Smash e o corpo político de Marilyn Monroe

Resumo: Este artigo busca analisar o musical “Bombshell” da série Smash e como os números reforçam ou modernizam os estereótipos de Marilyn Monroe. Através da análise de 4 apresentações (“Let Me Be Your Star”, “The 20th Century Fox Mambo”, “Dig Deep” e “Don’t Forget Me”), o texto avalia como essas performances, ao invés de mostrar o que há por trás dos bastidores, reforçam as principais idealizações de entretenimento.

Logo no início de “Bombshell”, peça ficcional da série Smash (Theresa Rebeck, 2012–2013), o palco está todo apagado, com algumas luzes estrategicamente colocadas acima de cinco garotas: quatro atrás e uma na frente. A que está à frente é Norma Jeane Mortenson, que futuramente virá a se tornar Marilyn Monroe. Ela não é como as outras garotas. “Você não é nada, seu pai te abandonou porque ele não gostava de você”; “Sua mãe é louca”; “Ninguém quer você” — assim as três mulheres se dirigem a Norma Jeane Mortenson, que se volta para a plateia e começa a entoar os primeiros versos de “Let me Be Your Star” [1:02–1:58] (S01E02 — The Callback). A canção é uma ode de Marilyn ao público, mostrando o lado mais humano da estrela. Norma Jeane quebra a quarta parede e canta para a plateia: Fade in on a girl/ with a hunger for fame/ and a face and a name to remember. (Fade in em uma garota/ com fome pela fama/ e um rosto e um nome de se lembrar).

Norma Jeane Morrison encara a plateia enquanto é rechaçada por outras mulheres. O holofote principal está sobre ela pois possui algo que “as outras não tem”.

O espetáculo começa a partir da ambição de Norma Jeane, ela não é uma das que está ao fundo no coro do bullying, e sim à frente no palco. Marilyn Monroe representa toda uma ideia sobre sexo e o que ele representava para a sociedade da época (DYER, 2004, p. 18–24). Ela implora — sempre para o espectador masculino — que deixe ela ser uma estrela, enquanto as outras garotas tentam amedrontá-la. O símbolo sexual está aberto para que se entre em suas memórias. Nos versos: “She do what she can/ for the love of one man/ and for millions to love from a far” (Ela faz o que pode/ pelo amor de um homem/ e pelos milhões que amam ela de longe), é possível perceber a relação direta de Marilyn com o espectador masculino e com os homens como parte de sua essência.

A retomada de seu carisma “natural” é na verdade uma tentativa de restabelecer com o público as principais ideias que circundam Marilyn. A série foi lançada como homenagem aos 50 anos da morte da estrela e também na retomada de um discurso sexual “libertador”. A questão é que por trás de todo discurso existe uma intenção hegemônica (FOUCAULT, 2015, p. 12–17) e a sexualidade de Marilyn carrega consigo padrões conservadores de raça e gênero. Sua ascensão não foi por acaso e representou uma vontade da mídia de enriquecer através do sexo.

A construção da estrela fica mais clara no número “The 20th Century Fox Mambo” (S01E02 — “The Callback”), que mostra as primeiras transformações de Norma Jeane para se tornar o ícone hollywoodiano. Quando a aspirante chega aos estúdios da 20th Century Fox, ela está preparada para ser moldada na “máquina que faz os sonhos se tornarem realidade”. A performance começa com um “mito de espontaneidade” onde o cenário é montado pelos próprios dançarinos, num processo de “bricolagem”(FEUER, 2003, p. 17). Norma Jeane mergulha nos estúdios, tecidos e maquiagem. “Are you ready to make someone new? (Você está pronto para fazer alguém novo?)” desafia a futura Marilyn, que já carrega em si a identidade sexualizada na frase “I can do with clothes or undressed” (Posso fazer com roupas ou pelada).

Ao invés de Norma Jeane ser uma garota ingênua, como é normalmente retratada em suas biografias, Smash apresenta uma protagonista que sabe o que quer e está disposta ao “teste do sofá” para isso. Ela tem o controle do próprio corpo, ao mesmo tempo em que molda-o para um formato mais comercial. É nesse número que percebemos como Marilyn é uma personagem, uma fantasia. No final da performance os dançarinos escondem Norma Jeane, para que ela possa ser erguida de forma triunfante como Marilyn, já loira e com nariz operado. O tingimento de cabelo tem um sentido na transformação da atriz:

““Loirice”, principalmente platinada (oxigenado), é o maior sinal de “brancura”. O cabelo loiro é frequentemente associado à riqueza, seja pela escolha do termo “platinado” ou nas pin-ups onde o cor do cabelo precisava combinar com suas joias. (Devemos lembrar do título do calendário que Monroe posou nua, Golden Dreams). E “loirice” é racialmente inequívoco. Deixa a mulher branca diferente da mulher negra, asiática, e ao mesmo tempo garante ao espectador que ela é um artigo genuíno.” (DYER, 2004, p.40)
Loira e com nariz operado, finalmente Norma Jeane se torna Marilyn Monroe e está pronta para conquistar o mundo.

