Lemonade: Onde a cultura pop e a religiosidade se encontram

Resumo: O presente artigo pretende apontar as referências aos Orixás dentro do álbum visual Lemonade (Beyoncé Knowles, Dikayl Rimmasch, Jonas Åkerlund, Kahlil Joseph, Mark Romanek, Melina Matsoukas e Todd Tourso, 2016).

Lemonade é um álbum visual de uma das cantoras pop mais populares e bem pagas no mundo. A diferença desse para os outros discos é que neste Beyoncé escancara sua negritude, feminismo e dores. Uns dizem que é o álbum mais visceral dela, outros dizem que não é verdade devido a extensa ficha técnica, polêmicas de traições, polêmicas sobre discriminação, polêmicas sobre roupas, mas acima disso tudo, poucos ousaram dizer que neste trabalho ela não ousou. Como estudante de cinema reconheço nos argumentos que apontam uma inverdade nessa visceralidade dela, acredito que sim, são negócios e não é de uma barraca de limonada que estamos falando, mas sim de um negócio que movimenta uma indústria e de um produto: Beyoncé, que vende e vende muito!

Porém, na minha leitura de fã da diva fiquei chocada, tanta representatividade sendo exposta, que magnífico! Eu vejo Lemonade por uma lente que perpassa a minha história de vida e de uma jornada de ser mulher e se reconhecer como negra, descobrir-se negra. Essa jornada para mim foi pela dor, infelizmente, e como a maioria das mulheres negras brasileiras que se reconhecem (depois de anos de embranquecimento) como negra. Me identifiquei facilmente com o filme e percebi claramente a presença de um resgate da nossa ancestralidade e negritude, imediatamente ligado às religiões de matrizes africanas.

Orixás

Para entender um pouco sobre as religiões africanas, vamos a uma pesquisa básica na internet através da Wikipédia que nos informa:

As Religiões Afro-Americanas (também Religiões da Diáspora africana) são um número de religiões relacionadas que se desenvolveram nas Américas pelos escravos africanos e seus descendentes em diversos países das Ilhas do Caribe e América Latina, bem como parte do sul dos Estados Unidos. Elas provêm das Religiões tradicionais africanas, especialmente da África Ocidental e África Central, apresentando semelhanças com a Religião Yorùbá e Vodun da África Ocidental em particular. Essas religiões geralmente envolvem Culto aos Egungun (ancestrais) e/ou de um panteão de divindades, como os loas do Vodou haitiano, ou os orixás da Santería. Similares espíritos divinos também são encontrados nas tradições da África Central e África Ocidental de onde eles derivam — o Orixá da cultura Yoruba, o nkisi dos tradições Bantu(Congo), e o vodou do Dahomey (Benin), Togo, sul de Ghana, e Burkina Faso. Além de misturar estas diferentes mas relacionadas tradições africanas, muitas religiões afro-americanas incorporam elementos do Cristianismo, indígenas americanos, Espiritismo e mesmo das tradições Islâmicas. Esta mistura de tradições religiosas é conhecida como sincretismo. ( Fonte: Wikipédia, 30 de julho de 2016)

Em alguns artigos, reportagens e críticas sobre o mais recente trabalho de Beyoncé afirmam que a diva do pop utiliza elementos que caracterizam os Orixás cultuados em toda a América, disseminados por negras e negros escravizados no Novo Mundo:

Ela fala sobre espiritualidade africana, e eu entendo (ainda que eu não pratique as religiões de matriz) que ela está falando sobre os rituais dos Orixás, entendo que ela dá detalhes sobre sua fé, que só alguém que pratica o culto poderia explicar e sentir. Eu entendo que ela sai da morte como Oxum (o que me lembra as aulas da minha professora Dr. Omise’eke Tinsley e a análise que ela tem feito há algum tempo sobre o trabalho da Beyoncé e como ela fala da Beyoncé como uma devota das religiões de matriz), vestida de dourado como uma nova mulher, que é capaz de exigir o que precisa. (Isso me lembra também os textos de Jurema Werneck sobre Yalodês e o feminismo negro). Mas Beyoncé também inclui menções a outros orixás em seu vídeo. (GOMES, 2016)

Outro blogueiro, Daniel dos Santos, confirma o que a colega destaca acima:

Nos vídeos de “Pray You Cath Me” e “6 Inch” Beyoncé domina e manipula os elementos da natureza como a expressão da força e do poder feminino negro, simbologias que podem ser comparadas às Orixás do Candomblé como Oxum e Yansã, ressignificando e subvertendo o jogo simbólico estabelecido pelas relações hierárquicas de poder. (SANTOS, 2016)

