Pocahontas e Mulan: A Indecisão e a Culpa

Resumo: Esse trabalho busca abordar como as princesas consideradas ‘rebeldes’, como Pocahontas (Mike Gabriel, Eric Goldberg, 1995) e Mulan (Tony Bancroft, Barry Cook, 1998), ainda se encontram de alguma forma no modelo de feminilidade existente desde as ‘clássicas’ e como elas são de certa maneira submissas à figura paterna, devido a culpa por desonrá-los para seguirem o caminho que desejam, baseando-se no número musical solo de cada uma no começo dos filmes.

Pocahontas

As princesas da Disney foram separadas em três gerações, de acordo com suas características e época em que os filmes foram produzidos. A primeira geração, que vai de 1937, com Branca de Neve e os Sete Anões (David Hand), até 1959, com A Bela Adormecida(Wolfgang Reitherman, Clyde Geronimi), recebeu o nome de princesas clássicas. A segunda geração vai de 1989, com o lançamento de A Pequena Sereia (Ron Clements, John Musker), depois de uma pausa de 30 anos da Disney na produção de filmes de princesas, até 1998, com Mulan (Tony Bancroft, Barry Cook), e recebeu o nome de princesas rebeldes. Já na terceira e última geração encontran-se as princesas dos últimos anos, do século XXI, que começou em 2009, com A Princesa e o Sapo (Ron Clements, John Musker) e, tendo o último lançamento em 2013, com Frozen: Uma Aventura Congelante (Jennifer Michelle Lee, Chris Buck), essas receberam o nome de princesas contemporâneas.

Nem todas essas consideradas princesas da Disney são princesas por sua posição na realeza, mas “assim são consideradas em decorrência da construção de sua índole” (CARVALHO, 2014, p. 10). Esses filmes tinham e ainda têm grande influência na formação de meninas — seu principal público alvo. Essa índole definia o jeito que as meninas de cada época deveriam ter, como deveriam se comportar para serem consideradas princesas, meninas “direitas”, sendo assim eram construídos por tais filmes estereótipos de feminilidade a serem seguidos.

Esses estereótipos foram sofrendo modificações, por vezes leves, em cada filme para se adequar às mudanças culturais e políticas do mundo — mais necessariamente às mudanças culturais e políticas norte-americanas, pois apesar de ser uma grande franquia no mundo, as princesas Disney seguem um padrão norte-americano. Essas mudanças são feitas para se adequar ao público feminino que, por exemplo, em 1989 não mais se identificava com os padrões impostos em 1937, sendo assim, outra princesa no estilo clássica não seria tão bem recebida.

As princesas clássicas são representadas pelas princesas mais ‘frágeis’, passivas e as mais submissas. Elas aceitam as humilhações que sofrem e se conformam com a rotina em que vivem, sempre calmas e gentis, pois era assim que a mulher era representada na época, aceitando tudo que lhe era imposto, sempre fazendo seu papel de ‘boa moça’, aquela que não levanta a voz. E assim, a única forma de se livrar de todo o sofrimento, seria com a chegada do príncipe encantado. “A salvação de sua rotina de humilhações está novamente num homem, ou precisamente, no casamento. ” (FERREIRA, 2015, p. 33).

As princesas rebeldes já não eram indefesas e não ficavam à espera de um príncipe para lhes salvar. Nesses 30 anos sem filmes (com esse protagonismo), o papel da mulher na sociedade havia mudado bastante devido ao crescimento dos movimentos feministas na década anterior, 1970. As princesas desse período já possuem bastante personalidade, elas tomavam as rédeas da própria vida, eram independentes e não viviam em prol de um príncipe como forma de salvação de sua vida.

As princesas contemporâneas também são independentes e de personalidade forte, elas “mostram a nova realidade das mulheres do século XXI.” (FERREIRA, 2015, p. 40). Elas lutam pela sua independência, querem mais do que casamento e não precisam de homens para fazer o que querem, eles são uma escolha, pois elas possuem esse direito de escolha.

