O Sapo, o Mágico e o Jazz: The Wiz (1978) e A Princesa e o Sapo (2009)

Resumo: O presente artigo tem por objetivo realizar releitura e análise de duas obras cinematográficas de gênero musical e elenco majoritariamente negro: The Wiz (Sidney Lumet, 1978 — no Brasil, O Mágico Inesquecível) e A Princesa e o Sapo (Ron Clements e John Musker, 2009), sob a perspectiva de seus principais números musicais e narrativas, destacando do ponto de vista histórico e cultural a importância e representatividade da cidade de Nova Orleans para com a identificação dos valores negros.

Introdução: um breve histórico do negro nos palcos

O início da representação negra nos palcos norte-americanos deu-se por volta de 1843, através de práticas degradantes e preconceituosas também, conhecidas como blackface, que consistiam em representações teatrais com cunho cômico e que normalmente ocorria nos shows de menestréis, que reuniam também dança e música, provando proximidade com os espetáculos musicais. Acontece que essa prática vendia uma imagem estereotipada do negro americano, que interpretado por artistas brancos que pintavam a pele com carvão de cortiça, demarcavam traços exagerados e caracterizavam o negro como preguiçoso, falastrão, supersticioso e musical.

Na época, era proibido que pessoas negras fizessem parte desses grupos então, com o tempo, começaram a formar-se grupos paralelos, provando que por mais ofensivo que o blackface fosse, ainda seria possível pintar pessoas negras para que participassem, desde que usassem luvas. Com o tempo, esse disfarce de identidade racial ficou desnecessário, mas a imagem do negro em palco ainda era restrita a esses espetáculos racistas e, após a Guerra Civil, em 1876, formou-se o primeiro elenco negro a se apresentar sem maquiagem: o “Callendar’s Minstrels”. O conteúdo, no entanto, não mudou, ainda perpetuando estereótipos negativos contra negros, já que era a única maneira com que fosse aceitos por brancos em palco.

Em 1902 foi produzida a primeira comédia musical negra, In Dahomey, apresentada na Broadway. No entanto, mesmo que com o tempo as temáticas raciais tenham ganhado força não só no cenário musical, mas também social, ainda reafirmou-se ser o negro em palco e à frente das câmeras um tabu. Os grandes musicais da MGM da década de trinta, por exemplo, possuem um elenco branco e tal prática se repete no gênero, provando que as temáticas negras são rejeitadas no meio cultural até hoje. Sendo assim, será priorizada a análise comparativa de The Wiz (Sidney Lumet, 1978, lançado no Brasil como O Mágico Inesquecível) e o desenho animado da Disney, A Princesa e o Sapo (Ron Clements e John Musker, 2009), dois marcos para a representatividade negra e com importante elo cultural com a Cidade de Nova Orleans.

I. Em Nova Orleans: Deixe os bons tempos rolarem”

Fundada originalmente por franceses, Nova Orleans é resultado da fusão de culturas francesa, espanhola e afro-americana e, de acordo com o Censo de 2010 dos EUA, está entre as dez cidades com maior concentração de negros nos Estados Unidos. O grande legado está em suas manifestações culturais — como Mardi Gras — em que se destaca a música. Nova Orleans é conhecida dentre seus muitos outros nomes, como a “Capital do Jazz”.

Durante o século XIX, em Nova Orleans os escravos tinham autorização para portar tambores e rituais de Voodoo eram tolerados, favorecendo a valorização da cultura afro-americana que posteriormente serviu de alicerce para o surgimento de um gênero musical resultado da mesclagem das músicas que se ouvia em igrejas com as músicas que ouviam em bares e a própria cultura africana, o Jazz:

Aquilo fez as pessoas se sentirem vivas! Fez as pessoas se levantarem e dançarem. E eles dançaram pelo nascimento da música americana. E ninguém tocava como tocavam em Nova Orleans, uma cidade já acostumada a se sentir jubilante e expressar seu júbilo. Uma cidade onde você pode dançar no meio da rua, no meio do dia, no meio da semana e no lugar de pessoas perguntando-se por que você não está no trabalho, eles estariam se perguntando como poderiam juntar-se a você. A glória de Nova Orleans é que é ainda desse jeito hoje. Todos amam um desfile. Todos são tocados pela joia anárquica chamada Jazz de Nova Orleans.
(Retirado do New Orleans Official Guide, disponível aqui).

