O gênero musical em Yentl (Barbra Streisand, 1983)

Resumo: O artigo objetiva analisar as marcas do musical no filme Yentl (Barbra Streisand, 1983), no que diz respeito à performance. O trabalho será norteado pelo estudo de João Luiz Viera sobre cinema e performance. Busca-se descobrir como que as características expressivas da performance são resolvidas num musical sobre uma mulher que esconde sua identidade de gênero.

Barbra Streisand dirigindo e estrelando Yentl (fonte)

Yentl narra a história de uma moça que performatiza o gênero masculino para poder estudar o Talmud (a leitura do livro judaico era proibida para as mulheres no Leste Europeu, 1904, local e época em que se passa o filme). A adaptação musical para cinema foi baseada na peça homônima de Leah Napolin e Isaac Bashevis Singer, que por sua vez era baseada no conto Yentl, the Yeshiva boy, de autoria do próprio Singer. Barbra Streisand, além de interpretar a protagonista, dirige e produz o filme (além de dividir o roteiro com Jack Rosenthal), nesta produção da United Artists para a MGM.

No começo da história, Yentl surge com vestido e cabelos compridos. O filme começa com um plano fechado em livros que estão em uma carroça; a câmera abre e vemos a carroça entrando numa feira. O carroceiro fala: “Livros ilustrados para mulheres e livros sagrados para os homens”. Yentl pergunta ao vendedor: “Onde está escrito que mulher não pode ler?”

A proibição da leitura do Talmud para as mulheres judias vai fazer com que Yentl adote um visual masculino, passando-se por homem para poder ter acesso ao estudo. Depois do falecimento de seu pai, a personagem vai fazer a modificação visual e partir para o mundo em busca do conhecimento. Nessa procura, ela conhece Avigdor, um estudante de uma Yeshivá (instituição para o estudo do Talmud e do Torá), e se apresenta pelo nome de Anchel. A relação entre eles fará com que Yentl repense a performance de gênero masculino, já que se apaixona por Avigdor.

Neste que é considerado o primeiro musical de grande orçamento dirigido por uma mulher, Barbra Streisand, judia e mulher, traz para o cinema um musical que discute a questão do preconceito em relação ao acesso da mulher ao conhecimento no período retratado pela narrativa. Em depoimento para Ally Acker sobre o retrato dos judeus e das mulheres no filme, Streisand diz que sentiu a responsabilidade de:

“retratar os judeus de forma não estereotipada, para mostrar seu respeito pela aprendizagem e paixão pelo estudo. Eu também sentia uma responsabilidade em relação às mulheres. Na personagem de Hadass, por exemplo, eu não queria retratá-la como ela estava na história de Singer [a atriz se refere ao conto que inspirou o filme]. Ele tinha uma tendência a ser misógino. Eu adicionei um outro elemento — sua inteligência.” (ACKER, 1992)

I. Números musicais de Yentl

Yentl apresenta doze números musicais. As canções são:

1. Where is it written? — Yentl ainda não se disfarçou de homem. Após acompanhar o pai até o quarto, ela canta em frente ao espelho. A canção retrata a questão do acesso ao conhecimento que era restrito aos homens.

2. Papa, can you hear me? — Yentl já está com visual masculino. De cabelos cortados, a moça passa a noite no meio do campo. Ela acende uma vela e se dirige ao pai que faleceu. A música mostra a fé da personagem e sua ligação com seu pai.

3. One of those moments — Nesta sequência, Yentl é aprovada para participar da escola dos rabinos. Ela acerta uma pergunta feito pelo rabino. Enquanto o espectador vê as cenas da personagem junto aos colegas, a canção fala do conhecimento e do que ela aprendeu com o pai.

4. No wonder — O número mostra Yentl observando Hadass, a prometida de Avigdor. Todos estão à mesa e Yentl repara no modo como Avigdor olha para sua noiva. A cena mostra que Yentl está percebendo a feminilidade de Hadass e como está escondendo a sua.

5. The way he makes me feel — Esta canção surge numa sequência de autoconhecimento da personagem, da descoberta de sua sexualidade. Depois de ver Avigdor sem roupas, Yentl sai correndo e vai para seu quarto. Ela abre sua blusa e retira uma espécie de bandage, que encobre e aperta seus seios, para que seu busto não seja percebido. A personagem veste uma camisola e toca seu corpo levemente por sobre a roupa.

Ao ver Avigdor (Mandy Patinkin) nu, Yentl (Barbra Streisand) canta “The way he makes me feel”

6. No wonder (reprise) — Este número musical repete a canção já inserida no filme, mas agora ao invés de Hadass servir Avigdor, ela serve Yentl. Sem saber que Yentl é mulher, Hadass flerta com ela, já que seu noivado com Avigdor foi cancelado por seus pais.

