade a fizesse mais “fraca” e menos poderosa. Ao mesmo tempo que introduz uma música da Madonna na narrativa, quase como tentando reproduzir, através do cenário, roupas, coreografias (acrescentando, é claro, elementos novos), o clipe original da Madonna, da música “Vogue”, fazendo uma homenagem e não reconfigurando o videoclipe.

A música por si só, exaltam celebridades e artistas dentro dos padrões de beleza impostos pela sociedade

Porém, adiante no episódio, Sue aparece vestida como de costume na escola, deixando claro que aquela reinvenção e adequação aos padrões estava restrito a este número especifico. Outra pessoa, o diretor (homem) precisou falar para ela (o que ela sempre soube) que ela era original e não precisava copiar ninguém. Uma vez entendido isso, Sue volta a fazer piada do cabelo do Will, o que nos leva a pensar que ela não tem mais inveja (ou será que alguma vez teve?), e sim tem uma rivalidade/inimizade.

Sue conta sua decisão aos estudantes.

Uma das músicas mais famosas de Madonna, “Like a Virgin”, também ganhou um número nesse episódio. Emma (Jayma Mays), conselheira da escola, tendo como referência a Madonna, que é autoconfiante, e possui domínio sobre o próprio corpo, resolve ter sua primeira relação sexual, assim como Rachel, que também decide que está pronta para ir em frente com Jessie. Já Santana (), inspirada por Madonna, que namorou pessoas mais jovens durante a sua vida (indo contra aos padrões de comportamento definidos pela sociedades para mulheres, que ao namorarem homens mais jovens muitas vezes sofrem um preconceito maior do que o homem que namora mulheres mais jovens, que é tido como sinal de virilidade), resolve tirar a virgindade de Finn, almejando o posto de capitã do grupo das líderes de torcida. Esse emponderamento (tirar a virgindade de alguém, e perder a virgindade) veio através da autoconfiança de Madonna. A música, “Like a Virgin” tem trechos como: “eu não sabia o quão perdida estava até encontrar você”; os personagens que cantam a música declaram estarem incompletos e tristes, mas que o parceiro ou parceira a faziam sentir “novos em folha” Ao londo do número, percebemos que os três personagens que estão prestes a ter sua primeira relação sexual (Finn, Rachel e Emma) estão hesitantes, mas que em determinados momentos cedem aos movimentos sexuais realizados pelos parceiros. O número em si não se passava de uma imaginação, na consciência destes três personagens. Acaba que Rachel e Emma não estavam prontas e resolveram não seguir adiante. Apenas Finn e Santana transam.

Os “virgens” Finn, Rachel e Emma fantasiam sobre sua primeira relação sexual

Os jovens do Clube Glee se sentem intimidados com o novo membro, Jesse St. James, vindo do coral rival. Kurt e Mercedes, que já disputam solos com os membros atuais, temendo não conseguir mais destaque, decidem entrar para o grupo de líderes de torcida, onde teriam mais espaço para desenvolverem suas habilidades artísticas. Eles apresentam, diante da escola inteira, um número de Madonna. O sucesso do número com a plateia aplaudindo no final poderia ser entendido como um certo empoderamento que ambos tiveram ao desejar buscar outras formas de “brilhar” (tendo como inspiração Madonna, que perseguiu seu sonho de se tornar cantora). O que cabe colocar é que Kurt, enquanto personagem queer, pode ter se inspirado pelo feminismo da cantora, mas ele não está ali sendo aplaudido pela escola toda por estar cantando uma música de Madonna por si só. (Uma vez que da mesma maneira que os estudantes héteros do coral se recusaram a performar uma música da Madonna por ser uma cantora com códigos que eles consideravam restritos ao feminino, essa poderia ser uma postura entendida como comum da escola). Os dois estão cantando a música “4 minutes” que na versão original é cantada por Madonna, Justin Timberlake e Timbaland. Kurt, apesar de fazer parte de um número da Madonna, está ali para representar a parte de Justin Timberlake (mesmo que durante a performance ele não perca suas características queer), que é um cantor com códigos reconhecidos como “masculinos” e Mercedes que está representando de certa forma Madonna.