Ao privilegiar o aspecto do sexo, e principalmente das roupas e cirurgias plásticas, reforça a imagem de que Marilyn vivia para o sexo, para ser notada, de preferência pelo olhar masculino. No ano seguinte em que a estrela assinou o contrato, estrelou em seu primeiro longa The Shocking Miss Pilgrim (Sua Alteza, a Secretária, George Seaton, 1947), porém a série optou por reforçar a imagem de uma estrela superproduzida e disposta a tudo pelo sucesso e fama. O sexo aqui é utilizado sem surpresas, já que existe uma teoria (não confirmada) de que Marilyn só teria conseguido o contrato graças a um “teste do sofá” com um dos principais produtores do estúdio. Dessa vez o musical de bastidores, a partir de “lendas” massivas sobre a estrela, reforça o mito hollywoodiano da relação das mulheres com o uso do sexo em seu favor.

O clichê do “teste do sofá” retoma uma personalidade que circula na cultura popular: Lorelei (personagem de Marilyn) em Os Homens Preferem as Loiras (Howard Hawks, 1953), um de seus musicais mais bem-sucedidos. A imagem da “loira ambiciosa” do show business que está disposta a transar com seu chefe em busca do papel principal acontece tanto dentro de “Bombshell” como no roteiro de Smash. Os mitos do entretenimento (FEUER, 2003, p. 31) são retomados como uma resposta conservadora do sexo heterossexual e branco no século XXI. Lembrar sobre os feitos de Marilyn é a principal forma de perpetuar, para um grande público, as principais ideias dos Estados Unidos (BATY, 1995, p. 36)

E se Marilyn como sinônimo de sexo já faz parte do imaginário dos espectadores, Smash retrata um momento pouco mediado de sua carreira: sua chegada ao New York Actors Studio, quando já era uma estrela. Quando se mudou para Nova York, Marilyn teve aulas privadas com Lee Straesberg, e começou a consultar o psicoterapeuta Dr. Housebergh. Para modernizar e buscar um retrato mais humanizado da atriz, a série constroi uma performance sobre o primeiro dia em que Marilyn decide frequentar as aulas do New York Actors Studio, “Dig Deep” (S02E11 — The Dress Reheasersal). A canção teve duas versões durante a série, sendo a primeira com uma atriz convidada (Uma Thurman) e a final com Ivy (Megan Hilty), sendo a segunda utilizada na trilha sonora oficial da série.

A performance começa retomando a cena de Marilyn em uma das cadeiras de aula da escola de atores. Inspirada em uma das aulas, a letra cita o método Stanislavski¹, e a atriz levanta na plateia esfuziante. Apesar de todos usarem um figurino preto, que de certa forma “uniformiza” os estudantes (assim como na foto original), Marilyn é o centro da aula. Longe de uma cena inexpressiva ou que ressalte apenas os atributos físicos da loira, a performance mostra o que vem atrelado à imagem de “deusa do cinema”.

Performance de “Dig Deep” com Marilyn na New York Actors Studio em Smash (esquerda). Ao lado, a foto que inspirou a apresentação (direita).

In history there’s this doctrine called Monroe 
which basically told the enemy where to go 
It was created to nurture and protect
But now a new Monroe doctrine is in effect

Tradução:
Na história existe uma doutrina chamada Monroe
que basicamente diz ao inimigo onde ir
Ela foi criada para educar e proteger
Mas agora uma nova Doutrina Monroe está acontecendo

No trecho acima Marilyn cita a “Doutrina Monroe”, uma medida dos Estados Unidos em relação a outros continentes que limitava o comércio e o imperialismo dos países na América. Essa ideia imperialista de limitação do mercado é colocada lado a lado com o efeito que Marilyn pretende causar nos principais meios de massa. A atriz foi a primeira capa da revista Playboy e sua chegada no cinema suscitou debates acerca da sexualidade feminina, principalmente o conceito freudiano (DYER, 2004, p.17). No caso, ela sabe que endorsa uma década (e até mesmo uma sociedade), e que sua aparição possui um grande alcance popular. A “nova Doutrina Monroe” seria liberdade sexual e psicanálise.

Durante a apresentação, Marilyn canta sobre como ser uma estudante da Escola de Atores de Nova York vai torná-la uma atriz prestigiada, ao mesmo tempo em que volta a cair em um jogo de sedução. A todo momento ela exalta seus atributos físicos e o usa para se destacar, deixando a entender que cedo ou tarde tudo o que importa na atriz é seu sexo latente (em versos controversos ela canta: “You must admit my shell looks good” (Você deve admitir que meu “casca” é bonita); e logo depois “I’ll finally get to use my mind’s interior, and not only just my bust and my posterior” Eu finalmente vou poder a usar o interior da minha mente, e não apenas meus seios e meu traseiro”).

O último número, “Don’t forget me”, mostra Marilyn depois de sua morte como um espírito para transmitir a mensagem final.