Apesar desses textos online trazerem essas afirmações, nenhum que tive acesso desenvolveu algo semelhante a falar sobre a Orixá Oxum e Yansã, que é explícita a referência, como vou explicar mais a frente, com outros Orixás que são cultuados nas religiões da Diáspora Africana. A dificuldade em se falar sobre as religiões africanas ou afro-americanas são atravessadas muitas vezes pelo racismo e oralidade que é a base das religiões tradicionais africanas, como afirmam os autores do livro “O livro das religiões”:

“A religiões africanas tradicionais não têm textos escritos, o que torna seu estudo difícil para os pesquisadores. Boa parte do conhecimento que temos sobre essas religiões, reunindo durante os últimos séculos, apóia-se nos relatos de observadores europeus, sejam eles mercadores, colonizadores e missionários. Tais descrições são muito influenciadas pelas constantes comparações entre a vida religiosa e cultural do local e o cristianismo e a cultura ocidental.” (GAARDER, HELLERN, NOTAKER, 2005, p.97)

Por isso, a partir da minha vivência e pesquisas na internet, tive contato com as religiões afro-brasileiras desde muito jovem e os estudos dos deuses do Panteão africano, os orixás, que apesar de haver muitos, falarei dos cultuados no Brasil e na Umbanda.

Para ficar mais fácil o entendimento sobre os Orixás o autor afirma no apêndice da obra citada acima:

“Os orixás vieram da África com os escravos. Só que, enquanto na África há registro de culto a cerca de quatrocentos orixás, apenas vinte deles sobreviveram no Brasil. A cada orixá cabe reger e controlar as forças da natureza assim como os certos aspectos da vida humana e social.
Cada orixá, além de ter funções distintas e poderes específicos condizentes com seus traços de personalidade, conta também com símbolos particulares, por exemplo, as roupas, as cores das roupas e das contas, determinados objetos, adereços, batidas de atabaque e canções características, bebidas e alimentos, sem falar dos animais sacrificiais próprios de cada orixá.” (PIERUCCI in GAARDER, HELLERN, NOTAKER, 2005, p. 314)

Agora que os leitores estão minimamente introduzidos aos orixás, voltemos a falar sobre Lemonade.

Em artigo chamado Movimente-se para além da dor, publicado pela intelectual negra Bell Hooks, a autora fala sobre a importância da ressignificação dos corpos negros femininos, mas que não é uma novidade da diva pop, já sendo utilizadas por outras artistas negras.

Do início ao fim de Lemonade, o corpo da mulher negra é completamente esteticizado — sua beleza uma poderosa face da confrontação. Isso não é uma proposta nova. Imagens como essa foram primeiramente vistas no revolucionário filme de Julie Dash, Daughters of The Dust, filmado pelo cineasta Arthur Jafa. Muitas imagens ainda em preto e branco de mulheres e da natureza são remanescentes da transformadora e inovadora fotografia contemporânea de Carrie Mae Weems. Ela produziu continuamente imagens radicalmente descolonizadas revisitando o corpo da mulher negra. (HOOKS, 2016)
Cena do filme “Daughters of the Dust” (Julie Dash, 1991) / “Lemonade” (Beyoncé Knowles, Dikayl Rimmasch, Jonas Åkerlund, Kahlil Joseph, Mark Romanek, Melina Matsoukas e Todd Tourso, 2016)

Qualquer semelhança não é mera coincidência na indústria audiovisual, acreditem! Existem claras referências a algo que ainda é novo para você, mas que já foi feito por alguém. Esse tipo de referência é importante para a valorização desses artistas, antes desconhecidos do grande público, a valorização dos artistas negros feito por Beyoncé, vai para além dessas artistas citadas, durante o álbum as músicas são alinhavadas por textos de uma poeta chamada Warsan Shire, queniana-inglesa, de 27 anos: “Os trechos recitados pela cantora entre as letras de seu disco são adaptados de vários poemas, entre eles ‘Para mulheres que são difíceis de amar’” (FREITAS, 2016).

Warsan Shire — Poeta

O filme é dividido em dez partes: Intuição, Negação, Ira, Vazio, Perda, Prestação de contas, Reformulação, Perdão, Ressurreição, Esperança e Redenção, são 12 faixas e vejo 10 orixás representados, são eles: Obaluaê/Omulu, Iemanjá, Ibejis, Exú, Nanã, Oxalá, Oxum, Iansã, Ogum e Oxóssi, Iroko, Xangô.

