“I Don’t Dance”: O Flerte Homossexual em High School Musical 2

Resumo: Este artigo busca analisar o número musical “I Don’t Dance”, do filme High School Musical 2 (Kenny Ortega, 2007), a partir de uma leitura dos personagens Chad (Corbin Bleu) e Ryan (Lucas Grabeel) como homens queer.

“I Don’t Dance”

I Don’t Dance” é o quinto número musical do filme High School Musical 2 (dir. Kenny Ortega, 2007). Antes do número acontecer, Gabriella (Vanessa Hudgens) convida Ryan (Lucas Grabeel) para assistir ao jogo de baseball entre os funcionários contratados e os funcionários temporários do Lava Springs, esse último time liderado por Chad (Corbin Bleu). Gabriella tenta convencer os amigos Wildcats a se apresentarem no show de talentos do clube, argumentando que Ryan sabe montar um show e pode dirigi-los. Chad debocha, dizendo que não dança, apenas pratica esportes, e Ryan o enfrenta: você acha que dançar não exige “jogo”?

Ryan então se junta ao time de funcionários contratados como arremessador e enfrenta o time de Chad. O número começa, e ambos cantam: Chad repete de novo e de novo que não dança, não dança, não dança; Ryan tenta convencê-lo a tentar. Intercalado com o jogo de baseball, vemos takes de um número de dança acontecendo no diamante, onde todos os rapazes dos times, inclusive Chad, dançam.

O número termina, com a vitória do time dos Wildcats. Porém, alas: Chad se aproxima de Ryan e solta a frase: Eu não estou dizendo que vou dançar, mas se eu fosse… o que você me mandaria fazer? Ryan sorri. Fim.

Ryan Evans

Ryan, desde o primeiro filme, nos é apresentado como um personagem que gosta de dançar. A princípio quase um lacaio de Sharpay (Ashley Tisdale), Ryan acompanha a irmã gêmea desde o jardim de infância nas produções musicais da escola, cantando, dançando e atuando nos papéis principais junto com ela.

Em seu texto “‘Feminizing’” The Song-and-Dance Man: Fred Astaire and the Spectacle of Masculinity in the Hollywood Musical”, Steven Cohan argumenta que Fred Astaire, mesmo dançando — atividade associada a mulheres e homens homossexuais — , continua fazendo parte de uma trama central heterossexual em seus filmes (COHAN, 2002, p. 88). Esse não é o caso de Ryan, que tem claros códigos queer: além de dançar e cantar, Ryan gosta de musicais, veste boinas e roupas brilhantes, usa muito a cor rosa, é um “garoto da mamãe”, e seu grupo social, antes de “I Don’t Dance”, consiste de sua irmã e outras garotas. Tratando-se de um filme da Disney, a homossexualidade de Ryan é implícita, dada através de detalhes e sugestões. Fica também subentendido que os outros personagens sabem que Ryan é gay, justamente por associá-lo a estes códigos, e se surpreenderem quando Ryan diz que joga baseball.

Chad Danforth

Um dos poucos personagens negros em High School Musical — os outros são Taylor (Monique Coleman), Zeke (Chris Warren Jr), e, no terceiro filme, Donny (Justin Martin) — , durante os três filmes da série a maior função que Chad exerce é ser o melhor amigo de Troy (Zac Efron). Todos os conflitos de Chad giram em torno dos conflitos de Troy, sua felicidade é a felicidade de Troy, e o único número musical onde Chad canta sem Troy é “I Don’t Dance” — cantado, porém, com Ryan, outro homem branco. Chad não tem números solos, ou mesmo duetos com sua namorada. Chad parece não ter uma vida descolada de Troy e do time de basquete.

Chad é o primeiro e o que mais se opõe à vontade de Troy de cantar no musical da escola, afirmando que só gosta de hip-hop e rock, e que no mundo do showbiz é preciso usar maquiagem e figurino, coisas que, obviamente, ferem sua masculinidade.