O último número de “Bombshell” é como uma consagração de Marilyn Monroe como figura popular. Em seu vestido dourado, com todo o palco apagado e um holofote sob sua cabeça, a figura quase-angelical começa “Don’t Forget Me” (S01E15 — Bombshell). Na letra ela lamenta a forma trágica com que viveu e morreu, o refrão possui referências de alguns momentos de sua vida:

Oh if you see someone’s hurt
And in need of a hand
Don’t forget me
Or hear a melody crying from some baby grand
You don’t forget me
When you sing happy birthday to someone you love
Or see diamonds you wish were all free
Please say that you won’t
I pray that you don’t forget me

Tradução:
Oh, se você vir alguém machucado
E precisando de uma ajuda
Não me esqueça
Ou ouvir a melodia de um piano chorando
Não me esqueça
Quando você canta “parabéns” para quem ama
Ou vê diamantes, você quer que eles sejam gratuitos
Por favor diga que não
Eu peço que não me esqueça

A falta de ajuda sofrida pelos seus problemas familiares, o pequeno piano de sua mãe, o “Happy Birthday” para o presidente Kennedy, e a canção de uma personagem sua famosa. Ficção, realidade e mito se misturam na última música, como se Marilyn não fosse uma pessoa e sim um conjunto de fatos, símbolos e ideias:

But forget every man who I ever met
’Cause they only lived to control
For a kiss they paid a thousand
Yet they paid fifty cents for my soul
They took their piece
The price of fame that no one can repay
Ah, but they didn’t buy me when they bought my name
And that is why I pray

Novamente a série retoma a visão masculina sob a qual Marilyn sempre sofreu durante toda sua vida. O ponto de vista da narrativa de “Bombshell” é conduzido pelos homens na vida de Marilyn ou o uso de seu poder sexual para um espectador masculino. Com o objetivo de tornar a letra mais Marilyn, inseriu-se a frase “Eles pagam mil por um beijo e cinquenta centavos pela alma”, que ela teria dito e que apareceu pela primeira vez na biografia “Marilyn In Her Words” de Roger Taylor.

A escolha de “Don’t forget me” para terminar o espetáculo é tida na série como uma lembrança póstuma de Marilyn Monroe com seu público, uma última mensagem antes dela se despedir e as cortinas se fecharem. A performance possui duas versões, uma na primeira e outra na segunda temporada de Smash (S02E12 — “Opening Night), sendo a última que mais reforça o “olhar masculino” sobre Marilyn. Na versão de Ivy, Marilyn é rodeada por todos os homens de sua vida, que a encaram e passam rapidamente. A partir do momento em que ela se torna uma figura sexual feita para os padrões heterossexuais brancos, a base de sua figura está no homem.

Considerações finais

Ao invés de apresentar os detalhes da vida de Marilyn Monroe, principalmente os que o público ainda não conhece sobre a grande estrela, Smash moderniza os estereótipos que sempre fizeram parte da história da estrela hollywoodiana. O sexo, os olhares masculinos, a psicanálise que “explicaria” todos os seus problemas são conceitos que representam uma vontade dos produtores de trazer de volta esses pensamentos dos anos 1950. Marilyn retoma um nacionalismo norte-americano numa época da ascensão da cultura pop:

“Os autores tentam reivindicar uma “verdade” a ser revelada, a cada novo livro ou imagem é acompanhado de novas lembranças “finais”. Nós estamos na década de 1990 rodeado de imagens da Marilyn dos anos 40, 50 e 60. Essas imagens são reconstruídas em relação a produtos, eventos e ícones contemporâneos.”. (BATY, 1995, p.34)

A Marilyn de “Bombshell” é tão ficcional como as grandes personagens de seus filmes: ingênua, burra, mercenária, filantrópica. Ao trazer uma personalidade do mundo cinematográfico, a série se esforça para criar uma aura divina em um dos ícones mais produzidos de Hollywood. Nos quatro números analisados é possível perceber como a produção se utiliza de informações verídicas para criar uma ficção que reforce a ideia “massiva” de Marilyn. Ao final não conhecemos Norma Jeane Mortenson e sim a Marilyn Monroe sob os holofotes e grandes câmeras do cinema e da televisão. Ao final, não sabemos da vida de uma pessoa, e sim do conjunto de interesses e ideias que eram carregados por ela.

“Dont Forget Me” se encerra com uma famosa imagem de Marilyn. Ao final o público teve acesso à mesma estrela hollywoodiana que circula na cultura pop com todos seus estereótipos.

Notas:

¹ Constatin Stanislavski, famoso teatrólogo russo que defendia a “revisitação” dos aspirantes à atores em seus traumas para se inspirarem.

Referências bibliográficas:

BATY, S. Paige. American Monroe: The making of a body politic. University of California Press, 1995.

DYER, Richard. Heavenly bodies: Film stars and society. Psychology Press, 2004.

FEUER, JANE. “The self reflective musical and the myth of entertainment”. Hollywood Musicals The Film Reader. London: Routledge, 2002.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Graal, 2015.

TURIM, Maureen. “Gentlemen consume blondes”. Issues in Feminist Film Criticism, p. 101–11, 1990.