“The Wicker Man” ou o orgânico terror musical

Resumo: Este artigo terá como objetivo elaborar uma leitura musical de “The Wicker Man” (Robin Hardy, 1973), com uma análise das músicas presentes no filme e em como elas influem na narrativa. A classificação das performances musicais terá como base os critérios do artigo “Entertainment and Utopia” do Richard Dyer, buscando a tensão social e a utopia expressas nas performances.

O filme “The Wicker Man” de 1973, lançado no Brasil como “O Homem de Palha”, foi dirigido por Robin Hardy com roteiro de Anthony Shaffer. Faz-se necessário destacar que a trilha sonora é formada por músicas originais compostas por Paul Giovanni, grande parcela interpretada pelo grupo Magnet, que mesclam melodias tradicionais e baladas folclóricas. O artigo “Entertainment and Utopia” do Richard Dyer serve como base fundamental para uma análise acerca da tensão social e utopia expressas nas performances musicais.

O filme é introduzido com o personagem principal Sargento Howie (Edward Woodward) da polícia escocesa, cantando um cântico numa missa. Esse momento expressa comunidade, a fé numa mesma religião criando uma relação entre os presentes. É estabelecido um simbolismo ao personagem de aplicador das leis do Estado e das leis/dogmas católicos(as). Posteriormente ele sobe ao púlpito e lê trechos bíblicos, exprimindo sua devoção aos fundamentos da igreja católica. Em seguida, o Sargento recebe uma carta anônima com uma foto denunciando o desaparecimento de uma menina, Rowan Morrison (Gerry Cowper), numa ilha localizada na costa oeste da Escócia, chamada Summerisle.

A música (nomeada apenas como “Opening music”) que perpassa a ida de Howie de hidroavião para a ilha contém coral, semelhante ao da missa, mas é acompanhada por uma gaita de fole e fala sobre ir para o Norte do país, sem condições para comprar uma refeição, relembrando da abundância de quando o eu lírico da música “possuía diversas ovelhas”. Essa cena não apresenta teor utópico e sim de tensão social, expressando escassez. Tal música é interrompida quando o Sargento passa a sobrevoar Summerisle, a melodia que toca posteriormente é “Corn Rigs” de estilo mais folclórico, remetendo à mudança de “ares”, à barreira cultural que acabara de ser ultrapassada. Essa música retrata um encontro com Annie sob a luz da lua e entre a cevada— está implícito um encontro sexual no qual não houve muita insistência e aponta-se a beleza das colheitas, salientando a relação dessa comunidade com a prosperidade da colheita e a prosperidade sexual.

No primeiro contato do Sargento com os habitantes da ilha, eles deixam claro que a ilha é privada e que ele precisaria de uma autorização para entrar na mesma. Após mostrar a foto da menina para os habitantes, que dizem não reconhecê-la e alegam que a mesma não é da ilha, Howie lê o nome da mãe da menina, May Morrison (Irene Sunter), e é encaminhado para a casa da mesma. “Corn Rigs” toca novamente durante o trajeto do Sargento para a casa da mãe da menina, no entanto a música volta mais calma, passando serenidade para a cena. A melodia aborda como o clima estava calmo ao lado de sua amada e como o amor era sincero, expressando transparência na letra, ao mesmo tempo em que visualmente destaca a tensão social em forma de manipulação, já que os habitantes da ilha riem quando ele passa e o observam por todo o seu caminho. Ao chegar à casa de May Morrison, a mesma alega que tem uma filha, mas que não é a da foto. Leva-o até sua filha Myrtle Morrison (Jennifer Martin), que está pintando uma lebre, figura que aparece repetidamente na cena. Quando o Sargento pergunta para Myrtle sobre Rowan, a menina fala que Rowan é uma lebre.