7. Tomorrow night —Este número musical mistura cenas que ocorrem em tempos diferentes na narrativa. Yentl canta sobre o casamento que vai acontecer na noite seguinte com Hadass, ao mesmo tempo em que aparece experimentando a roupa da cerimônia no dia do casamento. Também aparecem cenas da cerimônia e de uma procissão em que ela está com uma vela e encontra Avigdor.

8. Will someone ever look at me that way —Nesta cena, Yentl também observa como Avigdor olha para Hadass, mas a relação fica mais triangular, porque Avigdor também olha para Yentl com intensidade.

9. No matter what happens —Hadass, acreditando que Yentl, seu marido, é um homem, tenta seduzi-lo. Yentl a rejeita sem poder explicar o porquê. Após tentar consolá-la e fazê-la dormir, Yentl percebe que não pode mais manter essa farsa, que jamais poderá olhar para Hadass de modo apaixonado, conforme a moça espera de um marido. Yentl vai para a área externa à noite. Ela sente que não pode mais esconder seus sentimentos e sua feminilidade, e que precisa revelar para Avigdor que é uma mulher, que está apaixonada por ele, e que já não pode ser a mesma, nunca mais. Quando volta para casa, beija a testa de Hadass, que está dormindo.

10. No wonder (reprise)— A melodia é a mesma, mas muda a letra. Na cena, Yentl se despede de Hadass para viajar com Avigdor para comprar livros em outra cidade, Lublin. No final da canção, após elogiar Hadass (“É a maravilha das maravilhas, é uma mulher”), acrescenta, no entanto, que ela mesma, Yentl, também é mulher.

11. This is one of those moments (reprise) — Trecho da canção se repete na cena em que Yentl se despede de Avigdor, no dia seguinte à noite em que revelou seu segredo, de que é uma mulher.A letra da música apresenta modificação. Desta vez, ao dizer que há momentos que se recorda por toda a vida, ela está e referindo a despedida de Avigdor: ‘Seu rosto estará escrito em minha mente.Estará escrita em meu coração.”

12. Piece of sky —Música final do filme. Na cena, Yentl está em um navio, entusiasmada pelo que virá pela frente em sua vida. Única canção em que ela aparece cantando próximo a outras pessoas. Ela está com roupa feminina e usa um lenço na cabeça.

Yentl (Barbra Streisand) no número final, “Piece of Sky”

II. Análise da performance de Yentl em Tomorrow Night

Segundo João Luiz Vieira:

No musical há uma espécie de diálogo direto implícito entre performance e plateia, o que pode explicitar o fato de que a narrativa de incontáveis músicas se desenvolve no espaço natural do teatro, do show business, ao contrário do espaço descontínuo do cinema. (VIEIRA, 1996, p. 341).

Em Yentl, a personagem não olha para a câmera, mas sua interação com o espectador pode aqui ser explicitada, como na canção Tomorrow night. Ao referir-se aos alfaiates que estão fazendo seu traje de casamento com Hadasss, Yentl tem as seguintes falas:

Olhem pra mim, devo estar completamente louca 
(…) Olhem, com que facilidade os engano
(…) Têm olhos, mas não veem, não me olham bem

Além desta fala direta, podemos perceber certo tom de cumplicidade de Yentl com espectador, por exemplo, em suas canções com tom de confissão. Sabemos o que ela sente ao ver Hadass sendo admirada por Avigdor. Sabemos que ela percebe a feminilidade da moça e que isso a faz lembrar que ela também é mulher. Apesar de não haver a quebra da quarta parede, ficamos cientes do que ela esta pensando através das canções e não por um diálogo com outro personagem ou pela figura de um narrador em terceira pessoa, pela transparência das emoções da personagem, expressas nas letras das canções.

A performance em Yentl também pode ser analisada pela questão do corpo. Segundo João Luiz Vieira, “[…] É nesse sentido que a performance se identifica com o corpo enquanto suporte, materializada numa apresentação ao vivo e diante, preferencialmente, de uma plateia.” (VIEIRA, 1996, p. 339).

Mais adiante, o autor afirma:

Gostaria de verificar alguns mecanismos textuais, principalmente aqueles que inscrevem o espectador no interior do texto, e que dizem respeito a sua posição no conjunto e estratégias retóricas que definem e caracterizam a performance musical. Aqui, a noção de performance necessariamente se amplia para incluir, além do corpo natural, a própria câmera cinematográfica’’ (VIEIRA,1996, p. 339).

Portanto, partindo deste princípio, podemos ver a performance do corpo de Yentl, quando canta Tomorrow night, em que os movimentos de câmera ampliam as possibilidades de expressão. Depois dos alfaiates colocarem o chapéu na cabeça de Yentl, há um zoom in da câmera se aproximando do chapéu preto que preenche toda a tela, recurso utilizado para o corte e passagem de tempo, numa antecipação da cena da cerimônia de casamento. Quando abre a cena, há movimentação de câmera e dos personagens, com Avigdor, sempre olhando para Yentl, atrás dela. Na cena em que ambos estão numa espécie de procissão, segurando velas, ele se movimenta, colocando-se de frente para Yentl, num movimento semi-circular, em que ambos os personagens ficam em diagonal diante da câmera. Eles estão no casamento de Yentl e Hadass.

