Mary Poppins: Um olhar crítico para questões sociais do filme

Resumo: Este artigo visa estudar as críticas do musical produzido pela Disney, Mary Poppins (Robert Stevenson, 1964) com roteiro baseado nos livros homônimos de P. L. Travers. Citando João Luiz Vieira, abordamos questões sociais críticas que passam despercebidas ao longo do musical e são descobertas através da performance.

Londres, 1910. Um banqueiro, George Banks (David Tomlinson), resolve redigir um anúncio pedindo uma babá, após Michael (Matthew Garber) e Jane (Karen Dotrice), seus filhos, mais uma vez sumirem e fazerem Katie Nanna (Elsa Lanchester), a babá, pedir demissão. Tentando controlar a situação Winifred (Glynis Johns), a mulher de George, faz tudo para acalmar o marido, mas sua cabeça está voltada para a defesa dos direitos da mulher. As crianças também escreveram um anúncio, que difere bastante da babá que George pensa em contratar, tanto que depois de lê-lo o rasga em oito pedaços e joga na lareira, por tê-lo achado fantasioso demais.

Porém, os pedaços de papel milagrosamente voam juntos até uma nuvem próxima, onde está uma pessoa muito especial: Mary Poppins (Julie Andrews). No outro dia, chegam muitas candidatas para o cargo de babá, mas um vento misterioso as carrega antes de serem entrevistadas. Chega então Mary Poppins, que desce das nuvens até a casa dos Banks, usando um guarda-chuva mágico como paraquedas. Ela conhece Mr. Banks e concorda em ficar com o trabalho. Michael e Jane ficam fascinados com Mary Poppins, pois ela é exatamente a babá que sempre sonharam.

Para começar, a mãe de Jane e Michael está tão envolvida em causas urgentes, como o voto feminino, que não tempo para a família. Já o pai vive constantemente preocupado com a ordem e a razão, sem se importar com brincadeiras infantis ou mesmo com uma boa risada. Com esse tipo de comportamento, os dois estão inevitavelmente se afastando dos filhos, e tal perda, quando consumada, pode ser irreversível.

Mary Poppins é quem será capaz de dar ordens a brinquedos e demais objetos inanimados, que irá surgir para reverter essa situação antes que seja tarde demais. A personagem entra na trama para ter que resolver esse impasse dos pais ocupados com a vida adulta e suas convicções.

Com a ajuda de Bert (Dick Van Dyke), ela irá mostrar para as crianças que a vida pode ser muito mais do que pequenas estripulias infantis, ao mesmo tempo em que irão descobrir o valor do carinho e da amizade. Haverá espaço também para cada um dos familiares se darem conta da importância dos outros e, juntos, resolverem seus problemas, sem discussões ou tensões exageradas, mas em harmonia, tal qual deve ser.

Dick Van Dyke e Julie andrews em “Mary Poppins”

Esse filme traz a tona diversas questões sociais da época. O ensino didático por meio da música e brincadeiras feitas pela Mary Poppins, o capitalismo demonstrado pelo pai na canção Fidelity Fiduciary Bank, e o feminismo da Srª Banks, que acaba sendo abordado como um problema na questão da educação dos filhos, que tira a atenção para eles e demonstra que ela se preocupa mais em lugar pelo direito do voto feminino. E questões essas que não são resolvidas durante o musical, apenas as apresentam sem discutir sobre essas problematizações.

É interessante pensar em duas questões que passam despercebidas neste filme. A primeira é a personagem da mãe de Jane e Michael, que primeiramente, deveria ser uma personagem importante já que é a mãe das crianças que serão educadas por Mary Poppins. Mas, quem na verdade que se destaca é o Sr. Banks, um sujeito arrogante que generaliza e identifica os homens e banqueiros daquela época. Neste sentido percebemos a falta de importância que a a figura feminina, que é a mãe das crianças tem. Ela é uma mulher feminista que luta pelos direitos das mulheres, focando no direito ao voto. E seu marido durante o filme anula essas questões dando maior importância ao problema dele com o banco e a sociedade capitalista. Sendo assim, a questão do voto das mulheres para a época é posta de lado.

Outra cena de forte cunho social ocorre quando Sr. Banks quer que os filhos apliquem o dinheiro na poupança, e explica à Mary Poppins a importância que a aplicação do banco tem, exige que as brincadeiras educacionais sejam abolidas. Esta cena ocorre já no final do filme, onde as crianças já aprenderam com Mary Poppins as boas maneiras e o valor real do dinheiro.

Através da performance de Mary Poppins e dos demais personagens, encontramos formas de expressão e resolução para as questões sociais que ocorrem na família. Eles, na última cena ganham vida de novo através da música e da dança, onde todos participam, a oportunidade de expressão de conteúdo.

“É neste sentido que a performance se identifica com o corpo enquanto suporte, materializada numa apresentação ao vivo e diante, preferencialmente, de uma plateia” (VIEIRA, João Luiz, 1996, pg. 339)

Como acontece na canção dos pinguins que cantam e dançam diante da plateia, composta por Mary Poppins. Mais uma vez uma força de expressão para resolver questões sociais apresentadas anteriormente e logo são resolvidas através da dança performática.