Ulteriormente Howie se hospeda na taverna Green Man, e ao adentrá-la a melodia proveniente da flauta tocada pelos outros clientes da taverna cessa, fazendo com que todos o observem. Ao questionar sobre um quarto, o dono da taverna Alder MacGreagor (Lindsay Kemp) diz que sua filha Willow (Britt Ekland) irá guia-lo a um cômodo. Um dos clientes começa a cantar uma música, “The Landlord’s daugther”, sobre a filha do dono da taverna e os demais clientes o acompanham, cantando sobre como depois de conhecê-la não será capaz de amar outra mulher, ao mesmo tempo que a caracterizam como não sendo o “tipo de garota para se levar à casa da sua mãe”. A performance expressa manipulação, já que impõe um papel sexual para Willow, classificando-a como um certo tipo de mulher. Com teor claramente sexual é seguida aos risos, inclusive pelos de Willow, enquanto Howie fica calado o tempo inteiro, até que interrompe a música.

Quando o Sargento sai para caminhar em volta da taverna, vê vários casais tendo relações sexuais no gramado, ao passar entre eles a cena ocorre em câmera lenta sendo transpassada pela instrumental “Loving couples”. Os casais não se importam com a presença de Howie, deixando claro que em sua cultura não estão realizando nenhum ato impróprio, de forma que há a naturalização do ato sexual, expõe-se dessa forma que o Sargento se encontra preso aos dogmas católicos que demonizam a liberdade sexual, contrastando sua crença com a dos moradores da ilha, que veem o ato sexual de maneira natural. A performance expressa intensidade, já que Howie não se contém em se aproximar e andar no meio dos casais, objetivando sua utopia que seria o voyeurismo.

Casais se relacionando sob a visão de Howie.

Ao voltar para a taverna o Sargento decide se deitar, se direcionando para seu quarto, que se encontra no andar de cima da mesma. Enquanto isso, no andar de baixo, um dos clientes começa a cantar “Gently Johnny”. O Lorde Summerisle (Christopher Lee) leva Ash Buchanan (Richard Wren) até Willow para a iniciação sexual do mesmo, o que apelida de “sacrifício para Afrodite”, chamando-a de deusa do amor na forma humana. Lorde Summerisle observa um caramujo numa folha, saindo lentamente de sua concha, de forma que essa cena está representando o ato sexual “gentil” descrito pela música e pela cena do jovem entrando no quarto da Willow. O Lorde passa a observar dois caramujos se tocando, enquanto Howie reza de joelhos e se deita. A música se encerra junto aos gemidos de Willow e Ash, enquanto um caramujo anda sobre o outro. Essa performance expressa comunidade, apresenta a sensação de pertencimento, de forma que Willow é aclamada como a deusa do amor daquela comunidade.

Caramujos da cena descrita anteriormente.

Após uma noite de sono Howie decide visitar a escola da ilha. No caminho, presencia uma dança típica entorno de um mastro, onde meninos com fitas enroladas ao seu redor e presas ao mastro balançam sua cintura, a fita fazendo alusão ao ato sexual e masturbação. A música cantada por eles é “Maypole” fala sobre o ciclo da vida, a volta do homem para a natureza, ela expressa comunidade e energia. Ao se afastar desse desempenho, o Sargento olha pela janela da escola onde a professora Miss Rose (Diane Cilento) e as alunas estão acompanhando a música batendo apagadores e lápis nas certeiras, simulando masturbação do falo. Em seguida a professora pergunta para uma das alunas o que o mastro representa, as demais alunas respondem que representa o símbolo fálico. Miss Rose então explica que a imagem do pênis é venerada em religiões como a predominante na ilha, já que essa figura representa a força generativa na natureza. Howie entra na sala e pede para ter uma palavra com Miss Rose, ele questiona os ensinamentos da ilha, ela questiona se a polícia tem alguma autoridade nos assuntos da educação.

Ritual pagão com alusão ao falo.

A música “Corn Rigs” retorna no trajeto de Howie para a casa de Lorde Summerisle, ao chegar no terreno do Lorde, o Sargento se depara com mulheres nuas dançando em volta de uma fogueira e pulando a mesma, elas formam círculos que diminuem e se expandem, essa performance pode ser classificada como uma performance berkeleyana (referência ao cineasta Busby Berkeley), já que possui um plano zenital e apresenta pessoas formando padrões. A música cantada por essas mulheres se chama “Fire Leap” que fala sobre deixar a chama interior queimar e sobre a criação de uma criança, que fala do seu crescimento até se tornar rei. Essa música expressa comunidade e energia. Howie questiona sobre o que acabara de ver e sobre a possível exumação do corpo de Rowan ao Lorde Summerisle, o Lorde então responde que são lições de fertilidade e autoriza a exumação do corpo da menina.