Comparação entre Mercedes e Kurt (Glee) e Madonna e Justin Timberlake (clipe oficial de “4 minutes”)

Sem contar que, tirando os membros da banda (que oferece o apoio com instrumentos), Kurt é o único homem presente no grupo de líderes de torcida, líderes essas que se apresentam com os movimentos sensuais característicos, enquanto a dupla canta. Essa combinação acabou resultando um aplauso de pé/aprovação da audiência.

Reunidos na sala do coral, os garotos cantam What It Feels Like For a Girl enquanto refletem sobre a letra da música:

“Garotas podem usar jeans e cortar os cabelos curtos, 
usar camisas e botas, porque é legal ser um garoto. 
Mas um garoto se parecer com uma garota é estranho, 
pois você acha que ser uma garota é degradante. 
Mas secretamente você adoraria saber como é não adoraria? 
Como é para uma garota…”

Ao cantarem essa música em um ambiente fechado, sem a presença das personagens mulheres do grupo, e de concordarem que não precisam cantar no futuro, apenas se desculpar com as garotas, eles comprovam que eles continuam achando que cantar uma música de Madonna é errado, por eles considerarem como algo “feminino” — logo continuam achando que ser mulher é degradante. Ainda assim, decidem se desculpar pelo comportamento que têm em relação às garotas. Artie reconhece que objetificou a Tina, e que ela ficou irritada com esse tratamento. O jovem percebeu essa irritação quando a parceira veio reivindicar respeito e uma mudança de atitude, esse diálogo é mostrado através de um flashback, onde a Tina é retratada de maneira histérica, da maneira que as feministas costumam ser estereotipadas.

Tina é representada como a “feminista histérica e louca”

No final do episódio, temos um grande número de comunidade, preparado por Finn: a rixa entre ele e Jesse é deixada de lado, assim como todos os outros problemas do grupo, como as questões de gênero.

Finn “cria” um número da Madonna e se apresenta com o grupo

Os membros do Clube Glee que se recusaram cantar uma música de Madonna, todos estão presentes nesse número de “Like a Prayer”. A nível utópico, a performance resolve esse impasse. O que resta a perguntar é se nos demais episódios da temporada houve uma mudança do comportamento desses rapazes em relação as meninas, e se as meninas se sentiram mais empoderadas.

O Clube Glee se apresenta com “Like a Prayer”

Concluindo, em relação ao empoderamento feminino, que era a proposta do episódio, pude notar falhas em diversas cenas presentes no episódio. Para Paulo Freire, empoderamento é uma pessoa/grupo/organização que realizam por si mesmos as mudanças que levam ao seu crescimento e conhecimento. Os professores (Will e Sue), ao conscientizarem seus alunos, não podiam manipula-los, e sim conduzi-los a pensar por si só (levando os alunos a desenvolverem um olhar mais crítico sobre o que estava sendo ensinado). Por vezes, Sue, em uma tentativa de empoderar suas estudantes acabou impondo certos posicionamentos (como namorar um rapaz mais jovem como condição para continuar nas líderes de torcida). A narrativa do episódio precisaria ser melhor escrita para que as meninas desenvolvessem seu feminismo para além das maneiras (limitadas) que foram abordadas no episódio, no qual em vários momentos persistiu o conservadorismo.

Referências bibliográficas:

FISHER, Lucy. “The Image of Woman as Image: The Optical Politics of Dames”. Film Quarterly, University of California Press, v. 30, n. 1, pp. 2-11, Autumn, 1976.

DYER, Richard. “Entertainment and Utopia”. In: COHAN, Steven (ed.). Hollywood Musicals, The Film Reader. London, New York: Routledge, 2002.

FEUR, Jane “The Self-reflective Musical and the Myth of Entertainment”. In: COHAN, Steven (ed.). Hollywood Musicals, The Film Reader. London, New York: Routledge, 2002.

RAPPAPORT, Julian. “Empowerment Meets Narrative: Listening to Stories and Creating Settings”. American Journal of Community Psychology, vol. 23, No. 5, 1995.