O musical em vez de por de lado essas questões, teria a forte capacidade diante desses empregos estratégicos de reflexividade, com o discurso direto apelando para quem o assiste. Eles jogam a gente dentro do filme, convidando o público a fazer parte do filme, entrando neste mundo e passando a ideia que o musical apresenta. O objetivo crucial de João Luiz Vieira é demonstrar o contato que o musical tem com a plateia quebrando o ideia de que cinema e os atores não podem entrar em contato direto com a câmera.

Exatamente com esse contato que o musical consegue adentrar e fazer efeito também nas nossas vidas, porque acabamos fazendo parte dele por esse contato dos atores olhando para a câmera. Diante disso as questões sociais que seriam resolvidas pelas cenas musicais do filme, nos afetariam também, fazendo nos questionar e enxergar os nossos problemas diários do mundo real. Sendo assim, a plateia original e fantasmática desapareceria sendo substituída pela subjetividade do espectador do filme, tornando-se uma história que se disfarça de discurso, que é o real sentido do musical. Porém o filme não busca explorar resolver essas questões. Analisando pelo texto o valor e o potencial que um musical tem na vida de quem o assiste.

Em relação às crianças, podemos dizer e decifrar que o musical se torna importante na vida delas. Com pai e mãe ausentes com seus próprios interesses, os filhos são “deixados de lado”, e acabam ficando rebeldes por esse motivo. Fato e ideia exposta com a finalidade que o filme quer repassar para quem o assiste. Sendo assim, o musical entra também com a finalidade de fazer as crianças sonharem e entrarem em um mundo de fantasia que antes era desconhecido.

Considerações finais

Diante desta análise percebemos que ao vermos o musical, que remete a distração e algo mais mágico e intenso, deixamos passar despercebido essas questões tão fortes da época e até mesmo questões que estão em discussão atualmente. O texto de João Vieira nos faz enxergar essa parte técnica e crítica do musical, evidenciando questionamentos que temos que trazer a tona para serem resolvidos pelo contato que o musical nos propõe.

Bibliografia:

VIEIRA, João Luiz. “Cinema e Performance”. In: XAVIER, Ismail (org.) O cinema do século. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

§ https://pt.wikipedia.org/wiki/Mary_Poppins_(filme)

§ http://www.sincerando.com/2015/01/mary-poppins.html


Anexo I — Personagens:

  • Julie Andrews: Mary Poppins, babá com poderes mágicos, que vai trabalhar na casa do Sr. Banks para cuidar de seus filhos; ela chega na casa do patrão voando e usando um guarda-chuva como paraquedas e traz consigo diversas brincadeiras que mudam a vida daquela família.
  • Dick Van Dyke: Bert , é animado e prestativo, Bert é um velho amigo de Mary Poppins, que abre o filme tocando vários instrumentos sozinho para ganhar dinheiro das pessoas que assistem; além disso, ele também faz pinturas na calçada e limpa chaminés.
  • David Tomlinson: Sr. Banks (George W. Banks) um homem frio e rígido que tenta manter ordem na casa, é o patrão de Mary Poppins; trabalha no banco Dawes Tomes Mousley Grubbs Fidelity Fiduciary Bank.
  • Glynis Johns: Sr.ª Banks (Winifred Banks)é a esposa de George Banks; parece ser uma mulher calma e pacata, mas na verdade é uma ativista que quer garantir o direito do voto às mulheres.
  • Karen Dotrice e Matthew Garber: Jane e Michael Banks, os filhos sapecas dos Banks, que fazem as babás desistirem muito rápido de trabalhar em sua casa, até que Mary Poppins chega e elas, além de se divertirem muito, viajam a lugares além da imaginação.

Anexo II— Canções:

· Overture / Chim-Chim-Chree
· Sister Sufragette (interpretada por Glynis Johns)
· The Life I Lead (interpretada por David Tomlinson)
· The Perfect Nanny (interpretada por Karen Dotrice e Matthew Garber)
· A Spoonful of Sugar (interpretada por Julie Andrews)
· Pavement Artist (interpretada por Dick van Dyke)
· Jolly Holliday (interpretada por Dick van Dyke)
· Supercalifragilisticexpialidocious (interpretada por Julie Andrews e Dick van Dyke)
· Stay Awake (interpretada por Julie Andrews)
· I Love to Laugh (interpretada por Ed Wynn, Julie Andrews e Dick van Dyke)
· A British Bank (interpretada por David Tomlinson e Julie Andrews)
· Feed the Birds (interpretada por Julie Andrews)
· Fidelity Fiduciary Bank (interpretada por Dick van Dyke e David Tomlinson)
· Chim Chim Ch-ree (interpretada por Dick van Dyke e Julie Andrews)
· Step in Time (interpretada por Dick van Dyke)
· A Man Has Dreams (interpretada por David Tomlinson e Dick van Dyke)
· Let’s Go Fly a Kite (interpretada por David Tomlinson, Glynis Johns, Karen Dotrice, Matthew Garber e Dick van Dyke)

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