Como um homem negro, Chad opera dentro de uma ideia de “negritude autêntica”, onde se espera que homens negros sejam heterossexuais machões, não desviando dos padrões que isso implica. No texto “Queering/Quaring Blackness in Noah’s Arc”, Gust A. Yep e John P. Elia argumentam:

Enraizados em homofobia e misoginia, espera-se que homens negros de verdade repudiem e se afastem de toda atividade considerada feminina, como a comunicação e compartilhamento de sentimentos. Johnson ainda aponta que “apesar do silêncio como sinal de masculinidade ser uma trope que circula no contexto cultural mais amplo dos Estados Unidos, nas comunidades de raça, e especialmente entre homens negros, o silêncio muitas vezes sustenta uma negação disfuncional de diferença sexual e do imperialismo do patriarcado” (Appropriating 31–32). Colocando de maneira diferente, a negritude autêntica força homens negros a utilizarem uma masculinidade agressiva para manter a autoridade heteropatriarcal. (YEP; ELIA, 2007, p. 33–34)

Chad rejeita a participação do amigo no musical da escola, por este conter música e dança, atividades vistas como afeminadas. Chad se recusa a dançar com Ryan. No terceiro filme, Chad não consegue comunicar seus sentimentos a Taylor na hora de chamá-la para o baile de formatura. Chad canta, com Troy, “The Boys Are Back”, música que reforça a identidade de ambos como homens heterossexuais que devem salvar princesas e derrotar monstros, tudo isso dentro de um ferro velho, enquanto consertam o carro de Troy.

A Utopia

Segundo Richard Dyer,

Entretenimento oferece a imagem de ‘algo melhor’ para onde escapar, ou algo que queremos profundamente que nosso dia-a-dia não proporciona. Alternativas, esperanças, desejos — essas são a essência da utopia, a sensação de que as coisas podem ser melhor, que algo diferente do que é pode ser imaginado e talvez realizado (DYER, 2002, p 20).

É o que acontece em “I Don’t Dance”: Chad e Ryan cantam e dançam juntos, e a partir desse número todos os seus problemas se resolvem. As diferenças e disputas entre os dois — um branco e o outro negro, um patrão e o outro empregado, um afeminado e o outro machão, e, principalmente, um homossexual e o outro homofóbico — desaparecem.

No primeiro filme, Chad ignora Ryan completamente, interagindo apenas com Sharpay. No único momento em que Chad fica perto dele, Ryan se mostra tenso e assustado. O que fica nas entrelinhas é a conhecida história do esportista popular que caçoa do garoto gay da escola.

No segundo filme, assim que Ryan chega no diamante, Chad é rude e agressivo, comportamento facilmente identificado como homofóbico. Porém, a partir de “I Don’t Dance”, e apenas com o número, essa tensão se dissipa, e Ryan passa a integrar o grupo de amigos Wildcats. Cenas depois, os dois são mostrados dançando lado a lado, como bons amigos.

O Flerte

Brett Farmer diz:

O número musical foi há muito reconhecido como algo que providencia “um método disfarçado de conceber aspectos normalmente não discutidos de relacionamentos intersexuais” (…) o número musical frequentemente oferece imagens e sequências que podem ser lidas como homossexuais ou, pelo menos, homoeróticas. (FARMER, 2004, p. 81)

“I Don’t Dance” é um dueto entre dois rapazes, um deles homossexual. A música contém as frases “Lean back / tuck it in / take a chance” (Incline-se / acerte bem no meio / arrisque-se), “You’re talking a lot / show me what you got” (“Você fala demais / me mostre do que é capaz”) e “I’ll show you how I swing” (no contexto do baseball, a tradução seria “Vou te mostrar como eu rebato”; ‘swing’, porém, também é uma palavra utilizada para orientação sexual. Logo, outra tradução possível seria “Vou te mostrar qual a minha orientação sexual”). Durante o número, Ryan sorri para Chad diversas vezes e o encoraja a dançar. Antes do número, os dois trocam faíscas, se desafiam, e em determinado momento Chad olha Ryan de cima a baixo, sorrindo.

O filme tenta passar todas essas instâncias como um conflito entre os dois personagens, mas esses momentos também podem ser lidos como flertes. Os dois são mostrados em plano e contra plano, onde Chad começa agressivo, mas vai suavizando sua maneira de tratar Ryan, quase piscando para ele de forma sedutora, logo antes do número começar; e Ryan, que se mostra assertivo, mas com uma linguagem corporal que o deixa ao mesmo tempo tímido e nervoso. Dentro da utopia musical, os problemas do dia-a-dia se resolvem: ou seja, o homofóbico não é mais homofóbico, e está livre para flertar com o homossexual.