No início de Lemonade, vemos uma representação do Orixá Obaluaê/Omulu, que é o senhor da vida e da morte, da doença, é o médico dos pobres, seu território é o cemitério, a terra seca, tem muitos mistérios que envolvem este orixá, a vestimenta é feita de ìko, é uma fibra de ráfia extraída do Igí-Ògòrò, a palha da costa , elemento de grande significado ritualístico, principalmente em ritos ligados a morte e o sobrenatural, sua presença indica que algo deve ficar oculto. É composta de duas partes o “Filá” e o “Azé”, a primeira parte, a de cima que cobre a cabeça é uma espécie de capuz trançado de palha-da-costa, acrescido de palhas em toda sua volta, que passam da cintura, e o Azé, seu asó-ìko (roupa de palha) é uma saia de palha da costa que vai até os pés em alguns casos, em outros, acima dos joelhos, por baixo desta saia vai um Xokotô, espécie de calça, também chamado “cauçulú”, em que oculta o mistério da morte e do renascimento. Esta vestimenta acompanha algumas cabaças penduradas, onde supostamente carrega seus remédios.

Obaluaê/Omulu — Beyoncé esconde o rosto em “Pray You Catch Me”

Assim como Obaluaê, a Queen Be (Beyoncé) esconde seu rosto durante a primeira parte do filme, Intuição, na música “Pray You Catch Me”, onde a característica principal deste número musical do filme é a transparência, a cantora está em cima de um palco, ou no campo, onde há uma interação direta com a câmera. Vale ressaltar que as cores deste orixá são vermelho e preto (frame abaixo).

Reza a lenda que Obaluaê era filho de Nanã, orixá da lama (e que vai também ser lembrado pela diva pop mais a frente), e que por ser doente a mãe o abandonou perto das águas do mar e que Iemanjá, orixá das águas salgadas e mãe de todos, cuida dele e no lugar de cada marca da doença ela colocou uma pérola. Queen Be se joga do alto de um prédio de braços abertos para a rainha do mar.

Estamos entrando na segunda parte do álbum visual, a Negação. Ela cai em um aposento em que é vista por um duplo, a imagem dela se vendo me remete a Iemanjá cuidando do seus filhos, lavando todas as dores de sua alma.

Beyoncé e seu duplo em “Negação” / Iemanjá

Após esse período de hibernação, encasulamento nas águas de Iemanjá — representada pela cor azul, pelas águas salgadas, ela é a mãe de todas as cabeças — , a cantora sai do seu casulo representando Oxum, rainha das águas doces, do rio, vaidosa e amorosa, este orixá é muito adorado e respeitado, é a mãe amorosa, mas ela também é uma esposa ciumenta que não aceita ser traída nos seus sentimentos.

Oxum / Beyoncé em “Hold Up”

Estamos na canção “ Hold Up”, então é exatamente o que o próximo número nos aponta, com características de intensidade principal combinando com energia, ela está com raiva e vai mostrar tudo isso. Beyoncé sai pelas ruas, território masculino com superioridade e indiferença do que acontece a sua volta, sabendo do seu poder e pega um taco de baseball das mãos de uma criança, um objeto fálico, que me lembra a Exú, orixá muito cultuado e respeitado, é o primeiro que come e representado por objetos fálicos. Queen Be faz a alegria das crianças e mulheres quebrando carros, câmeras de segurança e um hidrante onde as crianças brincam em suas águas.

Uma lufada de vento forte toma conta das ruas e acerta em cheio Beyoncé neste número, me revelando outra orixá muito cultuada no Brasil que é a senhora dos ventos, Iansã, a bela guerreira, explosiva e corajosa, rainha dos raios, tempestades e ventos. Comumente associada à cor vermelha, em alguns terreiros de Umbanda é representada com a cor amarela, seu segundo elemento é o fogo, que herdou de seu amor Xangô.

Iansã / Beyoncé em “Hold Up”

O momento seguinte é representado pela Ira, a música seguinte é: “Don’t Hurt Yourself”, onde a diva está com um casaco de peles e a característica principal deste número é a energia que como afirma inicialmente o sentimento latente é a raiva. Dois orixás masculinos para mim são representados um na vestimenta da performer e nas expressões corporais: Oxóssi, orixá dos animais, caça, Oxóssi é o arqueiro de uma flecha só — sempre certeira, e Ogum, orixá do ferro e da guerra, ambos irmãos segundo a lenda.