O Jazz não tem uma demarcação certa de origem, limitando-se ao século XIX, justamente por ter sido resultado de uma fusão constante de culturas e estilos musicais como o folk, o soul, o blues e ritmos africanos e caribenhos. Seu desenvolvimento em Nova Orleans está associado à vida comunitária nas cidades, difundido juntamente à ideia de “alegria”, “paixão” e “autenticidade”, definidos no lema da cidade: “Deixe os bons ventos rolarem”. Esses estilos musicais que surgiram e se difundiram em Nova Orleans nascem como marco para autenticação e valorização da cultura negra, diante das conquistas que obtiveram principalmente na música, e tal representatividade justifica a forte influência nos números do musical de Sidney Lumet, bem como na animação da Disney que será discutida a seguir.

II. O Sapo

Em A Princesa e o Sapo, a representatividade dos valores da comunidade de uma Nova Orleans da década de 20 é significativo. No entanto, permanece a imposição de estéticas culturais de origem europeia, vistas principalmente através das idealizações da personagem principal, Tiana, uma jovem cozinheira cujo sonho seria o de administrar um restaurante na cidade. Entre muitas especificações, o filme também retrata uma mulher forte que almeja alcançar seu sonho, e para isso trabalha muito para juntar suas economias e comprar o espaço para o restaurante, o que remete à meritocracia pregada pelo valor americano exportado, o American Dream.

Contudo, quando aplicado à história vivenciada pela população negra, especialmente da periferia, essa ideologia, que em si já consiste em um conceito errante, chega ao abismo. Numa cidade em que a população negra é a maioria, o filme expõe como principal figura nas representações culturais como o Mardi Gras, um homem branco e de uma família rica.

Tiana é desvalorizada pelos homens de quem quer comprar o espaço para o restaurante. Numa das cenas do filme, um deles a noticia que receberam uma oferta melhor e em dinheiro, desconsiderada a dela, em economias. Tiana reluta, mas a decisão se mantém e um deles ainda discursa sobre o fato de uma “mulherzinha” como ela, de onde ela vem, ter dificuldades ao dirigir um negócio que ela planejava. Isso executa a desvalorização do negro, mas também da mulher na sociedade e o filme surge num contexto de expor esse tipo de prática. Dessa maneira, ela entra em conflito com os próprios valores meritocráticos ao negociar com o príncipe Naveen o dinheiro para o restaurante em troca de um beijo. Acontece que por ela ser uma princesa, o feitiço volta-se contra ela. O bruxo, Doutor Facilier, é praticante de Voodoo, que é visto de forma pejorativa no filme tanto em relação a ele quanto à Mamma Odie, uma senhora cega que vive no pântano e também pratica Voodoo e poderia ser uma esperança para que pudessem voltar à forma humana.

A trama é bem linear, seguindo o padrão de outras animações das “Princesas” da Disney, exibindo valores culturais afro-americanos através não só da cidade, mas da fala com uso de gírias e maneirismos típicos do subúrbio americano. Em termos de números musicais, é rico em características básicas de “comunidade” e “transparência” (DYER, 2002), e alguns serão analisadas a seguir.

O primeiro número destacado, “Lá em Nova Orleans”, define justamente as características socioculturais de uma população afro-americana. O número em si já agrega as características de comunidade e alegria e perpetuados sob a imagem da cidade. É citado música na letra e a influência do Jazz é clara.

Em “Quase Lá”, Tiana ganha espaço apresentando seu sonho para a mãe e a letra expressa o fato de as pessoas não acreditarem que ela possa conseguir sucesso: “as pessoas acham que eu sou louca!”. Nesse caso, a influência do Jazz e blues também é forte. O que incomoda é o fato de o sucesso parecer estar atribuído à proximidade com estéticas europeias, como o vestido branco de Tiana e o cabelo chanel.

Os demais números seguem esse padrão de representatividade através principalmente da música e do senso de comunitarismo pregado. As performances são em maioria em grupo, provavelmente para trazer essa ideia de forma mais forte em termos de estética. A escolha de Nova Orleans na ambientação é fundamental pelo símbolo que a cidade se tornou logo após a culminância dos eventos culturais através principalmente das músicas.

III. O Mágico

Em The Wiz (no Brasil, O Mágico Inesquecível), o marco da representatividade negra é muito mais forte em diversos aspectos, o primeiro é o elenco composto apenas por pessoas negras, o segundo é a singularidade ao trazer diferente perspectiva cultural para um musical tão conhecido e significativo para a população norte-americana. O “Mágico de Oz” reflete os ideais da população norte americana sob perspectivas conservadoras. The Wiz surgindo nesse contexto é revolucionário.

