“The Odyssey”: A Odisseia Musical de Florence + The Machine

Resumo: O artigo tem como intuito analisar os números do média-metragem musical The Odyssey (Vincent Haycock, 2016) da banda inglesa Florence + The Machine, mostrando como canalizam estes números para representar, através de performance e poesia, um período da vida de Florence Welch em uma autobiografia musical de caráter documental.

O gênero documentário se expandiu grandiosamente no cinema, tomando várias formas, uma delas foi o documentário ficcional autobiográfico. Um documentário ficcional é aquele que tenta capturar a realidade como ela é e simultaneamente introduz elementos irreais ou situações ficcionais na narrativa em função de fortalecer a representação da realidade usando da expressão artística. Já o filme autobiográfico:

A primeira e mais fundamental de todas é a reunião dos papéis de narrador, protagonista e diretor numa mesma pessoa. É a característica que define mais claramente o filme autobiográfico. Além disso, é possível notar o predomínio da linguagem poética, a encenação como forma de reinventar a si mesmo, a utilização de imagens de arquivo, sejam essas imagens de vídeos domésticos ou fotografias, o uso do discurso em primeira pessoa, a narração em off pessoalizada, a ironia e o humor, dentre outros. De uma forma geral, são filmes que trabalham com o risco e que colocam em evidência o passado desses cineastas (REZENDE, 2009, p.7)

The Odyssey, surpreendentemente se encaixa dentre as definições de um documentário ficcional autobiográfico, exceto pela sua direção, que Florence Welch preferiu deixar nas mãos de Vincent Haycock. O filme tem muita semelhança com a obra Odisseia, de Homero, já que se trata de uma verdadeira jornada. Florence desmascara seu passado e exibe sem nenhum pudor sua jornada para encontrar a si mesma durante um tornado de emoções, buscando aprender a amar, em um mundo que a cada dia mais tenta escapar disso.

“Esse é o final de um projeto muito pessoal que se originou de uma conversa entre Vince e eu cerca de 1 ano e meio atrás enquanto estava escrevendo How Big How Blue How Beautiful (Terceiro álbum da banda, lançado em 2015). Estava falando com ele sobre o álbum e a colisão de um término de relacionamento que estava passando. Os altos e baixos do amor e da performance, o quão fora de controle me senti, o purgatório do coração partido, e como estava tentando mudar e ser livre. E nós decidimos que iriamos recontar essa história por completo. Iriamos nos reivindicar desta experiência, repensar e de alguma forma talvez eu viria a entendê-la, para exorcizá-la. E então a Grande Odisseia Azul começou…”
– Florence Welch

Ameaçada pelo narcisismo em dualidade ao fracasso, o impossível é dado como ponto de partida nessa jornada. Para bem, ou para o mal, Florence é o centro de referência e questão do filme, e se representa a partir de sua própria experiência de auto-reflexão, se encarando como personagem. Se escrever o álbum já foi um processo doloroso, documentar toda essa intimidade poderia ser a sua ruína, mas também poderia ser sua ascensão.

A narrativa mescla nove de suas músicas com poemas próprios e diálogos, com Florence sempre presente em tela, os capítulos de sua odisseia variam em suas técnicas de filmagem, usando desde planos curtos até planos longos e planos sequências em completo, com o intuito de aproximar o espectador ainda mais de se sua narrativa e de sua dor.

Analiso alguns de seus capítulos, os enxergando não somente como videoclipes que se conectam para contar um período de sua história, mas como uma jornada narrativa com caráter de registro, que utiliza do lúdico e do corpo como lugar de construção para quebrar o cinema-verdade.

Capítulo 2 — How Big, How Blue, How Beautiful

“O que vamos fazer? Nós abrimos a porta, e agora tudo está vindo. Até nós o vermos também, nós abrimos nossos olhos e a visão está mudando.”