No entanto, apesar da evolução que as rebeldes e contemporâneas tiveram, elas ainda seguem um certo modelo de feminilidade criado que desde as clássicas é imposto as meninas e aos quais a sociedade crê que elas devem se adequar — sendo esse modelo possuir traços finos, serem magras, terem uma fala mansa e serem gentis. Assim, a feminilidade é um conceito culturalmente associado a passividade e/ou a inferioridade, que eram bem mais visíveis nas clássicas, mas que ainda não se desconstruiram totalmente, nem na sociedade, muito menos nos filmes de princesas da Disney. O termo atribuído às princesas da segunda geração, ‘rebelde’, também se associa ao modelo criado culturalmente e ao qual se espera que uma mulher se adeque, sendo assim, no momento em que ela não se encaixa nesse modelo, ela é considerada ‘rebelde’ — quando decide seguir seu próprio caminho, buscar mais da vida além de um homem que a salve, isso a torna diferente, transgressora, sendo que ela apenas está fazendo o que deveria poder desde sempre, que é ser livre e ela mesma, sem ter que seguir algo que lhe foi imposto socialmente. Sendo assim, o termo ‘rebelde’ para denominar essa geração talvez não seja o melhor termo escolhido.

Mulan e Pocahontas (Mike Gabriel, Eric Goldberg, 1995), da segunda geração, mostram que apesar dessa geração ter mais personalidade e ser independente, ainda não se livraram completamente da submissão ou do peso que este possui. Ambas possuem uma relação forte com a família — não apenas, mas com seu povo e sua cultura também –, sendo a relação com seu pai mais forte. Elas procuram honrá-lo, não decepcioná-los e então a vontade de ir em busca de seu destino e fazer o que desejam as causam hesitação por causa de um sentimento comum a ambas no início: a culpa, que é representada por números musicais solos de cada uma das princesas (sentimento comum não apenas a elas, mas também em Frozen: Uma Aventura Congelante, pertencente a terceira geração, tal culpa é representada em Elsa, que se culpa por seus poderes, pelo que ela realmente é e guarda pra si, até seu momento musical em “Let it Go”).

Essa culpa é um sinal de que a mulher já está predeterminada a seguir o que lhe foi imposto, ser uma boa filha e fazer o que o pai manda, e quando ela decide fugir disso, ela não consegue ser completamente livre, se sente culpada — no entanto, ao decorrer dos filmes, esse sentimento acaba e elas seguem o caminho que desejam, com seus pais orgulhosos, ou seja, o sentimento só acaba quando elas conseguem a aprovação do pai.

Os números musicais, como diz Richard Dyer, buscam representar um mundo utópico, não a forma como essa utopia estaria organizada, mas como seria essa sensação de utopia:

“Alternativas, esperanças e desejos — essas são as coisas da utopia, a sensação de que as coisas podem ser melhores, que alguma coisa, ao contrário do que já é, pode ser imaginada e talvez realizada.” (DYER, 2002, p. 20).

Essa sensação da utopia, Dyer dividiu em cinco categorias: energia, transparência, intensidade, abundância e comunidade.

Em Pocahontas, após uma conversa com seu pai, no qual ele diz que ela deve se casar com o grande guerreiro da tribo, pois ‘ele pode protegê-la de todos os perigos’, indiretamente dizendo que ela sozinha não seria capaz de fazer isso, Pocahontas diz que não é esse o caminho que seus sonhos apontam — mas seu pai insiste dizendo que este é o caminho certo para ela e, comparando a situação com o rio, ele diz que ela deve fazer como o rio e escolher o caminho mais estável. Na conversa, Pocahontas foi ‘doce’ e ‘boa filha’ e não foi capaz de contestá-lo, ela hesitou e acabou não o fazendo, não dizendo seu verdadeiro sonho de explorar o que tem “logo após a curva do rio”, usando a mesma comparação com o rio, o que desencadeia no número musical solo dela, “Logo Após a Curva do Rio”, no qual Pocahontas expressa duas das sensações de utopia ditas por Dyer, a transparência e a intensidade.

Ela faz o uso dessas duas sensações, pois sozinha ela pode dizer seus anseios e enquanto canta, ela rema com fervor no rio. Toda a sua dúvida em relação a qual caminho seguir é expressada, a indecisão surge, pois ela sente que deve honrar seu pai, seus costumes e sua tribo e é algo difícil de deixar de lado:

“Como posso ignorar o som distante dos tambores
Por um belo e robusto marido
Que construa belas e robustas paredes
E nunca sonhar que algo deva estar por vir?”