Lições de fertilidade ao redor da fogueira.

No processo de exumação o Sargento encontra na sepultura de Rowan uma lebre, seguidamente dirige-se a casa do Lorde Summerisle, onde encontra Miss Rose e o Lorde cantando “The Tinker of Rye”, a música é interrompida quando Howie joga a lebre no chão da sala, o Lorde comenta com Miss Rose sobre como a pequena Rowan amava as lebres de março. A música narra o encontro de uma garota com um caldeireiro, onde na tentativa de reparar a caldeira da menina, o caldeireiro constata que foram colocados tantos pregos que o mesmo não poderia segurar, essa música estaria expressando a exaustão física e mental de Howie perante toda a situação.

Mais tarde em seu quarto na taverna, Howie vai se deitar depois de rezar, enquanto Willow que está nua deitada numa cama no quarto ao lado, começa a cantar “Willow’s song” e a bater na parede. Ela canta sobre estar só e pede para que ele a encontre, Howie parece incomodado, se aproxima da porta, coloca a mão na maçaneta abrindo a porta e em seguida a fecha com força. Willow segue em seu quarto batendo nos objetos enquanto dança e Howie fica escorado na parede em comum dos quartos. Esse momento expressa intensidade, o desejo que Howie sente é exposto e se mostra tão forte que ele não consegue se conter em se aproximar ao máximo, mesmo tendo a parede como barreira, mas ao final da música Howie não se entrega totalmente a ponto de ir ao encontro de Willow.

Willow e Howie sob tensão sexual.

No dia seguinte, na tentativa de sair da ilha para buscar reforço, percebe que seu hidroavião não consegue dar a partida, toca “The Masks” e os habitantes da cidade aparecem com máscaras de animais, que pertencem a sua comemoração do Dia de Maio. Essa música expressa manipulação, fica claro o jogo dos habitantes com o Sargento. Ao caminhar pela ilha disposto a encontrar Rowan por conta própria, Howie é atraído por Oak (Ian Campbell), que está vestido de cavalo, para onde os habitantes da ilha estão festejando, a música que toca nesse trajeto é “The Hobby Horse”, reafirmando o momento de manipulação da cena anterior.

O Sargento decide vasculhar todas as casas da ilha, em seu percurso toca “Searching for Rowan”, que dá continuidade ao caráter de manipulação, isso fica claro em uma das casas em que ele entra, ao abrir a porta de um armário, uma menina prega uma brincadeira nele, fingindo estar morta. Howie mostra desrespeito às tradições da vila, já que em seu caminho manda meninas tirarem suas máscaras de celebração e muda coisa de lugar nas casas onde vista.

Howie invade a procissão fantasiado de Punch (homem-tolo), no percurso toca “Procession”, os habitantes da vila seguem dançando o trajeto sagrado. Num determinado momento as mulheres da vila que o provocaram de alguma forma, começam a beliscá-lo com pedaços de madeira, nesse ato mostram o papel de provocadoras no jogo de manipulação dos habitantes da ilha. Ao chegarem num ponto especial do trajeto, seis espadachins formam o símbolo do sol sagrado e os habitantes da ilha começam a cantar a música “Chop chop”, enquanto um de cada vez coloca a cabeça no círculo que as espadas formam, depois que Howie vestido de Punch passa pelas espadas, supostamente cortam a cabeça de alguém fantasiado de lebre, a situação era armada pois era Holly fantasiada com uma cabeça falsa de lebre. A música voltada para os habitantes representa energia e comunidade, mas para Howie representa manipulação.

Espadachins formando o símbolo do sol sagrado.