Voltando ao lugar exato onde seu terceiro e mais recente álbum começou a tomar forma durante o caos, entre o crucifixo e o letreiro de Hollywood, Florence se encontra perdida, mas sabe que acabou de fazer sacrifícios e os tenta entender em prol de sua libertação. Um batismo acontece, um renascimento, seus olhos se abrem e ela enxerga sua vida sob uma nova perspectiva. Tudo é novo, tudo é lindo, mas as marcas da relação ainda muito presentes, seus desejos que contradizem suas metas, diante ao caos da beleza de um céu azul e sua imensidão. Acima a beleza e em baixo o abismo, onde cada escolha errada se encontra. Hollywood era sua caixa de Pandora, tudo à foi dado, mas nem tudo estava em seu pleno controle.

Capítulo 3 — St. Jude

“E eu estou aprendendo então estou partindo, e mesmo que eu esteja lamentando, eu estou tentando achar o sentido. Deixe que a perda revele”

Inteiramente montado para parecer um plano sequência, o terceiro capítulo da odisseia é visualmente impactante e a narrativa cinematográfica usada para contar o período de recuperação de Florence consegue ser tão íntima quanto a letra da canção. É inspirado em A Divina Comédia(Dante Alighieri, séc. XIV), especialmente no Purgatório dantesco, onde as almas assistem às punições das outras almas que por pecarem mais intensamente foram para o Inferno. Alguém precisa perder para que possa encontrar seu verdadeiro significado. Ela prepara para deixar o seu amor e mesmo que doa, é uma odisseia necessária e que foi de sua escolha ser feita sozinha. São Judas é o santo padroeiro das causas perdidas, e era exatamente assim que Florence enxergava a sua batalha, como uma causa perdida, mas ela se sentia mais confortável perante o caos, já que dizia que se sentia depressiva quando não estava em meio a tormenta das viagens em turnê e da bagunça de sua vida com a música.

Capítulo 4 — Ship To Wreck

“Eu bebi demais? Estou perdendo o contato? Eu construí esse navio para naufragar?”

Gravado em sua própria casa, Florence dá um passo a mais em permitir registrar as vulnerabilidades de seu lar, o caos em sua forma mais intimista com alguns de seus familiares em cena. Com a câmera em mãos e movimentos frenéticos, sua casa vira palco da dualidade de suas emoções, suas batalhas internas e a quebra de comportamentos sociais obrigatórios. Sendo conduzida a um claro relacionamento abusivo, se encontra questionando suas próprias ações, e colocando toda a culpa da falha no relacionamento em si mesma, o evidente gaslighting (uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade) que sofreu durante a relação.

Capítulo 5 — Queen of Peace

“De repente fui derrotada, dissolvendo-se como o pôr do sol, como um barco no esquecimento, porque você está me afastando.”

O quinto capítulo da Odisseia é talvez o mais metafórico de todos os 9. Neste número, 4 dos 5 elementos de um número musical propostos por Richard Dyer em seu artigo “Entertainment and Utopia” estão presentes. São eles a Energia, Intensidade, Transparência e Comunidade.

Se mostrando uma pessoa disposta a agradar a todos, amigos, amores e família, disposta ao impossível, Florence entrega toda a sua energia em cena, determinada a agir com vigor, distribui abraços e tenta consertar os problemas de todos ao seu redor, entregando seu amor por inteiro às situações. O número também se encaixa na transparência, onde a qualidade de relacionamento entre os personagens em tela é autêntico e sincero.

O mais evidente deles além de Energia, é o elemento Comunidade, onde há todo o esforço para criar a atmosfera familiar, o sentimento de cada integrante de pertencer naquele lugar. Todos usam e abusam de seu amor e generosidade, mas ninguém se mostra disposto a tornar a ajuda recíproca, sendo totalmente consumida por seus familiares.