A tristeza de não seguir seu sonho e a tristeza por não obedecer seu pai a persegue no final da música. Ela considera, mesmo que apenas nesse momento, abrir mão do seu espírito aventureiro, do que ela é, para não desonrar o pai. Ela expressa no número o que se passa dentro dela de forma honesta e intensa.

Fotograma tirado do filme Pocahontas (1995) do número musical “Logo Após a Curva do Rio”

“Eu deveria escolher o curso mais fácil
Estável como a batida do tambor?
Eu deveria me casar com Kocoum?
Todo meu sonho está chegando ao fim?”

A indecisão não é apresentada apenas na letra ou nas expressões que ela faz ao cantar, mas também pelo caminho que ela percorre enquanto canta, na parte visual do filme, como na imagem abaixo:

Fotograma tirado do filme Pocahontas (1995) do número musical “Logo Após a Curva do Rio”

O que aflige Pocahontas é mais a indecisão do que a culpa de fato, ela não sabe qual caminho seguir, por querer agradar o pai, mas também viver a própria vida livremente. Ao longo do filme, Pocahontas no entanto não precisa realmente fazer a decisão se deve ou não casar com o guerreiro Kocoum, os acontecimentos seguintes acabam determinando seu destino. No final, no entanto, Pocahontas tem que realmente tomar uma decisão sobre o que fazer, mas ela escolhe seu caminho de forma independente, mostrando que ela não fez aquilo por obrigação, mas porque foi de sua vontade — pelo menos sendo isso o que o filme deseja passar.

Em Mulan, ela precisa se encontrar com a casamenteira e mostrar que conhece todas as regras para ser uma perfeita noiva, pois só assim ela irá “trazer honra a todos”, como é visto em um número musical com essa letra. No entanto Mulan não está dentro dos padrões de princesa, ela não é delicada e não é boa com os afazeres de uma boa noiva ditado pela sociedade em que ela vive — porém Mulan ainda se encaixa em alguns dos padrões de feminilidade, ela é sempre gentil e faz de tudo para ser uma boa filha.

Mulan é muito apegada à sua família e está disposta a tentar ser alguém que ela não é para não os decepcionar, porém ela falha e causa o maior desastre no seu encontro com a casamenteira. Após o encontro, ela fica se sentindo extremamente mal e culpada por ter destruído a chance de honrar sua família e nem quer que o pai a olhe na cara, pois sente vergonha, pois admira sua figura paterna. Essa decepção e culpa desencadeia o número musical solo de Mulan, “Reflexão”, onde é possível encontrar as mesmas sensações definidas por Dyer que se encontram no número musical de Pocahonta: a intensidade, expressa por todo o seu sofrimento com o que havia acabado de acontecer, e a transparência, por expressar o que realmente sente, de forma honesta e delicada.

Fotograma tirado de Mulan (1998) do número musical “Reflexão”

“Olhe para mim
Eu jamais serei uma noiva perfeita
Ou uma filha perfeita
Será que este papel não é para mim
Agora eu vejo
Que se eu fosse realmente quem quero
Eu partiria o coração da minha família”

No trecho da música acima, Mulan mostra abertamente que esconde quem é para tentar não decepcionar a família. Apesar de seu desejo de ser quem ela realmente é, ela esconde e tenta fazer o papel que esperam dela — o papel que se espera de todas as meninas — , de ser uma boa filha, passiva, que abre mão do que deseja em prol da felicidade dos seus pais.

“Quando meu reflexo vai mostrar
Quem eu sou
Por dentro”

Fotogramas tirados de Mulan (1998) do número musical “Reflexão”

Na música, ela expressa com honestidade sua tristeza pela decepção causada, a culpa sentida por não conseguir atingir as expectativas dos pais, e também o seu desejo por um dia ser capaz de mostrar quem ela é, sem culpa. No entanto, Mulan está disposta a uma vida de submissão e escondendo que ela realmente é apenas para honrar seu pai.

