A primeira vez em que Johnny Cash falou comigo não foi de maneira direta


[um conto de jorge rocha]

Havia essa canção sendo construída: ele a mostrava para alguém e eu estava ali, prestando atenção respeitosamente, sem saber se havia sido convidado ou não. Permanecer quieto pareceu-me o mais lógico a ser feito, embora eu não parasse de andar pela sala, tomando cuidado para não fazer nenhum barulho. Lembro da melodia de cada acorde tocado no órgão, embora não recorde — ou não tenha reconhecido — quem estava tocando. Mas eu sabia que precisava lembrar de cada nota, de cada frase melódica, de cada estrofe daquela canção e que isso poderia ser a diferença entre a vida e a morte. Era uma melodia lenta, forte e bem marcada. Ele cantava sereno, de olhos fechados, sílabas escandidas, alongadas e reconfortantes. Lembro de cada verso e cada estrofe dessa canção, cada frase indo direto ao ponto, sem rodeios ou floreados. Uma parte falava sobre como é fácil sentir-se uma presa indefesa debaixo de um céu azul. Ainda faltavam algumas frases para terminar a letra e, ouvindo-o cantar, eu tentava terminar a canção como se fosse minha. Demorou um pouco para que eu compreendesse que era uma forma de oração e essa compreensão me levaria a um choro piedoso, tempos depois. Não era uma oração do tipo que se faz ao levantar, mas uma daquelas que é impossível evitar que venha à luz. Entendo um pouco de orações: tem se tornado cada vez mais comum retirar delas nomes de pessoas para quem pedia proteção.

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