Capítulo 8 — Delilah

“Eu vou ser livre, e eu ficarei bem esperando você ligar, eu vou ser livre e ficarei bem, talvez não esta noite, e o sol está subindo, estou ficando cega, esperando você ligar. Mais uma bebida para passar o tempo, eu nunca consigo dizer não”

Entre o capítulo 7 e 8, é feita uma reconstituição de uma das mais importantes decisões e conversas de sua jornada. A penúltima camada do purgatório de Dante, em um motel o enfrentamento com os demônios chega, seus próprios demônios. Demônios representados primeiramente pela figura de um íncubo (ser mitológico que se alimenta da força sexual feminina, sobre o seu corpo). Em uma intensa busca espiritual, repleta de coreografias de lutas e movimentos em combinação com a música mais enérgica da jornada. Em um diálogo prévio à canção, um senhor a explica que não é possível amar alguém e recomeçar a vida sem isso, mas que de qualquer forma o amor próprio deve ser encontrado, assim como a habilidade de se perdoar.

Capítulo 9 — Third Eye

“Ei, olhe para cima, você não precisa ser um fantasma, aqui entre os vivos você é carne e sangue, e você merece ser amada, e merece o que lhe é dado, e muito!”

O terceiro olho na tradição hinduísta, simboliza um estado elevado de consciência, através do qual seu dono pode perceber o mundo. O olho que potencializa seu poder de percepção através da clareza e da acuidade mental. Era exatamente o que Florence precisava para superar e ascender do último ciclo do purgatório, alcançando a tão desejada redenção, finalmente reconhecendo o que estava evidente durante toda a trajetória, é preciso se perdoar e não se isolar, não construir uma sombra sobre você mesmo. No entanto sua odisseia não é tão simples, é um processo que não tem fim, o seu último capítulo é apenas um recomeço, a mudança é constante.

A gravação de Third Eye, o capítulo final de A Odisseia em plano sequência.

Vincent utiliza de mais um plano sequência, e juntamente de Florence provam a valorização pela técnica de filmagem, que é claramente realizada para aproximar o espectador a vida pessoal e ao sofrimento dela, um conjunto em equipe que amplificou o já grande poder de “Long and Lost” e “St. Jude”, aqui também usada para deixar uniforme o caminho para a sua libertação, e se encontra já performática, sem receio de amar, mesmo em um mudo que já a machucou tanto. “Eu sou a mesma, eu sou a mesma, estou tentando mudar” ecoa, ela em imagens prestes a voltar aos palcos para seu grande público, pelo qual Florence sempre prezou pela transparência, uma transparência que durante seu momento obscuro não podia ser revelada, por se tratar de um momento íntimo. Ao voltar aos palcos, ninguém cobra explicações, ela ama o seu público e seu público a ama, mas por decisão própria, consegue se manter honesta, e não houve maneira mais honesta, intimista e poética, do que documentar toda essa Odisseia e a transformar em arte.

O média-metragem completo está disponível no Vimeo e YouTube:

Referências bibliográficas:

ROITMAN, Julieta. “Miragens de si — ensaios autobiográficos no cinema.” Rio de Janeiro, 2007, Dissertação de Mestrado. PUC — Rio.

DYER, Richard. “Entertainment and Utopia”. In: Only Entertainment. London: Routledge, 1992. pp. 17–34.

FEUER, Jane. “The Self-reflective Musical and the Myth of Entertainment,” in Quarterly Review of Film Studies, vol. 2, n. 2, 1977.

DOCUFICTION. Em: Wikipédia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Docufiction. Acesso em: 25 de jul. de 2016.

Rocha, Helder. A Divina Comédia. Disponível em: www.stelle.com.br/pt/purgatorio/purgatorio. Acesso em: 25 de jul. de 2016

The Odyssey. Em: IMDB. Disponível em: http://www.imdb.com/title/tt5661826/ Acesso em: 25 de jul. de 2016.

The Odyssey. Em: Vimeo. Disponível em: https://vimeo.com/164437997. Acesso em: 20 de jul. de 2016.

Citron, Michelle. “Fleeing from documentary: Autobiographical film/video and the ethics of responsibility.” Feminism and Documentary, Visible Evidence 5, 1999, p. 271–286.

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