Seu futuro, porém, é decidido com a guerra e a convocação de seu pai para lutar. Devido ao seu laço forte com o pai, ela não quer deixá-lo ir, e como está acostumada a uma vida de esconder quem realmente é, ela decide se “vestir de homem” e ir para a guerra no lugar do pai. Mulan tem uma personalidade forte e ao ir para guerra, ela descobre sua independência — ela então é capaz não apenas de ser, mas de descobrir quem é ela, seu reflexo finalmente vai mostrar quem ela é por dentro. No final ela traz honra para seu pai, sua família e todo seu povo, mas não da forma esperada, não ao se comportar e servir bem o marido, mas ao ir para guerra e salvando seu povo. Porém, se essa guerra não tivesse acontecido, ou pelo menos se o seu pai não tivesse sido convocado, Mulan provavelmente continuaria se submetendo a ser alguém que não é, com culpa de mostrar seu verdadeiro eu.

Considerações finais

Apesar da evolução que ocorreu das princesas clássicas para as rebeldes, pode-se observar ao analisar Pocahontas e Mulan que elas ainda não possuem um sentimento total de liberdade para ser quem realmente desejam: uma é perseguida pela indecisão e a outra pela culpa. Apesar de elas de fato possuírem bastante personalidade e um desejo por tomar conta da própria vida, esses sentimentos as fazem hesitar e no final elas nem ao menos precisam tomar essa decisão, livres de culpa — o destino decide por elas, baseando-se no seu desejo de ser uma boa filha e honrar a família, não ao contrário, elas não decidem o seu destino baseando-se em suas próprias vontades. No entanto ambas acabam descobrindo sua independência e coragem para ser quem são sem culpa no final. Os números musicais expressam suas indecisões e servem de anúncio de ponto de virada da história, pois a partir daquele momento, algo acontece que muda completamente seu destino, fazendo com que assim elas possam ser quem sempre quiseram.

O sentimento de indecisão e culpa se encontra presente ainda nas princesas da terceira geração, no entanto, apesar de tal sentimento, nesses filmes elas já são capazes de decidirem o próprio destino, como em Enrolados (Nathan Greno, Byron Howard, 2010), em que apesar da culpa por desobedecer sua ‘mãe’, Rapunzel sai em busca do que quer mesmo assim. Nessa geração já os números musicais não são sobre suas indecisões e dificuldades em ser quem são, eles anunciam a sua tão desejada liberdade, como em Enrolados com o número “Quando Minha Vida Vai Começar” e em Frozen: Uma Aventura Congelante, com “Let It Go”.

Portanto, há de fato uma evolução nas gerações de princesas, mesmo que pequena de um filme para o outro, e também uma evolução do uso dos números musicais que acontecem em um momento de virada das histórias, essa mudança do que as músicas desses momentos representam também fazem parte da evolução existente nas gerações para se adaptar e melhor representar as mulheres da época dos filmes.

*Todas as traduções de texto presentes neste artigo são de minha autoria.

Referências bibliográficas:

AGUIAR, Eveline Lima de Castro; BARROS, Marina Kataoka. A Representação Feminina nos Contos de Fadas das Animações de Walt Disney: a Ressignificação do Papel Social da Mulher. XVII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste. Rio Grande do Norte, 2015.

CARVALHO, Ana Elisa Alves de. Personagens femininas em animações dos Estúdios Disney : Transformações de perfis em mulheres complexas. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2014. p. 10–13.

DYER, Richard. “Entertainment and utopia”. In: DYER, Richard. Only Entertainment. London: Routledge, 2002. p 19–35.

FERREIRA, Julia da Silveira. Valente e Frozen: A Nova Princesa da Disney. Rio de Janeiro: Escola de Comunicação — UFRJ, 2015. p. 28–43.

LOPES, Karine Elisa Luchtemberg dos Santos. Análise da Evolução dos Estereótipos das Princesas Disney. Brasília: Centro Universitário de Brasília — UniCEUB, 2015. p. 31–48.

Valkirias, O Modelo de Feminilidade das Princesas Disney. Disponível em: <http://valkirias.com.br/modelo-feminilidade-princesas-disney/>. Acesso em 2 de agosto de 2016.