Ela é a única mulher na cena. A canção diz: “podia fugir para qualquer lugar onde ninguém conheceria o meu rosto de homem nem de mulher”. Os dois se aproximam olhando fixamente um para o outro. Na performance, eles trocam de posição no quadro e ao fazerem isso parece que estão fazendo um passo de dança.

Logo depois, é retomada da cena no ateliê dos alfaiates girando em torno de Yentl, como se estivessem dançando, enquanto ela diz através da canção que o pai dela queria dançar na sua festa de casamento. Aparece a cerimônia onde todos estão dançando. Há alternância das cenas em que a personagem está no ateliê e no casamento. Ela termina a canção girando e quando termina de cantar, o espectador segue a sequência da cena do casamento.

III. Questões de gênero e sexualidade em Yentl

O musical apresenta números que são performatizados mais através do canto do que pelo movimento corporal. A expressão e comunicação do corpo com o espectador é ampliada pela câmera. Esta sutileza é coerente com o fato da personagem ser uma mulher que esconde seu corpo, contém seus desejos. A economia nos movimentos também pode ser relacionada à narrativa, que fala de religiosidade e introspecção.

A princípio, a decisão para performatizar o gênero masculino não se dá por dúvida de sua orientação sexual. No início do filme, a sexualidade de Yentl ainda não é uma questão importante pra ela. A troca de aparência acontece para que a personagem possa ter acesso ao conhecimento, permitido apenas para os homens. Ela questiona a posição da mulher na sociedade, as relações de gênero: Yentl não concorda com as atribuições destinadas às mulheres pela tradição da sociedade a qual estão inseridas.

Mas, se no início do filme, ela não se dava conta de sua sexualidade, com o desenrolar da trama perceberá seus desejos. Após o contato com Avigdor, Yentl terá maior consciência de seu corpo de mulher. Ao mesmo tempo, sua sexualidade também ganhará outro contorno ao conhecer Hadass. O filme não aprofunda a discussão sobre a sexualidade de Yentl, mas de forma sutil tensiona essa questão ao mostrar a relação da protagonista com Hadass. Na segunda inserção da música No Wonder, Yentl canta:

Não é de se admirar que ele a ame… 
[…] Sua suavidade… sua doçura… 
Como ele iria resistir? 
E por que iria tentar?
É claro que ele a deseja… 
Necessita-a…
Certamente eu também.

Já a relação de Yentl com Avigdor também traz outra questão relacionada à sexualidade para o filme. O desejo de Avigdor por Yentl é insinuado durante toda a narrativa. Avigdor sente atração ainda quando acredita que Yentl é um homem. Embora não entenda o que sente pelo amigo, seus olhos se perdem nos olhos de Yentl, em vários momentos. Em dois números musicais, já comentados anteriormente, isso fica bem destacado, no cruzamento de olhares em Will someone ever look at me that way e Tomorow night. E após Yentl dizer que é mulher e que o ama, Avigdor confessa: “Não queria te tocar. Me dava medo fazê-lo. Eu também te amava.”

O final da história mostra que o preconceito de gênero, na época e lugar retratados no filme, era muito difícil de ser derrubado. Embora perceba que também ama Yentl, Avigdor não consegue admitir que uma mulher estude o Talmud. A presença de Yentl na sua vida, no entanto, fará com que ele tenha coragem de procurar Hadass. Yentl diz a Avigdor que acredita que Hadass enfrentará a família para ficar com ele. Como dito no início deste artigo, Barbra Streissend se preocupou em tirar os estereótipos em relação à mulher, retratando Hadass como uma mulher inteligente, com discernimento. Yentl fala para Avigdor: “Não acredito que Hadass ouvirá mais seus pais”.

Considerações finais

Yentl é o primeiro musical de grande orçamento dirigido por uma mulher. A direção de Barbra Streisand é de um olhar atento para a questão feminina, tanto sobre o acesso das mulheres ao conhecimento quanto para a sexualidade. Yentl termina o filme em um navio de imigrantes. Ela atravessa o mar em busca de um lugar onde possa ser ela mesma e exercer o direito de refletir e questionar o conhecimento, o que era negado às mulheres.

Referências bibliográficas:

ACKER, Ally. Women. “Women behind the camera — feminist or filmmakers”, Agenda: Empowering women for gender equity, vol. 8, n. 14, 1992, p. 42–46.

VIEIRA, João Luiz. “Cinema e Performance”. In: XAVIER, Ismail (org.). O Cinema do Século. Rio de Janeiro: Imago, 1996.