Oxóssi (por André Mantoano) / Ogum (imagens retiradas da internet)
Beyoncé em “Don’t Hurt Yourself”

A presença de Ogum vem no som dos metais na música e o que ela diz é semelhante ao campo de Ogum que é este: o campo dos sentidos humanos, desejo, inveja, ódio, vingança, são sentimentos condenáveis que sempre causam ações negativas por parte de quem os alimenta, é nesse ponto que Ogum começa agir com sua força kármica, anotando as ações para posterior cobrança e equilíbrio. Ogum pede que ninguém se esqueça disso ao fazer mal ao seu semelhante. Beyoncé louva a Ogum nesta canção e seu elemento fogo e cor vermelha aparecem em flashs de imagens durante a música.

A fase seguinte é chamada de Apatia com a música “Sorry”, cheia de polêmicas, a cantora pop neste número de características de comunidade, onde tem um corpo de dançarinas pela primeira vez no álbum e com energia ela manda seu par ir embora sem remorso, a relação estaria terminada se eles não reatassem no final, logo é só um tempo. No início há imagens de árvores frondosas, frutos, a cor predominante é cinza, cor de um orixá poderoso e cultuado no Brasil por alguns terreiros de Umbanda, Irôko, orixá do tempo, orixá muito antigo, seu simbolo é o tronco, sua lenda diz que foi a primeira árvore plantada por onde desceram os outros orixás.

Irôko: em “Sorry”, escaleta de cor cinza que representa Irôko, a madeira presente nas cadeiras e corrimão

No momento chamado Vazio a cor predominante é a vermelha, o elemento presente é o fogo, a sexualidade já vem sendo demonstrada no quadro anterior onde mulheres nuas caminham pelo campo, o poema recitado pela cantora é sexual, sensual, com características não só pela cor como também pelo tema tratado na música o orixá que há referências, para mim claras, é Exú, orixá muito confundido com o diabo, mas que não tem nada a ver. Exú faz a guarda e distribui bençãos de fertilidade, fartura,proteção astral, prosperidade e boa sorte nos negócios. E a música fala de que? Negócios! “6 Inch” vai falar de uma mulher forte que é dona de seu próprio destino, que trabalha e tem seu dinheiro. O salto, na verdade, é uma metáfora que representa o empoderamento feminino em suas músicas. Durante todo o número a câmera está em movimento, mesmo parada no carro há movimento das ruas do lado de fora, Exú são guardiões dos terreiros, o mensageiro, ele é o movimento, sem ele as oferendas não são entregues aos outros orixás, já falamos dele mais acima sobre os objetos fálicos que o representa e as cores vermelha e preta.

Exú / Beyoncé em “6 inch”

O número é caracterizado por momentos de abundância e intensidade, a fotografia puxada para uma cor quente, além de transparência, ela sabe da existência da câmera e fala diretamente para ela. Passamos rapidamente pela fase da Perda, será que neste período de possível separação houve uma perda financeira? Se houve foi recuperada e superada, já que o próximo capítulo desta saga é Prestação de contas e com crianças, a cantora faz uma referência as suas raízes não só no country, mas da sua infância, várias imagens de crianças aparecem na música “Daddy Lessons” inclusive a própria Beyoncé.

Beyoncé em “Daddy Lessons”

Momentos antes da música começar temos imagens de raio e chuva que são representados pelos dois maiores amantes deste Panteão: Iansã e Xangô, dos trovões, pedreiras e machado duplo seu símbolo, orixá da justiça, se o momento é de prestação de contas é ele que vamos precisar saudar. A cantora faz referência também aos orixás gêmeos, os Ibejis que, reza a lenda, também foram cuidados por Iemanjá depois de abandonados pelos pais Xangô e Oxum, crianças, renascimento, dualidade, são orixás que trazem alegria, mudanças. Os Ibejis mostram que todas as coisas, em todas as circunstâncias, têm dois lados e que a justiça só pode ser feita se as duas medidas forem pesadas, se os dois lados forem ouvidos, retificando o nome dado a esse momento do filme. As cores dos Ibejis são o azul, o rosa e o colorido, tal qual o figurino étnico de Beyoncé neste trecho.

Xangô / Ibejis

Em Reformação, a diva faz referência a dois orixás Oxalá, sincretizado como Jesus Cristo, simboliza a paz, serenidade, pacificação em sua forma como idoso. Os símbolos de Oxaguiã são uma idá (espada), “mão de pilão” e um escudo; o símbolo de Oxalufã é uma espécie de cajado em metal, chamado opaxorô. percebe-se pelas cores adotadas pela artista, o branco e remete a um dos milagres de Cristo de caminhar sobre as águas, com a cruz negra por todo o figurino e de suas dançarinas.