Em outro trajeto da procissão Rowan aparece e o Sargento ainda vestido de Punch se aproxima dela, que pede ajuda para ele, que a desamarra e corre junto dela. Rowan passa a guiá-lo pelo caminho de fuga, leva-o para onde o verdadeiro sacrifício ocorrerá. Howie fica surpreso quando Rowan os reúne com Lorde Summerisle. Os demais habitantes auxiliam no preparo de Howie para o sacrifício, explicam para ele que ele é o sacrifício perfeito e que assim terão prosperidade na colheita desse ano — já que ele chegou ali por vontade própria, com o poder de um rei representando a lei, como um homem virgem e um “tolo”, referindo-se a sua fantasia. A música “Appointment with the wicker man” toca do preparo do Sargento até o primeiro encontro do mesmo com “O Homem de Palha”. A melodia representa comunidade e a intensidade de emoções daquela comunidade ao realizar um sacrifício humano em prol do que acreditam e que beneficiará todos.

O “Homem de Palha” sendo apresentado a Howie.

Os habitantes colocam Howie dentro do “Homem de Palha” junto de diversos animais e ateiam fogo, a música “Sumer is a-cumen in” é cantada em coro pelos habitantes que dançam de mãos dadas, mostrando novamente comunidade e intensidade. A música refere-se ao verão que está por vir e que trará consigo prosperidade para a colheita. Howie dentro do “Homem de Palha” pegando fogo, começa a cantar orações católicas. Quando o fogo aumenta ele se encolhe e começa a rezar.

O “Homem de Palha” sendo engolido pelo fogo.

Dando a entender a morte de Howie, a cabeça do “Homem de Palha” é engolida pelo fogo e cai, revelando-se por trás dela o pôr do sol. A melodia dessa cena é “Sunset”, ela representa a vitória dessa comunidade, como se tivessem alcançado todos os seus objetivos, não há remorso já que era necessária a morte de Howie para um novo verão começar.

A importância de elaborar uma releitura musical do filme “The Wicker Man” dá-se em seu enredo construído em volta de suas músicas, que são muitas vezes diegéticas e facilmente naturalizadas no contexto pelo espectador, por se tratar de uma religião pagã, onde seus ritos, por uma expressiva parcela de espectadores, lhes são alheios, atribuindo a “The Wicker Man” uma organicidade ímpar. Outro feito deste filme é a representação de uma sociedade contra-hegemônica riquíssima em detalhes, isso se expressa na negação e até punição ao poder das leis cristãs e das leis do Estado, que se livra do cristianismo e utiliza-se do dogmatismo católico a seu favor — isso é mostrado no ideal de sacrifício perfeito onde se objetiva num homem virgem devido a sua fé e com o poder de um rei, representando a lei. Outro ponto destacável é em como ele se opõe aos demais filmes de terror e ainda assim é mais aclamado como thriller do que como um musical. Essa oposição é em como nele se objetiva a castração, categoria que é classificada por Linda Williams em seu artigo “Film Bodies: Gender, Genre, and Excess”, como uma fantasia originária desse gênero. Já que comumente os filmes de terror costumam punir as mulheres sexualmente ativas, mas “The Wicker Man” e toda sua contra-hegemonia castra o homem virgem.

Referências bibliográficas:

BASTOS, Leonardo. A dança do prazer, A representação da pulsão sexual no filme musical de Hollywood. Monografia — Universidade Federal Fluminense, 2011.

DYER, Richard. “Entertainment and Utopia”. In. COHAN, Steven (ed.). Hollywood Musicals, The Film Reader. Routledge, 2002, p.19–30.

IVAKHIV, Adrian. “Cinema of the Not-Yet: The Utopian Promise of Film as Heterotopia”. Burlington: University of Vermont, 2011.

The Internet Movie Database, The Wicker Man (1973). Disponível em: <http://www.imdb.com/title/tt0070917/>. Acesso em: 30 de julho de 2016.

VIEIRA, João Luiz. “Cinema e Performance”. In. XAVIER, Ismail (org). O Cinema do Século. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 337–351.

WILLIAMS, Linda. “Film Bodies: Gender, Genre, and Excess”. In: GRANT, Barry Keith. Film Genre Reader IV. Austin: University of Texas Press, 2012. p.159–177.