O flerte entre os dois acontece durante todo o número, mas fica mais claro na cena seguinte, quando vemos os dois sentados lado a lado em uma mesa, um vestindo a roupa do outro, conversando amigavelmente.

Chad e Ryan com os uniformes trocados, na cena seguinte ao número

Durante todos os filmes da série, Chad se afirma como homem negro autêntico, ou seja, heterossexual e homofóbico. É possível, então, quando Chad diz “I don’t dance” (“Eu não danço”), entender que ele quer dizer “eu não pratico atividades consideradas afeminadas, logo, eu não sou gay.” Por sua vez, Ryan estaria dizendo “você pode jogar baseball e gostar de homens, os dois não são mutualmente exclusivos.”

Assim, podemos também interpretar “I Don’t Dance” como uma metáfora para a sexualidade de Chad, que, ao final do número, ao aceitar dançar, também estaria aceitando sua possível homo ou bissexualidade.

Considerações finais

Porém, voltamos a ideia de uma negritude autêntica de Chad e o que isso implica:

Em termos de sexualidade, a negritude autêntica é profundamente homofóbica (Johnson, Appropriating; McBride). Homossexualidade negra é vista como uma doença branca e uma ameaça para a essência da masculinidade negra heteronormativa (YEP; ELIA, 2007, p 35).

Chad só passa a respeitar Ryan e a vê-lo como um potencial aliado quando Ryan demonstra sua habilidade de jogar baseball. Ou seja, somente quando performa uma atividade considerada masculina, apenas quando se adequa ao padrão, Ryan consegue se integrar àquele grupo, que não passa a ser menos homofóbico apenas por tê-lo aceitado na roda.

Dyer fala da utopia no número musical como “respostas temporárias para as inadequações da sociedade da qual se está escapando através do entretenimento.” (DYER, 2002, p 25)

Com Chad e Ryan, isso fica bastante claro: em “I Don’t Dance” os dois resolvem suas diferenças, flertam, e Chad parece mais aberto em relação à sua sexualidade. Porém, esses aspectos dos personagens não são explorados e o flerte não vai pra frente. Em cenas seguintes, e também no terceiro filme, é afirmada a heterossexualidade de Chad através de seu relacionamento com Taylor. Há também um esforço da parte do roteiro para “heterossexualizar” Ryan no terceiro filme, quando ele chama Kelsi (Olesya Rulin) para o baile de formatura. No último filme da franquia, Ryan e Chad sequer interagem um com o outro.

Não podemos esquecer que High School Musical 2 é um filme do Disney Channel, escrito por um homem branco heterossexual. Chad e Ryan são interpretados por atores heterossexuais. Kenny Ortega, diretor e coreógrafo, é abertamente gay, e talvez também por isso o número apresente esse subtexto homoerótico. Mas, no final, o que temos são personagens opostos, que magicamente resolvem suas tensões, e nunca mais voltam a interagir. High School Musical, com certeza, teria sido muito mais interessante se explorasse as diferenças entre esses personagens e como eles aprendem a lidar com elas. Teria sido muito mais rico se tivesse dado a Chad um papel além do melhor amigo do protagonista branco e a Ryan algo além do estereótipo de gay que fica no armário de vidro. Teria tido muito mais potencial se, ao invés de relacionamentos heterossexuais forçados, mostrasse a progressão de um relacionamento entre Chad e Ryan.

Referências bibliográficas:

COHAN, Steven. “‘Feminizing’” The Song-and-Dance Man: Fred Astaire and the Spectacle of Masculinity in the Hollywood Musical”. In: COHAN, Steven (ed.). Hollywood Musicals, The Film Reader. London, New York: Routledge, 2002. p. 87–102.

DYER, Richard. “Entertainment and Utopia”. In: DYER, Richard. Only Entertainment. London: Routledge, 2002. p. 19–35.

FARMER, Brett. “Queer Negotiations of the Hollywood Musical.” In: BENSHOFF, Harry M (ed.); GRIFFIN, Sean (ed.). Queer Cinema, The Film Reader. London, New York: Routledge , 2004. p. 75–88.

YEP, Gust A.; ELIA, John P. “Queering/Quaring Blackness in Noah’s Arc”. In: PEELE, Thomas (ed.). Queer Popular Culture Literature, Media, Film, and Television. New York: Palgrave MacMillan, 2007. p. 27–40.