Oxalá / Beyoncé na parte Reformação

Neste momento visivelmente a obra começa a ter mudanças significativas nas paletas de cores e números musicais, este em específico “Love Drought” é um número de comunidade, é a saída de um período de tempestades para a bonança. Há também a presença forte de outro orixá, também antigo que é a sacerdotisa, a idosa, a mãe da lama, do mangue, do pântano, senhora da morte responsável pelos portais de entrada (reencarnação) e saída (desencarne) das almas, Nanã Buruku, o termo “nanan” significa raiz. Teve quatro filhos com Oxalá, também representado neste trecho, são eles: Ewá, Obaluaê/Omulu, Ossaim e Oxumaré. Suas cores são roxo ou lilás em que tem tons nas flores desta passagem da música que é um momento de reflexão com sabedoria.

Nanã / Beyoncé em “Love Drought”

Beyoncé nos convida a experimentar o Perdão, a mensagem é de “dê tempo ao tempo”, ela volta às águas, mas dessa vez como se retornasse dela, na areia molhada, crucificada, ela retorna ao ponto de início, com os elementos da terra molhada e da água serena. O fragmento tem Nina Simone tocando em segundo plano antes do início da música “Sandcastles” é uma canção sentida, dramática, cuja mensagem é: “perdoar o outro é perdoar duas vezes, pois perdoa a si mesmo”. Irôko é representado juntamente com Nanã neste fragmento por diversas vezes com o relógio em destaque nas cenas de Jay-Z e Beyoncé. O número musical tem transparência com a montagem do casal, intensidade das emoções expostas na canção.

Ressurreição trecho onde tem a canção “Forward” é para mim um interlúdio entre a música anterior e a próxima, é um número de comunidade, mas acima de tudo intensidade, são mulheres que perderam entes queridos vítima de racismo, são jovens, idosas, tem uma indígena com trajes típicos brancos, que me remete a falange dos Caboclos, cultuados na Umbanda. Os Caboclos são entidades de grande evolução espiritual que tem o propósito de ajudar aqueles que os procuram em diversos aspectos da vida e estão ligados ao Orixá Oxóssi.

Indígena com trajes típicos em “Forward” / Caboclos

No trecho que denomina Esperança, antes da música que clama por liberdade e justiça tem uma representação de um orixá masculino que me remete a Xangô, orixá da justiça como dito anteriormente e do trovão que aparece logo em seguida. Nesta parte do álbum visual a artista lança a música “Freedom”, em que vai reivindicar os direitos que são negligenciados aos oprimidos seja por gênero, etnia e religião. Na apresentação desta canção características como: comunidade, transparência e a mesma intensidade da música anterior predomina a apresentação. Oxalá é representado pela coroa de espinhos e as roupas brancas dos personagens.

Xangô e Oxalá em “Freedom”

Chegamos à Redenção, que teremos muitas referências que já vimos no texto sobre os orixás. A música é “All night”, Nanã é representada pela reverência aos antigos, seus ancestrais, as anciãs, é um número que exalta o amor, a família, com energia, comunidade e transparência, com imagens de diversos casais, crianças e da família Carter e Knowles.

Beyoncé ao que me parece não tenta esconder sua simpatia pelas religiões de matriz africana em Lemonade, ao contrário o que vejo nesta obra é um grande abraço entre a cultura pop e exaltação à ancestralidade, uma superação de todos os obstáculos com a ajudinha extra da espiritualidade ;)

Referências bibliográficas:

FREITAS, Ana. “Quem é a poeta recitada por Beyoncé em ‘Lemonade’”. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/04/28/Quem-%C3%A9-a-poeta-recitada-por-Beyonc%C3%A9-em-%E2%80%98Lemonade%E2%80%99

GAARDER, Jostein; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

GOMES, Daniela (tradução). “Sobre Lemonade, Ancestralidade, uma tradução “mal feita” e o racismo à brasileira / About Lemonade, Ancestry, a very poorly translation and Brazilian racism”. Disponível em: http://afroatitudes.blogspot.com.br/2016/04/sobre-lemonade-ancestralidade-uma.html

HOOKS, Bell. “Movimentar-se para além da dor” Disponível em: http://blogueirasnegras.org/2016/05/11/movimentar-se-para-alem-da-dor-bell-hooks/

“Manual do Raios de Luz” — Umbanda Esotérica. Disponível em: http://raiosdeluz-aruanda.blogspot.com.br/p/manual-do-raios-de-luz.html

SANTOS, Daniel dos. “Beyoncé e a Dialética do Espelho: O Pensamento Pós-Colonial Feminista em Lemonade”. Disponível em: https://raplogia.com/2016/04/25/beyonce-e-a-dialetica-do-espelho-o-pensamento-pos-colonial-feminista-em-lemonade/