O elenco de The Wiz: Nipsey Russell, Diana Ross, Michael Jackson e Ted Ross

As canções possuem cunho muito significativo, como na performance de “You can’t win” com Michael Jackson. Essa performance revela inteiramente o que ficou implícito na cena de Tiana com os vendedores do espaço. A sociedade pode tentar impor contra o negro, tentar fazê-lo desistir porque ainda hoje será visto como “inferior”, mas, ao mesmo tempo, a música tem um cunho otimista e como em toda história fantástica, há reconhecimento e aceitação. Esse discurso permanece ao longo do filme e é mais forte no final, quando descobrem que o que buscavam estava neles o tempo todo, ou seja, voltamos à meritocracia:

Enquanto brancos estavam fascinados com os ídolos e temas do Maravilhoso Mágico de Oz, afro-americanos criaram e recriaram gerações de crianças na promessa para o triunfo, a alma de Motown e a crença em mensagens de atores negros e acreditar nas mensagens quando emergem com “A Brand New Day.” (CURRY, 2008)

A cidade de Nova Orleans já não é tão significativa para esse longa. Apesar de a personagem de Diana Ross ser originária de lá, esse sentido que traz a cidade não fica explícito. O que fundamenta os valores da cultura negra é a riqueza nas canções, muitas delas com ritmos afro-americanos, nos cenários, que remetem a locais reais e próximos (na medida do fantástico) da realidade. As performances são ricas em cores, detalhes e representatividade, à medida em que valorizam os movimentos do corpo e trazem novamente o aspecto de comunidade. Esse aspecto está fortemente ligado à cultura africana tribal e novamente ao significado acolhedor da população de Nova Orleans. Em termos propriamente de performance, o destaque em “The Wiz” é “A Brand New Day”, simbolizando o renascimento e os novos ares para a representatividade negra na sociedade, o senso de respeito e igualdade.

Considerações finais

Apesar das propostas inclusivas ainda sofrem influências da cultura eurocêntrica impostas, em The Wiz (1978) a representatividade dos valores negros é bem mais significativa. No entanto, ao mesmo tempo, a cultura negra é colocada principalmente num imaginário fantástico. Na casa de Dorothy, por exemplo, apesar da grande família e do senso de comunidade, ainda apresentam influência que vai desde as roupagens até a decoração na casa. No caso da animação da Disney de 2009, o negro retratado ainda é aquele negro da periferia que trabalha para um branco e se relaciona com outros negros no ambiente social. De certa forma os valores culturais propriamente afrodescendentes são ocultados, mostrando elementos da cultura africana, como o Voodoo, como atos de bruxaria e atípicos à sociedade. Novamente, a cultura negra é colocada em lugar do imaginário e do exótico, fora da realidade. No caso da animação, não há um número que, em específico, valorize a representatividade da cultura negra. Os números refletem influências da cidade que, porventura, têm ligação muito forte com essa representatividade. No caso de The Wiz, a proposta em si já é idealista, buscando valorizar os aspectos provenientes da cultura negra. Esses aspectos estão difundidos em Nova Orleans, palco de ambos os musicais, o que prova que a representatividade negra ainda é maior na música do que em outros como religião, roupagem. Além disso, ambos os musicais foram um fracasso de bilheteria, o que prova que a sociedade ainda veste máscaras um pouco distintas da blackface, mas em parte, tão preconceituosas quanto.

*Todas as traduções de texto presentes neste artigo são de minha autoria.

Referências bibliográficas:

AZEVEDO, Amailton Magno; SILVA da Sheila Alice Gomes. “Era Uma Vez…”: O Negro No Imaginário Encantado. Sankofa, Revista de História da África e de Estudos da Diáspora Africana, Ano VII, Nº XIV, Dezembro de 2014.

BUNCH,Ryan. Oz and the musical: The American art form and the reinvention of the American fairy tale. Studies in Musical Theatre, vol. 9, n. 1, 2015.

CASSELMAN, Ben. Katrina Washed Away New Orleans’s Black Middle Class. Disponível em: http://fivethirtyeight.com/features/katrina-washed-away-new-orleanss-black-middle-class/ (Acesso em 01 de agosto de 2016).

CURRY, Tommy. “When the Wiz Goes Black, Does It Ever Go Back?”. In: AUXIER, Randall, SENG, Phillip (ed.). The Wizard of Oz and Philosophy: Wicked Wisdom of the West. Open Court, 2008.

LUMET, Sidney. Making Movies. New York: Vintage, 1995.

TAUBIN, Alyssa. The American Musical in Black and White: How race relations in the United States directly affected the development of musical theatre (2015). (Acesso em 1 de agosto de 2016).

Links (Acesso em 03/08/2016):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Blackface
https://pt.wikipedia.org/wiki/Minstrel_Show
https://pt.wikipedia.org/wiki/Nova_Orle%C3%A3es
https://en.wikipedia.org/wiki/The_Princess_and_the_Frog
http://www.neworleansonline.com/neworleans/music/musichistory/jazzbirthplace.html (Acesso em 31/07/2016)
https://www.nps.gov/jazz/learn/historyculture/jazz_history.htm (Acesso em 31/09/2016)

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